No 1º dia de retirada de tropas dos EUA do Afeganistão, base militar parece bazar em liquidação

Estrutura de trilhões de dólares agora se resume a espaços vazios e construções semidemolidas

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Thomas Gibbons Neff
Base Aérea de Kandahar (Afeganistão) | The New York Times

Um avião de transporte americano deslizou pela pista de pouso carregado de munições, uma televisão gigante de tela plana de uma base da CIA, paletas de equipamentos e militares de partida.

Foi um de vários aviões que naquela noite levavam embora os remanescentes da guerra americana desta grande base militar no sul do Afeganistão. Joe Biden disse que os EUA vão retirar suas forças do Afeganistão até 11 de setembro, encerrando a mais longa guerra travada pelo país em solo estrangeiro.

Mas a retirada já começou. Os EUA e seus aliados da Otan passaram décadas expandindo a base aérea de Kandahar até convertê-la em uma cidade para tempos de guerra, repleta de barracas, centros de operações, alojamentos de tropas, quadras de basquete, galpões para armazenagem de munições, hangares para aeronaves e ao menos uma agência de correios.

Quando a base tiver sido despida de tudo que seus locatários americanos e da Otan consideram que tenha potencial valor militar, seu esqueleto será entregue às forças de segurança afegãs. E a mensagem ficará clara: as forças afegãs terão que enfrentar o Taleban por conta própria.

Soldado americano a bordo de helicóptero militar sobrevoa Cabul, capital do Afeganistão
Soldado americano a bordo de helicóptero militar sobrevoa Cabul, capital do Afeganistão - Jim Huylebroek - 2.mai.21/The New York Times

A julgar pelas cenas vistas no fim de semana, uma máquina de guerra de trilhões de dólares se converteu em uma liquidação de garagem. Na época áurea da base aérea, em 2010 e 2011, seu célebre e muito ironizado calçadão tinha lanchonetes, restaurantes de rede, um rinque de hóquei e lojas de quinquilharias.

Dezenas de milhares de militares dos EUA e da Otan ocuparam a base, e muitos mais passaram por ela, que se tornou o maior centro da guerra liderada pelos EUA no sul do Afeganistão.

A base ficava ao lado de povoados rurais dos quais emergira o Taleban. Ao longo de tudo, a província de Kandahar continuou a ser reduto dos insurgentes. Agora, academias de ginástica ao ar livre semidemolidas e hangares vazios estavam cheios de materiais e equipamentos militares acumulados ao longo de quase 20 anos. O terminal de passageiros, onde antes as tropas transitavam entre partes diferentes da guerra, estava completamente escuro e cheio de cadeiras vazias e empoeiradas.

Um detector de incêndio assobiava intermitentemente, com as pilhas fracas. Os refeitórios estavam fechados. Do calçadão elevado, restavam apenas algumas tábuas.

A retirada americana, quase discreta e coberta de um verniz de ordem, destoa completamente da situação desesperadora vista fora do perímetro da base. Em uma extremidade da pista de pouso de Kandahar, naquele dia, o major Mohammed Bashir Zahid, oficial encarregado de um pequeno centro de comando aéreo afegão, estava sentado em sua sala de trabalho com um telefone em cada ouvido e um terceiro nas mãos, digitando mensagens no WhatsApp, tentando conseguir apoio aéreo para as forças de segurança afegãs em terra e em pontos próximos ameaçadas por combatentes do Taleban.

“Ontem não dava sequer para a gente sentar, de tão caóticas que estavam as coisas”, disse. “Eu dormi ainda de botas calçadas e com minha arma no coldre.”

Sentado em sua sala com ar condicionado, construída pelos americanos, Zahid prevê que, em breve, um de seus pedidos de assistência aos americanos serão recebidos com silêncio. No sábado, ele nem sequer pediu ajuda. Concentrou-se, em vez disso, sobre os helicópteros e caças afegãos que pôde alcançar.

