Universidade com nome de general pró-escravidão vive crise de identidade nos EUA

Movimento quer remover referência a Robert Lee, que comandou Exército confederado

São Paulo

Os protestos contra figuras históricas associadas ao racismo geraram uma crise de identidade para uma histórica universidade localizada num vale pitoresco no estado americano da Virgínia.

Com raízes no século 18, a Universidade Washington & Lee (W&L) faz referência em seu nome a dois generais americanos. Sobre o primeiro, o venerado ex-presidente George Washington, nenhum problema.

Bem diferente é a imagem do segundo homenageado, Robert E. Lee, que comandou as tropas da Confederação na Guerra Civil americana (1861-1865).

À frente de um Exército que declarou independência por discordar da abolição da escravidão, Lee é um vilão para a maioria dos americanos. O conflito deixou cerca de 600 mil mortos.

Estátua de Robert E. Lee, comandante do Exército dos Estados Confederados, na cripta do capitólio, em Washington, D.C. - Mandel NganAFP

Mas a instituição de ensino, localizada na pequena cidade de Lexington, sempre teve uma visão mais benigna do general.

Em agosto de 1865, quatro meses após o fim da guerra, o derrotado Lee foi convidado pelo conselho da entidade, então chamada apenas de Washington College, para ser seu presidente, cargo que nos EUA mescla funções acadêmicas e institucionais.

Exerceu a função até sua morte, em 1870, aos 63 anos. “Durante cinco anos, ele [Lee] provou ser um educador criativo, cujas inovações curriculares transformaram um colégio clássico em uma universidade moderna”, diz o site da instituição.

Após a morte de Lee, o nome da universidade foi alterado para homenageá-lo. Um mausoléu com estátua foi construído na Capela Lee, dentro do campus, onde ele e sua família estão enterrados. No jardim em frente, descansa Traveller, o cavalo do general.

Tamanha conexão com uma figura associada ao racismo vem incomodando parte da universidade. Provavelmente não por acaso, W&L destaca-se por ter um corpo discente muito pouco diverso.

Em 2019, dos 2.260 estudantes matriculados, 76,8% eram brancos, segundo dados da instituição, e apenas 3,8%, negros.

Na esteira dos protestos antirracismo deflagrados pelo assassinato do negro George Floyd por um policial branco, um grupo de acadêmicos e estudantes decidiu pressionar pela mudança do nome da universidade.

“O único lugar em que Robert E. Lee deveria ser encontrado em 2020 é num museu, com todo o contexto histórico de quem ele foi e o que fez. Honrá-lo com o nome numa instituição de ensino é vergonhoso”, diz o professor de Economia Jim Casey, um dos organizadores de uma petição defendendo extirpar o nome do general da universidade.

A capela com o mausoléu, onde hoje se realizam atividades acadêmicas, seria transformada num museu.

Na próxima segunda-feira (6), uma assembleia de professores deve aprovar uma moção a ser enviada ao conselho da universidade pedindo a mudança no nome.

“Manter o nome manda um sinal muito perturbador. Mas é preciso também haver uma mudança sistêmica, cultural na universidade. Senão será apenas simbolismo”, afirma Casey.

Ele diz temer manifestações violentas. Há dois anos, quando também houve manifestações contra o racismo no EUA, folhetos ameaçadores da organização supremacista branca Ku Klux Klan foram espalhados pelo campus.

Campus da Universidade Washington & Lee, no estado da Virginia, EUA - Reprodução/wlu.edu

Por todo o país, polêmicas sobre símbolos históricos têm se acumulado. Na semana passada, a Universidade Princeton anunciou que vai retirar as referências ao ex-presidente Woodrow Wilson (1913-21) de prédios de seu campus, em razão de posições racistas que ele tinha.

Pelo mesmo motivo, o Museu de História Natural de Nova York decidiu remover a estátua de outro ex-presidente, Theodore Roosevelt (1901-09), que figurava na sua entrada.

