Itamaraty abafa diplomacia da máscara, e doações chinesas emperram por logística

11 toneladas de equipamentos médicos para combate à Covid-19 estão parados na China desde abril

São Paulo

Uma doação de 11 toneladas de equipamentos médicos para combate à Covid-19 no Brasil está emperrada na China desde o início de abril.

Segundo pessoas que acompanham o assunto, a doação oferecida pela empresa chinesa ByteDance, dona do aplicativo TikTok, encontra-se empacada devido a obstáculos logísticos, mas haveria também má vontade do Itamaraty por motivos ideológicos.

A ordem no Ministério das Relações Exteriores é não priorizar doações da China e não alimentar a chamada “diplomacia da máscara” —estratégia chinesa de usar doações de equipamentos médicos para ganhar influência no mundo.

Jair Bolsonaro, à esq., caminha junto com o líder chinês, Xi Jinping, durante visita do presidente brasileiro a Pequim
Jair Bolsonaro, à esq., caminha com o líder chinês, Xi Jinping, durante visita do presidente brasileiro a Pequim - Noel Celis - 25.out.19/AFP

Quando algum carregamento finalmente chega ao Brasil, a orientação na cúpula do Itamaraty é não dar visibilidade nem anunciar a novidade em redes sociais, ao contrário de doações feitas pelos EUA.

A doação da ByteDance, avaliada em US$ 1 milhão (R$ 5,24 milhões), inclui 90 ventiladores pulmonares, 450 mil máscaras cirúrgicas, 100 mil pares de luvas e 25 mil roupas de proteção. O Ministério da Saúde aceitou a doação no final de abril, mas o carregamento ainda não saiu da China.

Esse é apenas um dos inúmeros carregamentos de equipamentos médicos do país asiático que continuam à espera de transporte ou de desembaraço burocrático.

Há ainda 10 mil máscaras cirúrgicas da empresa chinesa Didi, 80 mil máscaras descartáveis e 20 mil do modelo N95 da China NGO Network for International Exchanges (CNIE), além de 3.000 viseiras de proteção da DJM —as doações são todas para o governo federal.

Na terça-feira (16), o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, informou em sua conta no Twitter que realizou uma conferência online sobre cooperação internacional contra a Covid-19.

O evento teve a presença de autoridades estaduais e municipais brasileiras —representantes dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro e das prefeituras de Niterói, Japeri e Mangaratiba—, além de nomes da instituição de pesquisa Fiocruz.

O embaixador também anunciou a chegada de um carregamento de 2 toneladas de materiais médico-hospitalares doados pelo governo chinês e afirmou ter disponibilizado um novo lote de R$ 1,5 milhão em equipamentos de saúde destinados especificamente ao estado do Amazonas.

O transporte dessas doações é 100% financiado pelo governo chinês, ao contrário das outras que estão emperradas. Segundo Yang, empresas, províncias e municípios da China já efetivaram ou anunciaram doações estimadas em mais de R$ 30 milhões ao Brasil.

Nada disso foi informado nas redes sociais do Itamaraty ou do chanceler Ernesto Araújo. Em contrapartida, o ministro celebrou, em 31 de maio, a chegada ao Brasil de 2 milhões de doses de hidroxicloroquina doadas pelos EUA. “Cooperação Brasil-EUA no combate à Covid-19 continua avançando", escreveu.

Na ocasião, o Itamaraty também divulgou um comunicado conjunto com o governo americano. “O povo brasileiro e o povo norte-americano solidarizam-se na luta contra o coronavírus. (...) Os Estados Unidos também enviarão em breve mil ventiladores para o Brasil.”

Procurado, o Ministério da Saúde informou que, a princípio, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), subordinada ao Itamaraty, “sinalizou que tentaria arcar com as despesas de transporte da carga doada” até São Paulo, referindo-se à doação de US$ 1 milhão da ByteDance.

“No momento, o Ministério da Saúde busca uma solução para o transporte aéreo até o Brasil. Cabe ressaltar o alto custo do frete aéreo, tendo em vista que um voo de avião cargueiro custa cerca de US$ 1,5 milhão [R$ 7,87 milhões], e a aeronave comercial que tem trazido as cargas tem um custo aproximado de US$ 400 mil [R$ 2,01 milhões] por voo.”

No entanto, o Ministério da Infraestrutura já fretou 22 voos da Latam para trazer 135 milhões de máscaras cirúrgicas e do modelo N95 compradas pelo governo federal na China —e ainda prevê outros 22 voos para buscar o restante dos equipamentos médicos.

O governo dos Estados Unidos ofereceu o transporte para a doação dos 1.000 ventiladores, dos quais 200 devem chegar em breve.

Segundo a embaixada americana, o governo anunciou mais de US$ 12,5 milhões (cerca de R$ 65,5 milhões) em doações, incluindo os mil respiradores, e empresas americanas contribuíram com mais de US$ 40 milhões (R$ 209,7 milhões) de ajuda.

Sobre a doação da Didi, o Ministério da Saúde afirma que aguarda o envio dos produtos pela embaixada do Brasil em Pequim, o que já foi autorizado pela ABC. Em relação às outras, a pasta diz que a agência de cooperação aguarda receber a documentação que permita a análise técnica das doações.

A pandemia do coronavírus aumentou as tensões entre China e Estados Unidos, que já vinham altas, por causa da guerra comercial.

Os EUA culpam a China pela disseminação da doença —segundo os americanos, os chineses não foram transparentes no início da pandemia.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o presidente Donald Trump já insinuaram mais de uma vez que o vírus pode ter saído, de forma proposital ou acidental, de um laboratório em Wuhan.

A China, em contrapartida, acusa os EUA de tentarem culpar o governo chinês por motivos eleitorais. Trump enfrenta uma eleição presidencial neste ano e é alvo de críticas pela forma como conduziu o país durante a pandemia. Os EUA têm o maior número de casos e de mortes por Covid-19 no mundo.

Procurados, o Itamaraty, a embaixada da China no Brasil e a ByteDance não quiseram se pronunciar.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.