Descrição de chapéu Coronavírus

Em livro, pesquisador defende lógica de gastos militares em planos de combate a epidemias

'Inimigo Mortal' detalha como governos acertaram e erraram ao lidar com surtos nas últimas décadas

São Paulo

Nos anos 1970, a varíola só pôde ser erradicada porque houve cooperação entre as duas maiores potências à época, os Estados Unidos e a União Soviética.

Se um dos lados não se engajasse, os esforços teriam sido em vão, analisa o epidemiologista americano Michael Osterholm, autor de "Inimigo Mortal".

Escrito em conjunto com o documentarista Mark Olshaker, o livro conta histórias de combate aos vírus que a humanidade já enfrentou, como HIV, ebola e zika, com foco na política e nas ações em campo.

Pesquisadores trabalham em laboratório da Yisheng Biopharma em Shenyang, na China
Pesquisadores trabalham em laboratório da Yisheng Biopharma em Shenyang, na China - Noel Celis - 10.jun.20/AFP

Osterholm, 67, é diretor do centro de pesquisa de doenças infecciosas da Universidade de Minnesota e atua como epidemiologista desde a década de 1980.

Ele compara o combate a epidemias aos gastos militares: depois do 11 de Setembro, houve grande incentivo para reforçar a defesa nacional, como a criação de novos armamentos e equipamentos de guerra e espionagem. O mesmo, no entanto, não ocorreu após os surtos de H1N1 e ebola.

"O setor de defesa está acostumado a orçamentos plurianuais. Não é possível desenvolver um sistema ofensivo em um ano", diz ele. "Mas quase tudo que fazemos em termos de contramedidas médicas também leva mais de um ano, e os orçamentos precisam ser renovados anualmente no Congresso."

O fato de não ter compras garantidas afeta a produção de vacinas. Seu custo de criação é elevado, especialmente na fase final, quando pode superar US$ 1 bilhão (R$ 5,37 bilhões).

Sem garantia de retorno financeiro, as farmacêuticas preferem, muitas vezes, não arriscar. Aí cabe a governos e entidades filantrópicas globais ajudar ou não a pagar a conta.

Osterholm aponta que há poucos esforços para buscar uma vacina contra o ebola porque os países da África, onde a doença é mais ativa, não teriam condições de pagar. Sem essa proteção, uma onda do vírus no continente em 2014 matou 10 mil pessoas e gerou ao menos US$ 8 bilhões (R$ 43 bilhões) em perdas.

Outro risco é a vacina chegar tarde. Na epidemia da H1N1, o auge de casos ocorreu em 2009, mas a imunização só surgiu no começo de 2010, quando as infecções estavam em baixa.

A doença perdeu força em seguida, e os governos não compraram as quantidades que as empresas esperavam vender. Um remédio revolucionário garante décadas de vendas. Uma vacina, nem sempre.

O autor aborda também os riscos do bioterrorismo e das pesquisas de uso dual: laboratórios que estudam vírus perigosos, oficialmente em busca de vacinas, podem estar buscando novas armas de guerra.

"Temos atualmente ferramentas microbiológicas capazes de manipular genes de micróbios que, 20 anos atrás, talvez estivessem disponíveis apenas nos mais avançados laboratórios. Hoje, estão em salas de aula de biologia do ensino médio e são usadas por cientistas amadores", alerta.

Assim, mais pessoas têm acesso a meios para acelerar a evolução de vírus e bactérias. A dúvida é se essas novas versões seriam capazes de sobreviver no mundo real e de se espalhar entre os humanos.

Em 1977, um surto de H1N1 ocorreu em partes da Rússia e da China e foi relacionado a testes militares feitos com o vírus em laboratórios estatais. Esse tipo de rastreamento é possível pela análise de DNA.

A primeira edição do livro foi lançada em 2017, e a edição atual traz um prefácio, escrito em março, sobre a atual pandemia. Osterholm defende que os EUA deveriam liderar o combate a doenças de alcance global, pois chegar a um consenso internacional, com União Europeia, China e Índia, seria demorado.

Os confrontos atuais entre Washington e Pequim durante a crise do coronavírus mostram que um acordo como o que levou ao fim da varíola parece algo distante.

Inimigo Mortal

  • Autor Michael T. Osterholm e Mark Olshaker
  • Editora Intrínseca
  • Páginas 304
  • Preço R$ 49,90 (impresso) e R$ 34,90 (ebook)
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.