Brasil tem responsabilidade de liderar solução para crise climática, diz John Kerry à Folha

Para enviado especial de Biden, 'palavras devem ser apoiadas pela ação concreta a curto prazo'

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Washington

Enviado especial para o clima do governo americano e principal elo da relação diplomática entre a Casa Branca e o Planalto, John Kerry diz que o Brasil tem responsabilidade de liderar a solução para a crise climática, sob um esquema de fiscalização e cobrança desenhado pela equipe de Joe Biden.

Em entrevista exclusiva, por email, Kerry se diz disposto a negociar com o presidente Jair Bolsonaro, sem discutir sanções, mas reforça que a credibilidade do líder brasileiro, conhecido por sua política ambiental negligente, vai ser pavimentada sobre ações e resultados imediatos, além da exigência de uma "redução significativa" do desmatamento ainda em 2021.

"O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo e líder regional, o país tem a responsabilidade de liderar", diz Kerry.

O enviado de Biden para o clima, John Kerry, conversa com jornalistas na Casa Branca
O enviado de Biden para o clima, John Kerry, conversa com jornalistas na Casa Branca - Al Drago - 22.abr.21/The New York Times

Chamado de czar do clima de Biden, o ex-secretário de Estado americano afirma que os EUA vão acompanhar de perto as medidas tomadas pelo governo brasileiro para cumprir as promessas feitas por Bolsonaro durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, convocada por Biden em abril. "As palavras devem ser apoiadas pela ação concreta a curto prazo", afirma o americano.

Em seu discurso no mês passado, Bolsonaro prometeu dobrar os recursos para fiscalização ambiental, antecipou em dez anos a meta para alcançar a neutralidade climática, agora para 2050, e se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal até 2030, o que já estava previsto no Acordo de Paris.

Um dia depois, porém, oficializou um corte de quase R$ 240 milhões no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, o que alarmou Kerry. O americano diz que o governo brasileiro garantiu diretamente a ele que haverá uma recomposição dos recursos, mas espera confirmar a veracidade da promessa.

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Questionado sobre a possibilidade de confiar em Bolsonaro, que já ameaçou usar "pólvora" contra os EUA "quando acaba a saliva", sinalizou que não compra a ideia de que o líder brasileiro mudou completamente de postura. "No Brasil, ações e resultados mostrarão a credibilidade dos compromissos."

A complacência com Bolsonaro interessa a Biden, que tenta se consolidar como líder em uma nova configuração geopolítica mundial, ditada pelo clima. Nesse cenário, Kerry sabe que o Brasil é personagem-chave, com 60% da floresta amazônica em seu território, assim como a China, principal emissora de poluentes e grande rival política americana.

"Fazer com que a China faça mais é fundamental para o nosso sucesso coletivo sobre o clima."

Qual a avaliação geral sobre a Cúpula de Líderes sobre o Clima? O presidente Biden, o secretário [de Estado, Antony] Blinken e eu ficamos muito satisfeitos com a cúpula, reunindo as principais economias do mundo para encontrar maneiras de resolver a crise climática de maneira coletiva. A cúpula foi um passo importante a caminho para a conferência climática da ONU, em Glasgow, em novembro, e vamos procurar todos —governos, indivíduos, sociedade civil, instituições e empresas privadas— para assumir a liderança na resolução da crise climática. Agradeço a todos os líderes que participaram da cúpula, incluindo o presidente Bolsonaro.

O que achou do discurso que Bolsonaro fez na cúpula? As promessas do presidente brasileiro foram suficientes? Achei que as observações do presidente Bolsonaro foram construtivas e úteis. Seu compromisso de alcançar a neutralidade de carbono dez anos antes do que o Brasil havia prometido anteriormente é significativo, assim como dobrar os recursos disponíveis para a fiscalização [ambiental], um passo crucial para eliminar o desmatamento ilegal até 2030.

É vital envolver povos indígenas e comunidades tradicionais para proteger áreas florestais e de biodiversidade, e concordo com o reconhecimento de Bolsonaro de que todos —países, empresas, entidades e pessoas— devem estar envolvidos para ajudar a encontrar soluções. Os anúncios do presidente Bolsonaro foram um passo importante, e agora vamos acompanhar como o Brasil toma medidas para implementar esses compromissos e fazer o que pudermos para apoiar esse processo.

Como em todos os países, as palavras devem ser apoiadas pela ação concreta a curto prazo. Todos nós precisamos tomar medidas ambiciosas agora para alcançar nossas metas até o final deste ano, até 2030, e até 2050. Se quisermos resolver a crise climática, precisaremos de um esforço global e de toda a sociedade, e isso inclui o setor privado. Esta é uma crise urgente, mas também é uma oportunidade econômica incrível. Encorajo os líderes empresariais brasileiros a pensar o que mais eles podem fazer que seria bom tanto para o mundo quanto para o lucro deles.

Em seu discurso, Bolsonaro disse que dobraria os recursos para fiscalização ambiental, mas um dia depois, cortou o orçamento de órgãos e programas relacionados às mudanças climáticas e à conservação ambiental. Como o governo dos EUA vê essa ação? O governo brasileiro nos garante que está discutindo o orçamento internamente e que encontrará recursos para cumprir os compromissos. Como outros, vamos procurar confirmação de que esse compromisso foi cumprido.

