Teoria da conspiração pró-Trump ganha força e pode chegar ao Congresso

Movimento QAnon crê que presidente está prestes a acabar com obscura trama de pedófilos adoradores de Satanás

Kevin Roose
The New York Times

Os democratas o descartaram como um grupo marginal de fanáticos conspiradores. Os republicanos moderados temeram seu potencial de prejudicar a imagem do partido, enquanto legisladores mais conservadores tentaram cuidadosamente aproveitar sua energia popular.

Os meios de comunicação solidários cobriram seus comícios, retratando-o como uma nova variedade de política populista —um movimento de protesto nascido da frustração com uma elite corrupta e que não inspira confiança. Então, para surpresa de todos, seus apoiadores começaram a ganhar eleições.

Essa é uma descrição do movimento Tea Party, que emergiu em 2009 nas periferias da direita e se tornou uma força importante e duradoura no conservadorismo americano.

Mas poderia ser facilmente uma descrição do QAnon, a teoria da conspiração pró-Trump que surgiu como possível herdeira do Tea Party como a força popular mais poderosa na política de direita.

Apoiador de Donald Trump segura letra 'Q' com a bandeira americana enquanto aguarda o presidente em um comício na Pennsylvania
Apoiador de Donald Trump segura letra 'Q' com a bandeira americana enquanto aguarda o presidente em um comício na Pennsylvania - Rick Loomis - 1º.ago.2018/AFP

Nesta semana, o QAnon provavelmente conquistou sua primeira congressista: a republicana Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que venceu o segundo turno das prévias em um distrito fortemente republicano.

Greene apoiou publicamente o QAnon, aparecendo em programas do movimento e defendendo sua crença infundada de que o presidente Donald Trump está prestes a acabar com uma obscura trama de pedófilos adoradores de Satanás. Outros candidatos afiliados ao QAnon venceram primárias em níveis federal e estadual, embora poucos em distritos tão conservadores quanto o de Greene.

O QAnon, que tira suas ideias de mensagens enigmáticas de um escritor anônimo que afirma ter acesso a informações governamentais de alto nível, carece da estrutura de liderança e das conexões com fundos obscuros do início do Tea Party. Também carece de objetivos realistas ou qualquer coisa que se assemelhe a uma agenda política coerente.

Os seguidores são "justiceiros" da internet dominados por fantasias de vingança violentas e paranoicas, e não conservadores que defendem redução dos impostos ou se opõem à Lei de Acesso à Saúde.

Após a vitória de Greene nas primárias, porém, algumas figuras importantes em Washington começaram a se perguntar se a potencial influência do QAnon está sendo igualmente subestimada.

Elas temem que, assim como o Tea Party deu cobertura ao movimento racista "birther", que propagou teorias conspiratórias sobre o local de nascimento de Barack Obama na corrente dominante republicana, as opiniões radicais do QAnon —que levaram alguns seguidores a cometer crimes graves— podem ser difíceis de conter.

Mulher segura cartazes contra o Obamacare em comício do movimento Tea Party
Mulher segura cartazes contra o Obamacare em comício do movimento Tea Party - Jonathan Ernst - 24.mar.2012/Reuters

"Eles estão se iludindo ao descartá-lo como algo secundário e fraco", diz Steve Schmidt, antigo estrategista do Partido Republicano e veterano de campanha que se tornou um crítico de Trump.

"O Partido Republicano está se tornando o lar de um amálgama de teóricos da conspiração, atores periféricos, extremistas e nacionalistas brancos que está se expondo de forma surpreendente."

Para ser claro: as ideias do QAnon são muito mais radicais do que eram as do Tea Party. Os apoiadores do Tea Party se opuseram aos socorros a Wall Street e ao crescente déficit federal; os adeptos do QAnon afirmam acreditar que Hillary Clinton e George Soros bebem o sangue de crianças inocentes.

Enquanto os apoiadores do Tea Party geralmente buscavam derrubar seus adversários políticos nas urnas, os do QAnon torcem para que os líderes democratas sejam presos em Guantánamo ou executados.

Mas há mais paralelos do que se poderia imaginar, especialmente no que diz respeito a como as instituições políticas de cada época reagiram à ascensão desses grupos.

