Com letalidade 10 vezes a da Covid-19, ebola persiste na República Democrática do Congo

Epidemia esteve perto de ser declarada extinta, mas novos casos surgiram nos últimos dias

São Paulo

Enquanto a Covid-19 monopoliza a atenção global, uma epidemia esquecida segue matando numa das regiões mais instáveis do continente africano.

O surto de ebola no leste da República Democrática do Congo foi oficialmente declarado em agosto de 2018 e desde então já deixou 2.266 mortos entre 3.311 infectados.

Trabalhadores da saúde enterram corpo de vítima do ebola em Butembo, na República Democrática do Congo, em maio de 2019 - John Wessels - 16.mai.2019/AFP

A taxa de mortalidade é de estratosféricos 68,4%, ou dez vezes a do coronavírus na média mundial (6,88%). Dentre os infectados, 29,2% são crianças.

Este já é o segundo maior surto de ebola da história, perdendo apenas para o que atingiu países da África ocidental entre 2013 e 2016, quando houve mais de 11 mil mortos.

Há duas semanas, a epidemia esteve muito próxima de terminar. Apenas 48 horas antes de vencer o prazo mínimo de 42 dias sem um novo caso, que encerraria oficialmente a crise, um eletricista de 26 anos morreu de ebola na cidade de Beni.

Desde então, surgiram pelo menos mais dois novos casos, e a perspectiva é de que a epidemia se prolongue por no mínimo mais alguns meses, podendo novamente sair de controle.

Em comunicado no dia 14 de abril, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconheceu que “um progresso enorme foi feito para conter esse surto em circunstâncias muito difíceis”.

Mas ele lamentou que grupos armados estejam ativos na área onde os casos foram identificados. Além disso, afirmou Ghebreyesus, “a falta de recursos limita a resposta, e a pandemia da Covid-19 criou mais desafios para uma operação que já é complexa”.

Desde o ano passado, há uma vacina disponível, mas a logística de distribuição na região leste da República Democrática do Congo é dificultada pela infraestrutura de transporte precária e pela situação de insegurança.

A incidência do coronavírus nas regiões afetadas pelo ebola ainda é relativamente pequena, com algumas dezenas de casos, mas a doença tem avançado rapidamente.

Localizada no centro da África, a República Democrática do Congo tinha até esta terça-feira (21) 350 casos confirmados de Covid-19, com 25 mortes, segundo dados do Worldometer.

Eles estão espalhados pelo território congolês, ao contrário do ebola, concentrado em duas províncias do leste, Ituri e Kivu Norte.

O extenso país, cuja área é o equivalente a 1,5 vez à do estado do Amazonas, ainda enfrenta um surto de sarampo na região oeste, que já deixou 6.000 mortos desde o início de 2019.

Para as equipes de ajuda humanitária que estão há quase dois anos tentando conter o alcance de ebola, a chegada de uma epidemia “concorrente” é uma péssima notícia.

“O surto no Congo sempre foi uma crise esquecida, mesmo quando estava desacompanhada. Agora ela ocorre junto com uma crise global, em que os países que costumam doar recursos contra o ebola também estão sendo afetados”, diz Johnson Lafortune, responsável pelo combate ao ebola da ONG World Vision International, com sede no Reino Unido.

Lafortune conversou com a Folha por telefone de Goma, cidade na fronteira com Ruanda, que vive há décadas os efeitos da instabilidade crônica da região.

Desde os anos 1990, dezenas de grupos armados disputam controle sobre o leste da República Democrática do Congo, região rica em minerais. Alguns são patrocinados por países vizinhos, como Ruanda e Uganda, e tentam desestabilizar o governo central, baseado na distante capital congolesa, Kinshasa.

“Temos casos de intrusão de grupos armados em vilas no meio dessa crise. Hoje de manhã mesmo, eu estava lendo um relatório feito por nosso oficial de segurança sobre o número de pessoas mortas ou atacadas nos últimos dias”, afirma Lafortune.

Em razão dos ataques, milhares de pessoas estão constantemente em movimento na região, o que dificulta o tratamento dos doentes e ajuda a espalhar o vírus.

Embora as doenças tenham paralelos, há diferenças importantes que acabam atrapalhando o trabalho de combate ao ebola.

Enquanto o novo coronavírus é transmissível pelo ar, o ebola se propaga sobretudo por meio do contato com o corpo ou fluidos vitais de uma pessoa contaminada, além de objetos que possam ter sido manuseados.

“No caso da Covid-19, a orientação é ficar em casa, não sair para a rua. Para o ebola, a resposta inclui rastrear os contatos que a pessoa teve. Isso significa colocar uma equipe numerosa em campo para fazer esse mapeamento em meio a uma situação de confinamento”, explica Lafortune.

A Covid, embora bem menos mortal que o ebola, é mais facilmente transmissível, e por isso se espalha com velocidade maior.

A World Vision tem cerca de cem pessoas dedicadas a combater o ebola no leste da República Democrática do Congo e mais de mil voluntários em diversas pequenas comunidades. Ligada a igrejas cristãs, a ONG se aproveita de uma extensa rede de contatos com religiosos locais, mas até isso está mais complicado.

“Estamos enfrentando muita resistência nas comunidades. No começo da epidemia de ebola, conseguimos contornar esse obstáculo com a ajuda dos líderes religiosos locais, para transmitir a necessidade de prevenção e conscientização. Agora tem sido mais difícil, porque muitas igrejas estão fechadas”, declara Lafortune.

Outro problema, diz ele, é a desesperança de parte da população, que não tem ânimo para reagir.

“Todos acreditavam que a epidemia de ebola estava acabando, e logo em seguida veio a Covid-19. As pessoas estão se perguntando o que mais pode acontecer com elas”, afirma.

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