Complexo nuclear do Irã sofre incêndio, e especialistas falam em sabotagem

Não houve vítimas ou vazamento de material radioativo, segundo as autoridades locais

Teerã, Dubai e São Paulo | Reuters e AFP

O Irã relatou nesta quinta-feira (2) um incêndio no complexo nuclear de Natanz —segundo o governo, não havia material nuclear nem funcionários no local e não há registro de vítimas nem de contaminação radioativa.

O porta-voz da Organização Iraniana de Energia Atômica, Behruz Kamalvandi, afirmou que as causas do acidente serão investigadas e que o centro de enriquecimento de urânio segue operando em seu ritmo habitual.

Depósito atingido por incêndio em Natanz, no Irã - Organização Atômica do Irã/AFP

Mas um oficial de inteligência que atua na região (e não quis ser identificado) disse ao New York Times que a destruição foi causada por um explosivo colocado dentro da instalação.

Ainda segundo o jornal, antes que as notícias do incêndio se tornassem públicas, diversos jornalistas do serviço de língua persa da rede BBC receberam emails de um grupo que se apresentou como Homeland Cheetahs.

Na mensagem, o grupo dizia ser composto por dissidentes militares do Irã e assumia a responsabilidade pela destruição no complexo.

O jornal não conseguiu, entretanto, confirmar se o Homeland Cheetahs era um grupo real e se era doméstico, como alegava, ou apoiado por algum outro país.

O incêndio desta quinta-feira ocorreu uma semana depois de uma explosão perto de instalações militares em Parchin, nos arredores de Teerã. Segundo o governo, o incidente de 26 de junho também não deixou vítimas.

A possibilidade de a destruição desta quinta ter sido fruto de uma sabotagem não é descartada por especialistas. Em 2010, Natanz foi alvo de um ciberataque que provocou danos em centrífugas.

Alguns analistas identificaram o local como um edifício de montagem de centrífugas, o que tornaria o incidente um revés para o controverso programa nuclear iraniano.

Estados Unidos e Irã romperam relações diplomáticas em 1979, mas passaram por uma reaproximação durante o governo de Barack Obama.

O ponto alto foi a assinatura do pacto nuclear em 2015, do qual participavam também Reino Unido, França, Alemanha, China e Rússia, com apoio da ONU.

As instalações de Natanz estão entre os locais de enriquecimento de urânio monitorados pela agência de vigilância atômica ligada à ONU, como parte do acordo.

O país sempre negou que buscasse desenvolver uma arma nuclear, como argumentam Estados Unidos e Israel, e diz que seu programa de pesquisa é voltado para a geração de energia.

Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do pacto, reposicionando e intensificando sanções contra o Irã. Desde então, Teerã tem reduzido gradualmente seus compromissos com a redução do enriquecimento de urânio.

Pelo texto acordado, o Irã só poderia enriquecer urânio nas instalações de Natanz com pouco mais de 5.000 centrífugas IR-1 de primeira geração, mas o país instalou nos últimos anos novas cascatas de centrífugas avançadas.

Em janeiro, a tensão entre EUA e Irã escalou quando os americanos mataram o principal comandante militar iraniano à época, Qassim Suleimani, em uma operação no Iraque. Mas a situação arrefeceu nas semanas seguintes.

Nesta terça (30), o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que as centrífugas iranianas representam uma ameaça.

"O Irã também está acumulando conhecimento perigoso", afirmou ele, defendendo a extensão de um embargo de armas a Teerã que expira em outubro.

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