Quando o Tea Party emergiu, no início de 2009, muitos analistas zombaram da ideia de que ele pudesse alcançar poder político, chamando-o de "uma demonstração de histeria" por "direitistas espumantes".

Michael Bloomberg, então prefeito de Nova York, caracterizou o Tea Party como uma moda passageira, comparando-o à explosão de apoio à campanha presidencial de Ross Perot em 1992.

Os líderes do Partido Republicano o levaram mais a sério, mas também pensavam que poderiam aproveitar sua energia sem se entregar a seus elementos mais radicais.

Então, em janeiro de 2010, Scott Brown, um desconhecido legislador republicano de Massachusetts, ganhou uma cadeira no Senado em uma virada chocante contra sua oponente democrata, Martha Coakley, em parte devido ao apoio do Tea Party. E ficou claro para os membros de ambos os partidos que eles erraram ao subestimar o potencial do Tea Party.

FILE -- Scott Brown celebrates his upset victory to fill a vacant Senate seat from Massachusetts, in Boston, Jan. 19, 2010. Brown's win made it clear to members of both parties that they had been wrong to underestimate the Tea Party?s potential. (Bryce Vickmark/The New York Times)
O senador Scott Brown celebra sua vitória na corrida por uma vaga no Senado pelo estado de Massachusetts, em 2010 - Brice Vickmark - 19.jan.2010/New York Times

Mesmo depois da vitória de Greene nas primárias nesta semana, poucos legisladores reconheceram diretamente o QAnon. Um legislador republicano, o deputado Adam Kinzinger, de Illinois, chamou-o na quarta-feira (12) de "uma invenção" que "não tem lugar no Congresso".

Mas seus seguidores têm usado habitualmente as redes sociais para promover pontos de vista extremistas na mídia conservadora —como a oposição ao uso de máscaras, falsos medos sobre a exploração infantil e a teoria da conspiração "Spygate".

Pelo menos um comentarista da Fox News falou sobre o movimento em tom de aprovação. E dezenas de candidatos do QAnon concorrem como novatos anti-establishment nas primárias republicanas deste ano, assim como fizeram os candidatos do Tea Party nas eleições de meio de mandato em 2010.

As semelhanças entre o QAnon e o Tea Party não são apenas históricas. Alguns dos mesmos ativistas estão envolvidos em ambos os movimentos, e organizações como o Tea Party Patriots alimentaram as campanhas do QAnon nas redes sociais, como um recente vídeo viral de médicos fazendo falsas afirmações sobre a Covid-19.

Uma diferença notável é que enquanto o Tea Party adquiriu influência num período em que os republicanos estavam fora do poder, o QAnon está crescendo durante o governo Trump, com a bênção tácita do presidente.

FILE -- A woman holds up a hat with a Q on it, denoting QAnon, during a rally with President Donald Trump in Avoca, Penn., Aug. 2, 2018. Fans of the pro-Trump conspiracy theory are clogging anti-trafficking hotlines, infiltrating Facebook groups and raising false fears about child exploitation. (Al Drago/The New York Times)
Mulher segura gorro com a letra Q, evocando a teoria conspiratória QAnon, durante um comício do presidente Donald Trump, em 2018 - Al Drago - 2.ago.2018/The New York Times

Na quarta-feira, Trump parabenizou Greene por sua vitória nas primárias, chamando-a de "futura estrela republicana". Ele não fez menção ao vídeo em que ela chamava a Presidência de Trump de uma "oportunidade única de eliminar essa conspiração global de pedófilos adoradores de Satanás".

Vanessa Williamson, pesquisadora sênior da Brookings Institution e coautora de "The Tea Party and the Remaking of Republican Conservatism" (O Tea Party e a reformulação do conservadorismo republicano), disse que o QAnon representa, de certa forma, uma extensão do ceticismo do Tea Party em relação às autoridades convencionais.

"O avanço das ideias conspiratórias para o centro do Partido Republicano não é totalmente novo", afirmou. "Mas a centralidade desse pensamento conspiratório era algo impressionante no Tea Party, e é ainda mais no QAnon."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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