Descrição de chapéu Obituário Rush Limbaugh (1951 - 2021)

Rush Limbaugh, radialista conservador americano, morre aos 70

Apresentador recebeu de Donald Trump a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil do país

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Robert D. McFadden
The New York Times

Rush Limbaugh, a voz incansavelmente provocadora da América conservadora que dominou os programas de rádio por mais de 30 anos, com ataques precisos a liberais, democratas, feministas, ambientalistas e outros alvos móveis, morreu nesta quarta-feira (17) aos 70 anos.

Sua mulher, Kathryn, disse que a causa foi câncer de pulmão. Limbaugh tinha anunciado em seu programa em fevereiro passado que tinha câncer de pulmão avançado. Um dia depois, o presidente Donald Trump lhe concedeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil do país, durante o discurso sobre o Estado da União.

Limbaugh logo retomou seus programas e sua adoração por Trump. Enquanto a pandemia de Covid-19 varria o país, ele comparou o coronavírus a um resfriado comum. E em outubro, quando se aproximava o dia da eleição e o próprio Trump se recuperava do vírus, ele se uniu a Limbaugh no ar para um "comício virtual" de duas horas, amplamente dedicado a suas reclamações.

Rush Limbaugh discursa antes do ex-presidente Donald Trump em evento na Flórida - Leah Millis - 21.dez.2019/Reuters

"Nós o amamos", afirmou Limbaugh ao presidente em nome de seus ouvintes. Mas dez dias depois o radialista disse ao público que seu câncer tinha piorado e, apesar dos tratamentos, estava "indo na direção errada".

Um querido da direita desde que lançou seu programa distribuído a todo o país durante a Presidência de seu primeiro herói, Ronald Reagan, Limbaugh era ouvido habitualmente por cerca de 15 milhões de americanos. Esse público, e suas críticas constantes ao presidente Barack Obama durante oito anos, quando os republicanos eram com frequência considerados incoerentes, pareceram elevá-lo, pelo menos por algum tempo, à liderança de fato dos republicanos conservadores.

Esse discurso se tornou obsoleto em 2016, com a ascensão meteórica de Trump, que, depois de vários flertes com corridas presidenciais que nunca foram levadas muito a sério, de repente irrompeu como uma supernova na paisagem política nacional. Trump se tornou presidente, e Limbaugh, um apoiador ardoroso.

"Isso é ótimo", disse Limbaugh, parecendo realmente ébrio, sobre seu novo campeão na Casa Branca. "Podemos concordar que Donald Trump está provavelmente gostando mais disso do que qualquer um quer admitir, ou que qualquer um saiba?"

Como um sonho que se realiza, Limbaugh saudou os esforços do presidente para conter a imigração muçulmana, cortar impostos, promover empregos americanos, repelir o Obamacare, aumentar os gastos militares e desmontar as proteções ambientais.

Quanto à oposição à agenda de Trump e alegações de interferência russa nas eleições americanas de 2016, Limbaugh tinha uma explicação pronta.

"Esse ataque está vindo das sombras do Estado profundo, onde ex-empregados de Obama continuam na comunidade de inteligência", disse. "Eles mentem sobre as coisas, esperando facilitar para que eles e o governo Obama na sombra eventualmente se livrem de Trump e de todos em seu governo."

Depois que deputados republicanos pediram o impedimento do presidente pela primeira vez, Limbaugh atacou com gosto: "Por que realmente Trump está sendo submetido a impeachment?", disse. "Porque ele faz sucesso demais." E acrescentou: "Donald Trump está submetido a impeachment porque está baixando os impostos... porque está ressuscitando a economia."

Extremamente sarcástico, muitas vezes hilariante, sempre beligerante, Limbaugh foi fortemente partidário, vilipendiado pelos críticos e admirado por milhões de pessoas, um mestre de monólogos de 3 horas que apresentavam imitações maliciosas, zombaria cortante, paródias musicais e uma galeria de tolos, vilões, mentirosos e corações magoados.

No léxico de Limbaugh, os defensores dos sem-teto eram "fascistas da compaixão", as mulheres que defendiam o aborto, "feminazis", os ambientalistas, "idiotas que abraçam árvores". Ele fazia "atualizações da Aids" com a canção de Dionne Warwick "I’ll Never Love This Way Again" [Nunca mais vou amar assim], ridicularizou Michael J. Fox pelos sintomas da doença de Parkinson e chamou o aquecimento global de farsa.

Ele não estava acima de mentiras deslavadas. Durante o debate sobre a lei de saúde de Obama em 2009, Limbaugh alimentou os boatos sobre suas provisões para fazer o Medicare e as seguradoras pagarem por consultas opcionais com médicos sobre tratamento paliativo e hospitalar, dizendo que eles davam poder a "painéis da morte" que fariam a "eutanásia" de americanos idosos.

Ao contrário de Howard Stern, Don Imus ou outros grandes nomes do rádio-choque, Limbaugh não tinha ajudantes no ar, embora conversasse com a voz em "off" de alguém chamado "Bo Snerdly". Ele também não tinha redatores, scripts ou roteiros, apenas anotações e clippings dos jornais que folheava diariamente.

Em todo caso, era um fenômeno comercial, ganhando US$ 85 milhões (R$ 461 mi) por ano. Casado quatro vezes e divorciado três, sem filhos, morava em uma propriedade de frente para o mar em uma mansão de 2.200 m2. Ela continha tapetes orientais, candelabros e uma biblioteca de lambris de mogno de dois andares, com coleções encadernadas em couro. Possuía meia dúzia de carros, um deles custando US$ 450 mil (R$ 2,4 mi), e um jato Gulfstream G550.

Dando gorjetas de US$ 5.000 (R$ 27 mil) em restaurantes, afetando a grandiloquência de um estudante que abandonou a faculdade, era uma caricatura fácil: acima do peso a vida toda, às vezes passando de 150 quilos, fumava charutos com um sorriso brincalhão e olhos marotos, o cabelo ralo puxado para trás da testa de mastodonte.

Ele movia seu corpanzil com graça surpreendente ao mostrar como um ambientalista passeia alegremente por um bosque. Mas sua voz era clara, um staccato rápido e alegre, que se tornava um guincho de golfinho ou soluços em falsetto para denunciar os caridosos, encantando a América com seu vocabulário criativo e mordaz.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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