Como indianas usam até alfinetes para se defender de assédio sexual

Essa é umas das armas que elas escolheram para lutar contra os assediadores em espaços público lotados, como ônibus e metrôs

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Nova Déli | BBC News Mundo

Quase toda mulher indiana tem uma história de abuso sexual em espaços públicos lotados para contar —alguém mexeu nos seus seios, beliscou as nádegas, acotovelou-se no seu peito ou encostou-se nela.

Para combater os assediadores, as mulheres usam o que tiverem à mão. Décadas atrás, quando éramos estudantes no ensino médio e andávamos em ônibus e bondes lotados em Calcutá, no leste da Índia, minhas amigas e eu usávamos guarda-chuvas.

a foto foi tirada dentro de um metrô. no centro dela, em destaque, está uma jovem indiana de perfil. ela amarra seu longo cabelo num rabo de cavalo. diversas outras mulheres estão no vagão
Passageira viaja em um compartimento exclusivo para mulheres dentro do metrô de Nova Déli, na Índia - Money Sharma - 9.dez.22/AFP

Muitas também mantinham as unhas compridas e pontiagudas para arranhar "mãos bobas". Outras usavam o salto fino dos sapatos para atingir os homens que se aproveitavam da multidão para pressionar o pênis nas nossas costas.

Muitas outras usavam um instrumento bem mais eficiente, o alfinete. Afinal, ele está em toda parte.

Desde que foram inventados, em 1849, os alfinetes de segurança são usados por mulheres em todo o mundo para unir diferentes peças de roupas ou para resolver algum problema inesperado. E mulheres de todo o mundo também o usam para revidar contra seus agressores.

Poucos meses atrás, diversas mulheres da Índia foram ao Twitter dizer que sempre carregam um alfinete na bolsa ou junto ao corpo —e que esta é a arma que elas escolheram para lutar contra os assediadores em espaços cheios de gente.

Uma delas, Deepika Shergill, escreveu sobre um incidente no qual usou o objeto. Ela contou à BBC que aconteceu em um ônibus que ela sempre pegava para ir ao escritório. O episódio ocorreu décadas atrás, mas ela ainda lembra os detalhes.

Shergill tinha cerca de 20 anos e o abusador estava na casa dos 40 anos. Ela sempre usava um safári cinza (uma roupa indiana de duas peças que costuma ser usada pelas funcionárias públicas), sandálias abertas e uma bolsa de couro retangular.

"Ele sempre vinha e ficava perto de mim", ela conta. "Ele se inclinava, esfregava a virilha nas minhas costas e caía em cima de mim sempre que o motorista freava."

Shergill conta que, naquela época, era "muito tímida e não queria chamar a atenção para mim". Por isso, ela sofreu em silêncio por meses. Mas uma noite, quando "ele começou a se masturbar e ejaculou no meu ombro", ela decidiu que bastava.

"Eu me senti suja", relembra ela. "Quando cheguei em casa, eu tomei um banho muito longo. Não contei nem à minha mãe o que havia acontecido comigo."

"Naquela noite, não consegui dormir e até pensei em sair do emprego, até que comecei a pensar em vingança. Eu queria feri-lo, machucá-lo, fazer com que ele nunca mais fizesse aquilo comigo", ela conta.

No dia seguinte, Shergill trocou as sandálias baixas por sapatos de salto alto e embarcou no ônibus armada com um alfinete de segurança.

"Assim que ele chegou e ficou perto de mim, levantei do meu assento e amassei os dedos dos pés dele com os saltos. Eu o ouvi ofegante e fiquei muito alegre", afirma ela. "Então usei o alfinete para furar seu antebraço e rapidamente saí do ônibus."

Shergill continuou pegando aquele ônibus por mais um ano, mas aquela foi a última vez que o encontrou.

É uma história impressionante, mas não é algo raro de acontecer.

Uma colega de Shergill, na casa dos 30 anos, narra um incidente em que um homem tentou apalpá-la várias vezes em um ônibus noturno, entre as cidades de Cochin e Bangalore, no sul da Índia.

