EUA assinam acordo de paz com Taleban e prometem retirar tropas do Afeganistão em 14 meses

Negociações abrem caminho para encerrar conflito de 20 anos

Zalmay Khalilzad, representante especial dos EUA para a reconciliação no Afeganistão, e o co-fundador do Taleban, mulá Abdul Ghani Baradar, assinam acordo de paz em Doha, no Qatar Giuseppe Cacace/AFP

Doha | Reuters e AFP

Os Estados Unidos e o Taleban assinaram neste sábado (29) um acordo de paz histórico,para tentar colocar fim a um conflito de quase 20 anos.

Em um evento em Doha, no Qatar, o negociador americano, Zalmay Khalilzad, e o mulá Abdul Ghani Baradar assinaram o texto e, em seguida, deram um aperto de mãos.

Pelo acerto, o Taleban se compromete a parar de fazer ataques, a não apoiar grupos terroristas e a negociar com o governo afegão. Em troca, todas as tropas dos EUA e da coalizão da Otan deixarão o país até abril de 2021, e o Taleban ficará livre de sanções, caso os termos acordados sejam cumpridos.

Os governos dos EUA e do Afeganistão prometeram libertar cerca de 5.000 prisioneiros ligados ao Taleban. Em troca, o grupo soltará cerca de 1.000 presos.

A retirada de tropas será feita de forma gradual ao longo de meses, e o número de militares estrangeiros no Afeganistão será reduzido de cerca de 14 mil para 8.600 até julho. No entanto, caso haja o retorno da violência no pais, o processo poderá ser revertido.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, discursou no evento e disse que o Taleban se comprometeu a cortar seus laços com Al Qaeda, a combater o Estado Islâmico e a manter os progressos obtidos pelas mulheres desde 2001.

O Taleban defende uma visão radical de preceitos islâmicos. Quando esteve no governo, as mulheres não podiam estudar ou trabalhar fora de casa, e tinham de usar burcas para sair às ruas. Há temores de que com a volta do grupo à política, as mulheres possam voltar a ser subjugadas.

O mulá Abdul Ghani Baradar firmou o acordo em nome do Taleban e disse que o grupo está comprometido com os termos. Ele convocou os políticos e outros grupos afegãos a construir um regime islâmico para o país e pediu que Paquistão, Indonésia, China e Rússia participem da reconstrução nacional.

Os EUA também se comprometeram a não se envolver em questões domésticas do Afeganistão e a enviar recursos para equipar as forças de segurança afegãs. Há também a promessa de retirar as sanções contra o Taleban até agosto.

É a primeira vez que EUA e Taleban realizam um evento público conjunto para anunciar medidas de paz. Os dois grupos realizaram negociações secretas ao longo de anos, que foram sendo reveladas aos poucos a partir de 2018.

Em setembro, Trump cancelou uma reunião secreta que faria com o Taleban, em solo americano, porque os insurgentes seguiram fazendo atentados enquanto as conversas eram realizadas.

Algumas horas depois da assinatura do acordo, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse em entrevista coletiva na Casa Branca que pretende encontrar pessoalmente com líderes do Taleban "em um futuro não muito distante" e esperar que eles ajudem a matar terroristas.

Trump também afirmou acreditar que o acordo de paz terá sucesso, mas alertou que os militares dos EUA poderão voltar ao Afeganistão, de forma muito rápida e com mais intensidade do que nunca, caso os termos sejam desrespeitados.

Apesar do tom histórico do evento, líderes dos EUA e da Otan mostraram comedimento ao estimar as chances de sucesso do acordo. Pompeo disse que o Taleban mostrou boa vontade ao respeitar uma trégua de uma semana, que antecedeu o acordo, mas que o monitoramento do cumprimento dos termos será firme.

A Otan deu apoio ao acordo de paz, mas lembrou que o processo não será simples. "Temos que estar preparados para reveses e incidentes", disse Jens Stoltenberg, secretário-geral da entidade, que une forças militares de vários países.

O ponto mais sensível do acordo é que as conversas entre o Taleban, o governo afegão e outras forças do país ainda precisam ser iniciadas. O Taleban até então se recusava a falar com o governo, pois o considerava um marionete dos EUA.

Agora, as negociações internas estão programadas para começar em 10 de março.

As Forças Armadas dos EUA invadiram o Afeganistão em 2001, após o 11 de Setembro, e removeram o Taleban do governo. O grupo foi acusado de dar abrigo à rede Al Qaeda, que realizou os atentados.

Houve eleições a partir de 2004, mas queixas de fraude, corrupção e brigas afetaram a credibilidade do governo. Enquanto isso, o Taleban, que defende uma interpretação radical dos preceitos islâmicos, foi ressurgindo e fazendo ataques, ao lado de outros grupos rebeldes.

Caso funcione, o acordo será um trunfo para o presidente Donald Trump, que busca o segundo mandato na eleição de novembro. Ele prometeu diversas vezes acabar com o que chama de "guerras sem fim". O líder americano reclama que os soldados fazem pouco mais do que um trabalho de polícia e que a guerra demanda muito dinheiro.

Para os afegãos, há temores de que, sem a presença militar estrangeira, etnias e regiões rivais entrem em conflito e que isso gere uma guerra civil como a dos anos 1990.

A democracia afegã enfrenta questionamentos internos. O presidente Ashraf Ghani, foi declarado reeleito em 18 de fevereiro, cinco meses após a realização da eleição, processo que atrasou devido à revisão de votos. Com a demora, opositores ameaçaram rejeitar o resultado e formar um governo paralelo.

A história das negociações entre os EUA e o Taleban no Afeganistão

  • Fim dos anos 1990: governo Clinton estabelece contatos secretos com o Taleban, mas isso não impede os ataques de 11 de setembro de 2001, quando a Al Qaeda derruba as torres gêmeas em NY; em resposta, os EUA enviam tropas ao Afeganistão, acusado de abrigar membros da organização
  • 2001: membros do Taleban começam uma guerrilha contra as tropas americanas a partir do Paquistão, avançando progressivamente em território afegão
  • 2004: primeiras tentativas de diálogo para encerrar a guerra fracassam
  • 2011: novas tentativas de conversa também não obtêm sucesso
  • 2013: o Taleban abre um escritório político no Qatar para negociar com os EUA, mas negociações são novamente interrompidas
  • 2015: o presidente afegão propõe negociações de paz com o Taleban e o reconhecimento de seu movimento como partido político, mas membros do grupo ignoram a proposta
  • 2018: presidente afegão faz a oferta novamente e anuncia um cessar-fogo unilateral, fazendo com que o Taleban anuncie três dias de paz —a luta é interrompida pela primeira vez desde 2001; em seguida, os EUA reconhecem que o conflito não tem "solução militar" e inicia negociações diretas com o Taleban em Doha
  • 2019: no início de setembro, ambas as partes estão prestes a chegar a um acordo, mas Trump anuncia que os diálogos serão interrompidos após a morte de um soldado americano em um ataque do Taleban a Cabul; novas negociações se iniciam em novembro
  • 2020: em janeiro, os EUA exigem que o Taleban se comprometa a reduzir a violência, e os insurgentes aceitam a condição; um mês mais tarde e após 19 anos de presença militar no país, Washington assina acordo de retirada do Exército americano da região ​
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