Ativistas derrubam estátuas confederadas nos EUA na esteira de onda revisionista

Foram removidos ao menos dez monumentos de figuras que defendiam escravidão

São Paulo

A onda de revisionismo histórico incitada pelos atos antirracismo que se seguiram ao assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, ganhou novo episódio com a derrubada, em Richmond, no estado da Virgínia, da estátua de Jefferson Davis (1808-1889), na noite desta quarta-feira (10).

Davis foi presidente do Exército Confederado, que defendia a manutenção da escravidão na Guerra Civil Americana (1861-1865). Sua estátua já tinha sido alvo de discussões em âmbito municipal.

O grupo de manifestantes que derrubou a estátua se antecipou ao projeto de lei que o prefeito de Richmond, Levar Stoney, disse que apresentaria em 1º de julho, propondo a remoção de quatro monumentos que homenageiam os confederados em uma das principais avenidas da cidade.

"Richmond não é mais a capital da Confederação —está cheia de diversidade e amor por todos—, e precisamos demonstrar isso", disse o prefeito, em um comunicado.

Também em Richmond, na terça-feira (9), uma estátua de Cristóvão Colombo foi derrubada, incendiada e jogada em um lago.

Estátua de Jefferson Davis, militar americano que defendia a manutenção da escravidão nos EUA, foi derrubada em Richmond, na Virgínia - Parker Michels-Boyce - 10.jun.20/AFP

Em todos os EUA, pelo menos dez monumentos aos confederados e outras figuras históricas controversas foram removidos. Estátuas e memoriais também estão sendo questionados em mais de 20 cidades americanas, de acordo com levantamento do jornal The New York Times.

Nesta quarta (10), a Nascar, categoria do automobilismo americano, baniu a bandeira confederada de suas corridas, eventos e propriedades, atendendo a um pedido de Bubba Wallace, único piloto negro da categoria.

A presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, exigiu que 11 estátuas de confederados que se opunham ao fim da escravidão sejam removidas do Capitólio, sede do Legislativo americano.

"Os monumentos de homens que defenderam a crueldade e a barbárie para alcançar um fim puramente racista são uma afronta grotesca aos ideais americanos de democracia e liberdade", escreveu Pelosi em carta a uma comissão bipartidária nesta quarta.

Salão do Capitólio, sede do Legislativo dos EUA, que abriga 11 estátuas de militares confederados - Mandel Ngan - 19.mar.20/AFP

Membros do Partido Democrata, de oposição ao presidente Donald Trump, também pediram mudanças nos nomes de dez bases militares do país que homenageiam antigos generais escravocratas.

Na terça, o secretário de Defesa, Mark Esper, e o secretário do Exército, Ryan McCarthy, disseram "estar abertos à discussão" caso houvesse um consenso entre democratas e republicanos no Congresso.

Trump, entretanto, foi categórico ao afirmar que seu governo "nem sequer vai considerar" a renomeação.

Em uma publicação no Twitter, o líder republicano escreveu que as instalações militares são "magníficas e fabulosas" e representam o "patrimônio americano de vitória e liberdade".

Em outra publicação, nesta quinta-feira (11), o presidente afirmou que "aqueles que negam a história estão condenados a repeti-la".

Na Europa, atos contra monumentos históricos ganharam força em Bristol, no Reino Unido, no domingo (7), quando manifestantes usaram cordas para derrubar uma estátua de ​Edward Colston, feita de bronze e erigida em 1895. Ela foi jogada em um rio que corta a cidade.

O homenageado era traficante de escravos e membro do Parlamento britânico no século 17. Dados históricos o relacionam às mortes de cerca de 19 mil negros escravizados nas Américas e no Caribe.

Nesta quinta, o monumento foi retirado da água e será levado para um museu, anunciou a prefeitura.

Estátua de Edward Colston é retirada de rio em Bristol, na Inglaterra
Estátua de Edward Colston é retirada de rio em Bristol, na Inglaterra - AFP

Os prefeitos de Bristol, Marvin Rees, e Londres, Sadiq Khan, avisaram que vão revisar todos os monumentos e locais ligados ao comércio de escravos ou à promoção do racismo.

Autoridades das cidades de Bournemouth e Poole, na costa sul do Reino Unido, planejavam seguir o conselho da polícia e remover, nesta quinta-feira (11), uma estátua de Robert Baden-Powell (1857-1941), tenente-general do Exército britânico e fundador do movimento escoteiro, antes que ela tivesse o mesmo destino da de Colston.

"Embora famoso pela criação dos escoteiros, também reconhecemos que existem alguns aspectos da vida de Robert Baden-Powell que são considerados menos dignos de comemoração", disse a líder do conselho municipal, Vikki Slade.

Baden-Powell é acusado de racismo, homofobia e ligações com nazistas.

Dezenas de manifestantes brancos, entretanto, reuniram-se ao redor da estátua para impedir a remoção, destacando a importância dos 54 milhões de escoteiros em todo o mundo.

Mulher segura cartaz que diz 'História britânica importa' durante ato para impedir a remoção da estátua de Robert Baden-Powell - Glyn Kirk - 11.jun.20/AFP

A nova onda antirracismo no Reino Unido ganha contornos de batalha, na avaliação da polícia britânica.

O grupo Derrube os Racistas, que colocou na internet um mapa interativo para marcar os seus até agora 80 alvos, diz que “estátuas são objetos de adoração pública”, o que deveria excluir proprietários de escravos e colonialistas.

Do outro lado, estão, segundo a polícia, torcedores de futebol violentos, conhecidos como “hooligans”, que começaram a organizar pela internet contraprotestos para defender memoriais e imagens dos que chamam de “heróis de guerra”.

Em Londres, a estátua de Robert Milligan, que chegou a ter 526 negros escravizados em suas duas fazendas de plantação de açúcar na Jamaica, foi removida pelo Museu das Docas.

Na Bélgica, onde ganhou força nos últimos dias uma campanha já antiga para tirar de cena monumentos do rei Leopoldo 2º, um busto do monarca que colonizou o Congo (atual República Democrática do Congo) foi para o depósito na Universidade de Mons.

A retirada de monumentos históricos ligados à opressão dos negros é uma das demandas dos manifestantes que participam de atos antirracismo.

Os protestos começaram nos EUA e se espalharam pela Europa após a morte de George Floyd, homem negro assassinado por um policial branco, que prensou com o joelho o pescoço da vítima contra o chão durante quase nove minutos.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.