"No início, eu me livrava dele, achando que fosse acidental", conta. Mas quando ele continuou, ela percebeu que era deliberado —e o alfinete de segurança que ela usava para manter o cachecol no lugar "salvou o dia".

"Eu o espetei e ele se afastou, mas continuou tentando mais e mais vezes, e eu continuei espetando de volta. Por fim, foi embora", ela conta. "Ainda bem que eu tinha o alfinete, embora eu me sinta uma boba por não ter me virado e lhe dado um tapa."

"Mas, quando eu era mais jovem, eu tinha medo de que as pessoas não me apoiassem se eu desse o alarme", afirma ela.

Problema global

Ativistas afirmam que o medo e a vergonha da maioria das mulheres incentivam os abusadores e disseminam ainda mais o problema.

Em uma pesquisa online em 140 cidades indianas em 2021, 56% das mulheres contaram que já sofreram abuso sexual no transporte público, mas apenas 2% foram à polícia.

A ampla maioria afirma que tomou iniciativas próprias ou preferiu ignorar a situação, muitas vezes se mudando de lugar para não criar uma cena ou preocupadas para não agravar o contexto.

Mais de 52% das mulheres entrevistadas contaram que já desistiram de oportunidades de educação e emprego, devido à "sensação de insegurança".

"O medo da violência sexual afeta a mobilidade e o lado psicológico das mulheres, mais do que a violência em si", afirma Kalpana Viswanath, uma das fundadoras da organização social Safetipin, que trabalha para tornar os espaços públicos seguros e inclusivos para as mulheres.

"As mulheres começam a impor restrições a si próprias, o que as impede de terem cidadania igual à dos homens", explica ela. "O impacto sobre a vida das mulheres é muito mais profundo do que o fato de serem molestadas."

Viswanath indica que o abuso das mulheres não é apenas um problema indiano. A questão é mundial.

Uma pesquisa com mil mulheres realizada pela Fundação Thomson Reuters em Londres, Nova York (EUA), Cidade do México, Tóquio (Japão) e no Cairo (Egito) concluiu que "as redes de transporte são ímãs para os predadores sexuais, que usam as aglomerações dos horários de rush para esconder seu comportamento e como desculpa se forem pegos."

Viswanath afirma que mulheres da África e da América Latina contaram a ela que também carregam alfinetes de segurança. E, segundo a Smithsonian Magazine, as mulheres já usavam alfinetes de chapéu nos anos 1900 nos Estados Unidos para ferir os homens que chegassem perto demais delas.

Mas, mesmo ocupando os primeiros lugares em diversas pesquisas globais sobre a escala de abusos públicos, a Índia não parece reconhecer que este seja um grande problema.

Viswanath afirma que isso ocorre, em parte, porque a ausência de queixas faz com que o abuso não seja incluído nas estatísticas criminais. E a influência do cinema popular nos ensina que o abuso é apenas uma forma de cortejar as mulheres.

Mas Viswanath afirma que, nos últimos anos, a situação melhorou em várias cidades. Na capital indiana, Nova Déli, os ônibus têm botões de pânico e câmeras de circuito fechado. Foram contratadas mais mulheres motoristas e foram elaboradas sessões de treinamento para sensibilizar os motoristas e cobradores para que atendam melhor as mulheres passageiras.

Policiais também foram destacados para os ônibus. A polícia lançou ainda aplicativos e números de telefone de emergência que as mulheres podem usar para ter ajuda.

Viswanath, no entanto, diz que nem sempre é questão de policiamento.

"Acho que a solução mais importante é que precisamos falar mais sobre o assunto. É preciso ter uma campanha estruturada nos meios de comunicação, que coloque na cabeça das pessoas o que é aceitável e o que não é", segundo ela.

Até que isso aconteça, Shergill, minha colega e milhões de mulheres indianas precisarão manter seus alfinetes ao alcance da mão.


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