Descrição de chapéu Financial Times

Suécia deixa de ser exceção e vê europeus com menos restrições no combate à pandemia

País nórdico adotou restrições mais leves, mas economia sofreu tanto quanto vizinhos

Richard Milne
Londres | Financial Times

A Suécia não é mais a exceção que costumava ser em relação ao coronavírus. Não tem mais a abordagem menos restritiva da pandemia na Europa e perdeu a posição de país com o maior número de mortes per capita, depois que o número de casos de Covid-19 diminuiu durante o verão.

A economia sueca sofreu menos do que a média europeia nos últimos meses, mas pelo menos igualmente à de seus vizinhos nórdicos —e talvez mais.

"Temos uma segunda chance. Não queremos que ela cresça novamente. Temos a chance de aprender e fazer mais para evitar que as coisas decolem", diz Cecilia Söderberg-Nauclér, crítica da abordagem sueca e professora de imunologia celular e molecular no Hospital Universitário Karolinska, em Estocolmo.

Pessoas tomam sol, sentam na areia e entram na água em um lago.
Suecos vão à praia em Estocolmo, capital do país - Wei Xuechao - 9.ago.2020/Xinhua

O debate sobre a sabedoria da estratégia mais leve da Suécia para enfrentar a pandemia está mais quente do que nunca, mas a situação no país se acalmou durante seu principal mês de verão, julho.

O número de casos per capita caiu 86% no mês desde o final de junho, embora tenha aumentado ligeiramente nos últimos dias e ainda seja relativamente elevado para os padrões europeus.

"Um ligeiro aumento durante o outono [no hemisfério norte] é mais ou menos inevitável. Não acreditamos realmente que teremos um aumento constante e atingiremos os mesmos níveis que tivemos nesta primavera", diz Anders Tegnell, epidemiologista do governo da Suécia.

As razões para o declínio estão longe de serem definidas. Tegnell argumenta que "há uma relação entre a queda muito rápida das últimas semanas e o aumento da imunidade em muitas partes da Suécia".

Autoridades de saúde pública suecas estimam que a capital, Estocolmo, pode estar se aproximando da "imunidade de rebanho", mas o argumento é fortemente contestado por outros epidemiologistas.

Em vez disso, estes afirmam que grande parte do declínio recente tem a ver com o fato de que o país praticamente fecha durante um mês após o feriado do solstício de verão, no final de junho.

Lena Einhorn, virologista e crítica proeminente da estratégia sueca, argumenta que os resultados dos testes de anticorpos sugerem que a Suécia permanece a certa distância da imunidade de rebanho —quando há tantas pessoas infectadas que o vírus para de se espalhar.

“Estamos realmente preocupados com o outono. Não acreditamos que possamos contar com a imunidade coletiva. Se a Suécia não mudar de política, não veremos a mesma coisa —porque os idosos estão mais protegidos—, mas os números vão subir", disse ela.

Einhorn acrescenta que o país precisa parar de contrariar a tendência internacional em duas áreas em particular: recusar-se a exigir o uso de máscaras; e não colocar em quarentena todos os contatos conhecidos das pessoas infectadas.

A taxa de letalidade na Suécia também caiu constantemente nos últimos meses, de mais de 100 por dia em meados de abril para cerca de 1 por dia na semana passada.

Em um estágio da pandemia, de meados ao final de maio, a Suécia teve mais mortes em relação ao tamanho de sua população do que qualquer outro país, mas desde então foi ultrapassada pelo Reino Unido e por vários países sul-americanos, bem como os Estados Unidos.

Hoje, a abordagem sem "lockdown" também se destaca menos. De acordo com o rastreador de resposta do governo, iniciativa da Universidade de Oxford, países como França, Áustria, Croácia, Noruega e Finlândia hoje têm menos restrições que a Suécia.

A Noruega, com uma taxa de mortalidade per capita 20 vezes menor que a sueca, fechou as portas precocemente, mas desde então reabriu totalmente seu sistema escolar, embora tenha alertado na semana passada sobre a probabilidade de mais restrições.

Na economia, a Suécia sofreu sua contração trimestral mais profunda entre abril e junho desde a Segunda Guerra, mas a maioria dos economistas concorda que teria sido pior se tivesse fechado completamente.

Qual é a força desse benefício é discutível: em comparação com a média da UE, os números do PIB do segundo trimestre da Suécia foram melhores —uma queda de 8,6%, contra 11,9% para o bloco europeu.

Mas, como indica Robert Bergqvist, economista-chefe do banco SEB, a Suécia é menos dependente do turismo do que muitos países que tiveram pior desempenho, como França, Itália e Espanha.

Atualmente, espera-se que a economia sueca diminua cerca de 4% a 5% neste ano, quase o mesmo que as estimativas para a Dinamarca e a Noruega, ambas bloqueadas.

"É muito cedo para tirar conclusões de nossa estratégia. Temos que esperar até o segundo semestre", disse Bergqvist. Ele acrescentou que continua preocupado com o ressurgimento da Covid-19 no resto da Europa, o que por sua vez atingirá a Suécia, dependente de exportações.

"Se você tem problemas na Europa, terá problemas na Suécia", diz ele.

Como no resto da Europa, muito depende da qualidade do outono na Suécia.

Söderberg-Nauclér está preocupada com todas as escolas —incluindo aquelas para jovens de 16 a 18 anos, que estiveram fechadas de março a junho— reabrindo ao mesmo tempo, especialmente depois que testes de anticorpos na cidade de Uppsala mostraram que 10 a 19 crianças de 1 ano tiveram a maior porcentagem de resultados positivos —29%, contra 12% da população em geral.

Einhorn disse que o número de infecções e mortes na Suécia continua "muito alto" em comparação a seus vizinhos nórdicos e pediu uma abordagem mais dura.

“Temos uma oportunidade de ouro para mudar de rumo e ainda podemos fazer muito para evitar uma segunda onda. Mas até agora não a estamos aproveitando, o que é preocupante.”

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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