Descrição de chapéu Coronavírus

Lockdowns ainda são mais eficientes para queda de casos de Covid do que vacina

Especialistas apontam que ainda é cedo para ligar imunização à diminuição do contágio

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São Paulo

Diversos países têm visto uma queda vertiginosa de novos casos de Covid-19 após a chegada de vacinas, como EUA, Reino Unido e Israel, líder de imunização de sua população.

Ainda é cedo, no entanto, para ligar o tombo de infecções às injeções, uma vez que países como Portugal e Japão, que aplicaram poucas doses, também observaram diminuição acentuada dos contágios.

Segundo especialistas, a queda se deve mais a medidas de contenção, como lockdowns, adoção do trabalho remoto, uso de máscara e distanciamento social, do que à vacinação.

Rua vazia na cidade de Lisboa, durante lockdown nacional em Portugal
Rua vazia na cidade de Lisboa, durante lockdown nacional em Portugal - Pedro Nunes - 26.fev.21/Reuters

Entre os 50 países que mais apresentaram redução de novos casos diários entre 5 de dezembro e 5 de março —quando completaram-se três meses desde a primeira vacinação, na Rússia—, 25 já começaram suas campanhas de imunização. Devido à volatilidade da situação, apenas 13 desses 25 continuam a apresentar diminuição consistente após um pico entre o fim do ano passado e o começo deste ano.

Os demais, ou atingiram um platô ou já viram ressurgir novas infecções. Entre os 12 que não apresentam queda consistente, há países com vacinação avançada, como a Sérvia, que já aplicou ao menos uma dose em 15% de sua população. A média móvel de casos vêm em forte alta após o relaxamento das medidas restritivas, o que levou a um novo aperto, ainda sem resultado na queda dos números.

Outros, com taxa menor de vacinação, entre 5% e 8%, também diminuíram as restrições. Caso da Suíça, que atingiu um platô no início do mês, e Alemanha, onde os casos voltaram a subir. A Índia, apontada como um ponto fora da curva por apresentar queda sem limitar movimentação, voltou a ter alta de casos.

Alguns dos países que experimentam um tombo nas contaminações foram fortemente atingidos pelo coronavírus. Os EUA, que chegaram a ser o epicentro da pandemia, viram o pico de casos em meio às festas de fim de ano, em 2 de janeiro, com média móvel diária de 905,7 casos por milhão de habitantes.

Em 5 de março, o número caiu 77,5%, para 203,6 —quando o país tinha 16,6% de sua população vacinada.

“É uma mistura de muitos fatores. As vacinas provavelmente têm algum efeito, mas não todo o efeito”, explica John Brownstein, professor de medicina na Universidade Harvard e chefe de inovação no Hospital Infantil de Boston, nos EUA. “Depois das festas de fim de ano, as pessoas pararam de viajar, reduziram as interações. Acho que as pessoas no inverno estão mantendo mais distanciamento social.”

O médico também relaciona a queda a uma possível sazonalidade do vírus e alguma imunidade natural da população. Ele alerta, porém, que isso não significa que não possa haver novos surtos, já que mudanças nas diretrizes, reaberturas e a presença de novas variantes já levaram a platôs e novas altas no país.

“Se aguentarmos um pouco mais de tempo, as vacinas vão ter seu impacto e não vamos ver o grande efeito das variantes, mas é muito possível ver surtos devido às novas cepas e ao fato de que populações que estão se contaminando com elas são jovens adultos, que ainda não foram vacinados.”

Chefe do departamento de epidemiologia da Universidade de Michigan, Joseph Eisenberg também reforça a importância de manter as medidas até que se atinja a imunidade de rebanho, estimada entre 50% e 60%.

Israel é o país mais perto dessa faixa: até a última sexta-feira (5), 56,6% haviam recebido ao menos uma dose da vacina e 42,3% já haviam sido completamente vacinados. Apesar de não estar entre as maiores quedas vistas nos três meses analisados, o país viu seu pico de média móvel, em 17 de janeiro, cair de 996,4 novos casos diários para 423,9 —queda de 57,4%.

Sobre o cenário americano, Eisenberg diz que, no momento, não se deveria ver necessariamente uma queda na transmissão, mas sim nas mortes, já que as vacinas estão sendo aplicadas em grupos de alto risco para a Covid-19. “Só quando tivermos imunidade de rebanho é que vamos ver uma queda significativa em transmissão. Essa grande diminuição nos casos provavelmente está ligada a outros fatores”, afirma ele, em referência às medidas de contenção.

Isso ajuda a explicar por que países como África do Sul, Portugal e Japão apresentaram algumas das maiores quedas examinadas no período. O país africano teve diminuição de 93,8% na média móvel de novos casos diários, passando de 321,1 infecções por milhão de habitantes em 11 de janeiro para 19,8 em 5 de março, com 0,12% da população vacinada.

O presidente Cyril Ramaphosa determinou toque de recolher entre 21h e 6h e proibiu a venda de bebidas alcoólicas em 28 de dezembro. Com a queda de casos, no entanto, já houve relaxamento das medidas, com a suspensão do toque de recolher —que já havia sido reduzido— e liberação da venda de álcool.

“Nada do que se projeta está garantido, vai depender da manutenção da atual tendência de decréscimo de novos casos”, afirmou à Folha no início do mês o epidemiologista português Baltazar Nunes, do Instituto Dr. Ricardo Jorge, sobre as conquistas do país europeu.

