Principal lobby das armas nos EUA, Associação Nacional do Rifle pede recuperação judicial

Investigado por corrupção pela procuradoria-geral de NY, grupo anuncia planos de ir para o Texas

Nova York | Reuters

O mais poderoso grupo de lobby de armas nos Estados Unidos, a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), anunciou nesta sexta-feira (15) que entrou com um pedido de recuperação judicial em um tribunal do Texas, como parte de um processo de reestruturação.

Com o movimento, o grupo de armas, criado em Nova York após a Guerra Civil (1861-1865), pode estar tentando evitar uma investigação da procuradoria-geral de Nova York sobre supostos esquemas de corrupção que levaram a brigas internas e a algumas saídas de membros do conselho.

Ativistas do controle de armas fazem protesto em frente à sede da NRA, em Fairfax, no estado da Virgínia
Ativistas do controle de armas fazem protesto em frente à sede da NRA, em Fairfax, no estado da Virgínia - Win McNamee - 5.ago.19/Getty Images/AFP

Em um comunicado, a NRA disse que se reestruturaria como uma organização sem fins lucrativos do Texas para sair de “um ambiente político e regulatório corrupto em Nova York”, onde está atualmente registrada. A entidade entrou com uma petição no Tribunal de Falências dos Estados Unidos em Dallas.

Normalmente, grupos sem fins lucrativos licenciados em Nova York e sob investigação são proibidos de se deslocar durante uma apuração —o gabinete da procuradoria-geral, por exemplo, impediu que a Fundação Trump fechasse antes de terminar uma investigação sobre a organização.

O grupo disse em um comunicado que não haveria mudanças imediatas em suas operações ou força de trabalho e que continuará “combatendo atividades anti-Segunda Emenda, promovendo a segurança e treinamento de armas de fogo e avançando em programas públicos em todos os Estados Unidos”.

A Segunda Emenda da Constituição garante o direito de manter e portar armas.

“A situação financeira da NRA finalmente atingiu seu status moral: falência”, disse a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, em comunicado. “Enquanto analisamos o processo, não permitiremos à NRA usar esta ou qualquer outra tática para fugir da responsabilidade e da supervisão do meu escritório.”

Apesar da procuradora ter usado o termo em inglês "bankruptcy" (tradicionalmente traduzido como falência em português), o pedido da NRA se assemelha mais ao processo de recuperação judicial no Brasil, que permite à instituição reorganizar suas finanças.

Em agosto, James entrou com ação para dissolver a NRA, alegando que líderes do grupo desviaram milhões de dólares para uso pessoal e para comprar o silêncio e a lealdade de ex-funcionários.

A ação movida por James em um tribunal estadual em Manhattan alega que os líderes da NRA pagaram por viagens familiares às Bahamas, jatos particulares e refeições caras que contribuíram para uma redução de US$ 64 milhões (R$ 338 milhões na cotação atual) no balanço da associação em três anos.

Como tentativa de bloquear a investigação, a NRA processou James em um tribunal federal, dizendo que ela violou o direito do entidade à liberdade de expressão. O litígio permanece pendente.

A NRA nas últimas décadas tem sido uma das principais vozes contra medidas de controle de armas no país. Doou mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 159 milhões) à campanha de Donald Trump em 2016.

As ações da NRA provavelmente colocarão o processo da procuradoria em espera, e uma reincorporação poderia impedi-la de buscar a dissolução do grupo. Em seu processo, James disse que a incorporação do NRA como uma organização sem fins lucrativos em Nova York deu a ela autoridade para dissolvê-lo.

A entidade sofreu pressões após massacres realizados com armas de fogo nos Estados Unidos nos últimos anos, por defender a manutenção de facilidades para a compra de armas. Dificultar o acesso a armamentos é um caminho apontado como forma de evitar que cidadãos comuns façam ataques em escolas, supermercados e outros espaços públicos.

Em 2019, a associação fechou a NRA TV, canal de vídeos criado em 2016 e introduzido com um quadro em que um de seus apresentadores, Grant Stinchfield, destrói a marretadas uma TV sintonizada na CNN.

Em outra tentativa de promover o uso de armas, um site da associação publicou uma releitura de contos de fadas que propuseram o seguinte: a vovózinha da Chapeuzinho Vermelho, com um fuzil em mãos, diz ao Lobo Mau que não pretende virar seu almoço.

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto afirmava incorretamente que Dallas é a capital do Texas, mas a capital do estado na realidade é Austin. 

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