O desconforto com a situação tem feito a universidade se mexer. No último dia 23, o presidente da W&L, Will Dudley, publicou uma carta à comunidade universitária anunciando reformas, embora sem prometer remover o general Lee do nome da instituição.

“Alguns de vocês expressaram o conflito que sentem entre o amor pela W&L e a preocupação com a associação proeminente com Robert E. Lee, cuja presidência transformou a universidade, mas que também liderou o Exército da Confederação na defesa da escravidão e veio simbolizar a defesa da opressão racial que nós rejeitamos de modo inequívoco”, escreveu Dudley.

Na carta, ele reconhece que a diversidade no campus permanece “inaceitavelmente baixa” e faz alguns acenos. Aceitou discutir, por exemplo, a mudança no design do diploma entregue aos alunos, que traz a imagem de Lee, o que é considerado ofensivo por muitos.

Reprodução de diploma da Universidade Washington and Lee, com as faces de George Washington (à esq.) e Robert Lee (à dir.)
Reprodução de diploma da Universidade Washington and Lee, com as faces de George Washington (à esq.) e Robert Lee (à dir.) - Reprodução

Também prometeu criar um Fundo George Floyd, para destinar parte dos recursos recebidos de doadores para iniciativas de inclusão racial, e aumentar programas que facilitem o ingresso na universidade para estudantes de baixa renda e de minorias.

Procurado por meio de sua assessoria, Dudley não respondeu.

A W&L não adota sistema de cotas, mas leva raça em consideração como um dos critérios na hora de aceitar estudantes.

Membro da diretoria da associação que reúne os estudantes da universidade, Jessiah Hulle reconhece gestos adotados pela universidade nos últimos anos, mas afirma que aconteceram muito tardiamente.

Em 2014, bandeiras da Confederação foram removidas da capela que abriga o corpo de Lee, e agora são exibidas apenas em determinadas ocasiões. Em 2018, dois prédios no campus tiveram seus nomes mudados por fazerem referência a escravocratas.

“O que chama a atenção é que essas mudanças sejam tão recentes na história da universidade”, diz Hulle.

Ele critica o fato de a universidade destacar a imagem “civil” de Lee em detrimento de seu papel na guerra.

“Há uma ambiguidade em como a universidade trata Robert E. Lee. No site, a biografia dele menciona seu envolvimento com a Confederação em apenas um parágrafo, mas fala de como o general ajudou a restaurar a paz e a harmonia depois da guerra. É uma maquiagem”, diz.

Hulle, que é branco, afirma que “se o nome está impedindo estudantes negros de se matricularem e progredirem em seus estudos, então deve ser mudado”.

Do outro lado do front, a resistência à mudança se organiza em torno de uma associação criada em 2018 para preservar o nome da universidade e o legado do general Lee.

Com cerca de 2.000 membros ativos e 10 mil simpatizantes, o The Generals Redoubt (Reduto dos Generais) é formado por ex-alunos e pais de estudantes da universidade.

Seu presidente, Tom Rideout, afirma que Lee é vítima do que ele chama de “presentismo”. “Significa pegar os valores culturais atuais e aplicar a figuras históricas, ignorando o contexto da época”, afirma.

Ele afirma que Lee era um dos militares mais condecorados do país, conhecido pelo código de conduta e honra que estabeleceu em suas tropas e, mais tarde, implantou na universidade.

“Ele salvou a escola. Assumiu uma instituição à beira da falência, com 40 alunos, e, cinco anos depois, havia 400 estudantes e novos cursos, como direito e jornalismo”, afirma.

Segundo Rideout, Lee e outras pessoas hoje vilanizadas viveram em um contexto em que a escravidão era muito importante para o sistema econômico.

“E como a escravidão, pelos valores atuais, é inaceitável, eles são tratados como pessoas que não merecem reconhecimento por outras coisas que fizeram”, diz.

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