Portugal viu seu maior surto em 28 de janeiro, quando a média móvel de casos diários chegou a 1.264,2 por milhão de habitantes. Alguns dias antes, em 22 janeiro, quando o país via seus números crescerem vertiginosamente, um lockdown foi decretado, com fechamento de escolas e universidades e maior controle sobre estabelecimentos comerciais, além de um toque de recolher mais rígido.

Assim, a média móvel de casos diários foi a 78,9 por milhão de habitantes em 5 de março, um tombo de 93,8%, ainda que nesta data o país tivesse vacinado 6,8% da população.

Já no Japão, a queda foi um pouco menor, mas ainda assim expressiva. Em 11 de janeiro, a média móvel nipônica atingiu 51 casos por milhão de habitantes, a maior cifra durante toda a pandemia no país, número que caiu a 8,3 em 5 de março —tombo de 83,7% no período.

Nesta data, porém, apenas 0,04% dos japoneses haviam sido vacinados, a menor taxa entre os 13 países analisados. Com o pico no início do ano, o governo decretou em 7 de janeiro estado de emergência em Tóquio e outras três cidades da região, expandindo a determinação a outros sete municípios dias depois. A medida permite que gestões locais restrinjam movimentação e funcionamento dos comércios.

Ranking da queda dos casos da Covid

Os países com vacinação já iniciada que viram os maiores tombos entre o pico registrado e o dia 5 de março

  1. Belize

    Pico em 9.dez / Queda de 98,4%

  2. Islândia

    Pico em 11.dez / Queda de 98,3%

  3. Zimbábue

    Pico em 14.jan / Queda de 97%

  4. África do Sul

    Pico em 11.jan / Queda de 93,8%

  5. Portugal

    Pico em 28.jan / Queda de 93,8%

  6. Marrocos

    Pico em 17.nov / Queda de 92,9%

  7. Reino Unido

    Pico em 9.jan / Queda de 89,4%

  8. Japão

    Pico em 11.jan / Queda de 83,7%

  9. Colômbia

    Pico em 20.jan / Queda de 80,2%

  10. EUA

    Pico em 2.jan / Queda de 77,5%

  11. Costa Rica

    Pico em 10.jan / Queda de 72,3%

  12. Canadá

    Pico em 9.jan / Queda de 70,2%

  13. Rússia

    Pico em 26.dez / Queda de 61,3%

Essas regras são vistas, em maior ou menor escala, nos 13 países recordistas de queda entre os que já começaram a vacinação. O campeão, Belize, um pequeno país de 397,6 mil habitantes ao sul do México, adotou toque de recolher entre 22h e 5h em 28 de novembro, medida que vem prorrogando desde então e que é complementada com restrições de ocupação de locais como ginásios e igrejas.

A nação na América Central teve seu pico em 9 de dezembro, com média móvel de 957,5 casos por milhão de habitantes, caindo para 15,1 em 5 de março, tombo de 98,4%. A vacinação, por outro lado, começou recentemente, nos últimos dias de fevereiro, e em 5 de março equivalia a 0,25% da população.

Segunda na lista, a Islândia saiu de uma média móvel de 253,3 casos diários por milhão de habitantes em 11 de outubro para 4,2 em 5 de março —queda de 98,3%. O país insular, que já vacinou 7,92% de sua população, adotou uma série de medidas quando atingiu o pico, controlando o número de pessoas que podem se reunir e o funcionamento de escolas. Mesmo com a melhora dos números, hoje só permite a entrada no país após teste negativo para Covid-19 e quarentena de cinco dias em hotéis.

A análise dos 13 países indica ainda que uma resposta nacional pode ser mais efetiva do que delegar as restrições a estados, províncias e regiões. Na lista, Japão (8º colocado), Colômbia (9º), EUA (10º), Canadá (12º) e Rússia (13º) adotaram respostas regionalizadas.

A Colômbia, por exemplo, que registrou queda de 80,2% na média móvel de casos entre seu pico, em 10 de janeiro (350,9 casos por milhão de habitantes), e 5 de março (69,6), adotou medidas que impactaram apenas as principais cidades do país no fim do ano.

Já no início do ano, determinou restrições de mobilidade e proibição de reuniões em espaços públicos em municípios e departamentos com ocupação de mais de 70% das UTIs. Em 5 de março, 0,47% dos colombianos haviam recebido ao menos uma dose do imunizante contra o coronavírus.

Na Rússia, país que mostrou a menor queda entre o grupo analisado, o pico da média móvel de novos casos diários, de 195,3, em 26 de dezembro, passou para 75,5 em 5 de março, um decréscimo de 61,3%. Em meio à alta de casos, ainda em novembro, o líder do país, Vladimir Putin, delegou aos governantes locais a determinação de restrições.

Em Moscou, um dos epicentros do repique no país, foram colocadas limitações para o funcionamento de estabelecimentos de ensino, museus, exposições, bibliotecas e centros culturais, além da determinação para que uma parte dos funcionários de empresas trabalhasse remotamente. Em meados de janeiro, porém, essas medidas começaram a ser flexibilizadas. Embora a Rússia tenha sido o primeiro país a começar a vacinar, com a controversa Sputnik V, só 3,36% da população receberam ao menos uma dose.

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