Sua indignação com a saída dos americanos não é pela falta de apoio aéreo, mas, explicou, apontando para fotos em seu telefone, pelos veículos utilitários esportivos que os americanos teriam destruído na base aérea porque não podiam levar embora.

“É isso que realmente me incomoda”, disse Zahid, com a aparência exausta exemplificando o senso de desespero da maioria dos soldados afegãos. Os americanos provavelmente destruíram os veículos para não deixar que fossem vendidos, em vista da corrupção desenfreada entre boa parte das tropas afegãs.

Zahid pensou que os americanos estivessem destruindo mais desses veículos quando uma explosão ecoou na pista de pouso por volta das 14h. Era um foguete, disparado de algum ponto fora da base e que caiu dentro dela, mas sem matar ninguém. O anúncio ouvido no alto-falante da base era distante e praticamente indecifrável dentro da construção em formato de lata que abriga o centro de operações de Zahid. Ninguém se moveu, os telefones continuaram a tocar, o trabalho seguiu adiante.

Apesar de o foguete ter caído no lado afegão da base, os americanos consideraram o incidente um ataque do Taleban contra eles. Por um acordo com o grupo firmado em fevereiro de 2020, a administração Trump havia prometido retirar completamente todas as forças americanas do Afeganistão até o dia 1º de maio.

Nas últimas semanas, o Taleban disse que qualquer presença americana no país além dessa data seria considerada uma violação do acordo. Os militares americanos esperavam algum tipo de ataque enquanto se retiravam, não obstante os gestos diplomáticos dos negociadores americanos em Doha, no Qatar, que haviam tentado transmitir ao Taleban que os militares iam se retirar de fato e que atacar tropas americanas seria inútil e um erro.

Lá Fora

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A resposta dos EUA não foi nada sutil. Um grupo de caças F/A-18 estacionados no porta-aviões nuclear USS Eisenhower voou do mar Arábico para o Afeganistão, um trajeto de duas horas seguindo o chamado “bulevar”, um corredor de espaço aéreo no oeste do Paquistão que funciona como rota de tráfego aéreo.

Tendo recebido aprovação para atacar, os jatos desceram, atirando uma bomba guiada por GPS –uma munição que custa mais de US$ 10 mil (R$ 53,7 mil)— sobre os foguetes adicionais situados em algum lugar em Kandahar, montados sobre trilhos rudimentares e voltados para a base aérea.

Dentro do QG americano na base aérea, dois boinas verdes –parte do contingente cada vez menor que ainda trabalha no local— assistiram em seus telefones a um vídeo do ataque aéreo daquela tarde.

“Não deixe de incluir no relatório dessa noite”, disse um deles. Barbados, tatuados e trajando camisetas e bonés de beisebol, os soldados das Forças Especiais pareciam deslocados entre o que restava dos cubículos e móveis de escritório à sua volta, muitos dos quais estavam sendo desmontados.

Televisores tinham sido tirados das paredes, impressoras estavam amontoadas na calçada, as insígnias antes fixadas sobre o muro de pedra anunciando quem comandava o QG tinham sido tiradas havia muito tempo. Embora dentro em breve haverá cada vez menos militares presentes a cada dia, um soldado destacou que os pacotes de alimentos e provisões enviados por americanos aos soldados não diminuíram. Ele próprio já acumulava um estoque aparentemente infinito de biscoitos Pop-Tart.

O fim da guerra não se parecia em nada com seu início. Algo que começou como uma operação para derrubar o Taleban e matar os terroristas responsáveis pelos ataques do 11 de Setembro cresceu ao longo de 20 anos e se converteu numa empreitada militar-industrial de múltiplos trilhões de dólares, infundida de tanto dinheiro que durante anos pareceu que seria impossível concluir ou desmontá-la algum dia.

Até agora. Um ditado muito citado do Taleban pairava sobre o dia: “Vocês têm os relógios. Nós temos o tempo.” Em um dos muitos sacos de lixo espalhados pela base havia um relógio de parede descartado. O ponteiro dos segundos ainda se movia.

Tradução de Clara Allain

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