Houve algum país que surpreendeu o senhor de forma positiva durante a cúpula, ou um que o decepcionou? Fiquei especialmente impressionado com os anúncios do Canadá e do Japão. E o movimento da União Europeia para colocar sua meta de 2030 em lei, além da meta do Reino Unido para 2035 são, naturalmente, muito encorajadoras. Houve outros anúncios notáveis: 55% das economias mundiais agora estão no caminho para manter o aquecimento da Terra a não mais de 1,5 ºC, que é o que os cientistas estão nos dizendo que devemos fazer para evitar os efeitos mais catastróficos da crise climática. Os países estão indo na direção certa, mas devemos fazer mais e devemos fazer urgentemente. Precisamos conquistar os outros 45%.

Um porta-voz do Departamento de Estado disse que Bolsonaro adotou um tom positivo e construtivo na cúpula, mas sua credibilidade com os EUA dependerá de "planos sólidos e foco nos resultados". Quais são esses planos e resultados? Que número o Brasil tem que atingir neste ano, em termos de diminuição do desmatamento? O presidente Bolsonaro se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030 e alcançar a neutralidade climática até 2050. Para atingir qualquer uma dessas metas, o Brasil precisará tomar medidas imediatas para reduzir significativamente o desmatamento em 2021.

Em que circunstâncias os EUA considerariam colocar qualquer tipo de sanção ou outra punição ao Brasil pelo fracasso do país em proteger a Amazônia? Essa opção não está sendo discutida.

O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, pediu diretamente US$ 1 bilhão para reduzir o desmatamento da Amazônia em até 40% em um ano. Ele disse que, sem dinheiro de forma antecipada, não se comprometeria com números. Por que os EUA não deram dinheiro ao Brasil antecipadamente? Existe um cronograma para a chegada dos primeiros recursos? Os EUA estão engajados e continuarão a se engajar em uma série de programas no Brasil. O enfrentamento da crise climática requer parcerias globais com grandes impactos, e o Brasil será um parceiro-chave na busca e implementação das soluções para esta crise. O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo e líder regional, o país tem a responsabilidade de liderar.

O governo dos EUA reconhece e respeita a soberania do Brasil no enfrentamento dos desafios ambientais, e podemos construir nosso forte histórico de cooperação ambiental para alcançar metas mais ambiciosas. Espero ver um progresso claro para concretizar o compromisso de acabar com o desmatamento ilegal, incluindo medidas tangíveis para aumentar fiscalização, além de fortes sinais políticos de que o desmatamento ilegal e a invasão não serão tolerados.

Apesar do tom no discurso na cúpula, a política ambiental de Bolsonaro sempre foi negligente. No ano passado, em resposta à sugestão de Biden de que o Brasil poderia enfrentar consequências se não limitasse o desmatamento, Bolsonaro disse: "Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora". Por que acha que é possível confiar em Bolsonaro? No Brasil, assim como em outros lugares, ações e resultados mostrarão a credibilidade dos compromissos.

Como os EUA podem pressionar outros países sobre mudanças climáticas quando ainda é um dos maiores emissores de carbono do mundo e não reduziu substancialmente as próprias emissões? Reconheço que a falta de ação climática do governo federal dos EUA nos últimos quatro anos nos fez recuar, mas também notei que o setor privado e a sociedade civil dos EUA continuaram a progredir. Este momento exige esforços e soluções ousadas. O presidente Biden sabe que as apostas na crise climática nunca foram tão altas como são hoje. É por isso que, logo após sua posse, voltou ao Acordo de Paris e assinou uma série de ordens executivas para orientar o governo dos EUA a tomar medidas ousadas no país e no exterior para enfrentar a crise climática. E é por isso que na cúpula do mês passado ele anunciou uma nova e mais ambiciosa meta de emissões para os EUA [reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa em relação aos níveis de 2005]. Acredito que nossos novos compromissos demonstram que nós mesmos estamos dispostos a tomar o tipo de ação decisiva que estamos pedindo aos outros.

China e Índia não se comprometeram com números ambiciosos de redução de emissões para a próxima década. Como os planos climáticos do presidente Biden podem ter sucesso sem dois dos principais emissores? Vemos a Índia como um forte parceiro na inovação de que precisamos para a transição do mundo rumo à energia limpa e continuaremos a trabalhar com eles na ambição climática. A China é o maior consumidor de carvão do mundo e é responsável por 30% das emissões mundiais. Por isso, é claro, fazer com que a China faça mais também é fundamental para o nosso sucesso coletivo sobre o clima.

Quais vantagens Biden tem sobre o ex-presidente Barack Obama quando se trata de abordar grandes crises, dado que, depois de Donald Trump, parece haver mais apetite no Congresso e entre a população para ações agressivas sobre o clima, a pandemia e a economia? Acho que você está certa em dizer que vimos uma grande mudança na opinião pública: há um acordo mais forte e apoio à ação nos níveis internacional, nacional e local. Acho que muitos de nós neste governo trazemos a vantagem da experiência, combinada com uma abertura às ideias de nossos colegas e amigos mais jovens.


Raio-X

John Kerry, 77
Advogado e ex-oficial da Marinha americana, foi Secretário de Estado durante o governo Barack Obama, de 2013 a 2017, e senador e vice-governador por Massachusetts. Em 2004, concorreu à Presidência dos EUA pelo Partido Democrata, mas foi derrotado por George W. Bush. É o enviado especial para o clima do governo Joe Biden

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