Insuflada por Trump, multidão invade Congresso e paralisa ratificação de Biden

Democracia americana sofre ataque inédito em sua história recente; mulher é baleada e morre

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São Paulo

A democracia americana sofreu nesta quarta (6) um ataque inédito em sua história recente, após apoiadores de Donald Trump invadirem e vandalizarem o Congresso. A ação obrigou a Câmara e o Senado a trancarem suas portas e a paralisarem a sessão que deveria confirmar a vitória de Joe Biden.

A invasão aconteceu poucos minutos depois de o próprio presidente americano, durante manifestação na capital do país, Washington, insuflar ativistas a se dirigirem até a sede do Legislativo.

Apoiadores de Trump quebram barreiras do Congresso e entram em choque com policiais, em Washington
Apoiadores de Trump quebram barreiras do Congresso e entram em choque com policiais, em Washington - Roberto Schmidt/AFP

Assim, o Capitólio viu cenas de caos. Uma mulher foi baleada e morreu, segundo a polícia. Jornalistas foram trancados num porão, pessoas fantasiadas de vikings confrontaram assessores e, testemunhas dizem ter sentido cheiro de fumaça dentro do prédio. Os manifestantes carregavam símbolos de movimentos de extrema direita e bandeiras dos EUA, além de faixas da campanha presidencial de Trump.

Muitos congressistas ficaram presos em seus gabinetes, e, segundo a rede de TV CNN, policiais que trabalham no local ficaram feridos, mas não há confirmação oficial de quantos deles foram atingidos.

Agentes chegaram a sacar suas armas e a apontar para a entrada do plenário da Câmara para impedir que ele fosse invadido pelos manifestantes —um grupo de deputados acabou trancado no local.

Pouco depois, o plenário do Senado, já vazio, também foi invadido —imagens exibiram pessoas sentadas na cadeira da presidência da Casa. Por volta das 16h locais, foram retiradas pelas forças de segurança.

Os congressistas receberam máscaras de proteção depois que bombas de gás lacrimogêneo foram disparadas no prédio. Os manifestantes romperam a segurança do Congresso por volta das 14h30 (16h30 de Brasília), o que levou a prefeita de Washington, Muriel Bowser, a decretar toque de recolher na capital do país entre as 18h desta quarta e as 6h de quinta (7).

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que também é o presidente do Senado, teve que ser retirado de maneira emergencial do plenário. A liderança da Câmara, incluindo sua presidente, a democrata Nancy Pelosi, também foi retirada e está em segurança.

Congressistas, assessores e jornalistas foram levados a salas de segurança, mas parte deles ficou presa no plenário. A polícia do Capitólio, responsável pela segurança do Congresso, afirmou ter pedido reforços.

Segundo o jornal The Washington Post, a solicitação foi inicialmente negada pelo Departamento de Defesa, mas o governo depois autorizou o envio da Guarda Nacional. O governador da Virgínia, estado vizinho a Washington, anunciou que também vai enviar tropas para auxiliar as forças de segurança.

O confronto entre os apoiadores de Trump e a polícia do Capitólio começou cerca de uma hora antes, logo que os parlamentares começaram a debater a ratificação da vitória de Biden.

Os manifestantes tinham participado de um ato em Washington de apoio ao atual presidente e, logo que o protesto foi encerrado, dirigiram-se para o Congresso, em uma tentativa de pressionar deputados e senadores a não confirmarem a vitória do democrata.

Após o início do confronto, Trump publicou mensagens pedindo aos manifestantes que fossem pacíficos. “Sem violência!", escreveu. “Lembrem-se, somos o partido da lei e da ordem. Respeitem a lei e nossos incríveis homens e mulheres de azul. Obrigado!“, disse, em referência aos uniformes dos agentes.

Depois do reforço da Guarda Nacional, a situação começou a se acalmar, e os manifestantes começaram a ser expulsos do prédio. Por volta das 17h30, a segurança do Capitólio informou os congressistas que o prédio estava seguro. Segundo a políca de Washington, ao menos 13 pessoas foram detidas.

Na tarde desta quarta, o Congresso iniciou uma sessão conjunta para somar os votos dos delegados do Colégio Eleitoral e declarar oficialmente Biden como o vencedor da eleição presidencial, por 306 a 232 votos. Ele tomará posse em 20 de janeiro.

Tradicionalmente, essa sessão costuma ocorrer de maneira protocolar. No atual ciclo eleitoral, porém, ela ganhou um novo significado devido à recusa de Trump em aceitar a derrota. O republicano tem feito acusações, sem apresentar provas, de que houve fraude na eleição e que é ele o verdadeiro vencedor.

Na sessão desta quarta, os votos dos delegados seriam abertos e lidos por Pence e uma comissão de parlamentares. O vice comanda a cerimônia por acumular o cargo de presidente do Senado, mas seria apenas um mestre de cerimônias, sem poder para mudar o andamento da sessão por conta própria.

Para rejeitar votos dos delegados, é preciso de aprovação por maioria na Câmara e no Senado. Como os democratas possuem a maioria na Câmara, é impossível que uma manobra do tipo seja aprovada.

No momento que aconteceu a invasão do Congresso, a sessão tinha sido paralisada justamente porque os republicanos tinham questionado o resultado no Arizona. A reunião foi retomada apenas às 20h (22h em Brasília), com discursos de Pence e Mitch McConnell, líder republicano no Senado.

Durante o ato em Washington nesta quarta, Trump defendeu que os congressistas se opusessem à ratificação do resultado e convocou os manifestantes a irem até a sede do Legislativo.

"Nós vamos marchar até o Capitólio. E nós vamos aplaudir nossos corajosos senadores, deputados e deputadas", afirmou o republicano. "Eu sei que todos aqui vão em breve marchar para o Capitólio para que suas vozes sejam ouvidas de uma maneira pacífica e patriótica", completou.

Além disso, o atual líder americano pressionou Pence a rejeitar os votos dos delegados, algo que ele não tem poder legal para fazer. "Tudo o que ele [Pence] tem que fazer é mandar os votos de volta aos estados, para que sejam recertificados, e eu me tornarei presidente", discursou Trump. "Isso não exige coragem. O que exige coragem é não fazer nada." Pouco antes do início da sessão, porém, o vice anunciou em uma carta que não seguiria os desejos do presidente porque não tinha poder nem disposição para tal.

​Em discurso após o grupo de republicanos apresentar sua objeção, Mitch McConnell, que foi líder da maioria republicana no Senado durante seu governo, atacou o pedido. "Os eleitores, a Justiça e os estados já se pronunciaram. Se anularmos os votos, podemos danificar a República para sempre."

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, chamou a decisão do grupo republicano de "uma tentativa de golpe". "O Congresso não determina o resultado de uma eleição. O povo, sim."

Desde 1887, quando o Código Eleitoral atual entrou em vigor, o Congresso nunca aprovou a invalidação de votos dos delegados. Houve tentativas em 1969 e em 2005, mas ambas foram rejeitadas.

Depois da invasão do Congresso, Biden fez críticas duras aos manifestantes num discurso no fim da tarde. O presidente eleito afirmou que "o que vemos é um pequeno número de extremistas fora da lei" e que "isso não é dissenso, é desordem, beira a sedição e deve acabar".

"Nossa democracia está sob ataque. Isso não é um protesto. É uma insurreição. Estou chocado e triste. É um momento sombrio. A América é muito melhor do que o que vimos hoje."

O republicano divulgou um discurso minutos depois da fala de Biden, pedindo que os ativistas fossem para casa, ainda que tenha mantido a narrativa falsa de que a eleição foi roubada.

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