Nova doutrina diplomática da Rússia aponta Ocidente como 'ameaça existencial'

Material retoma linguagem da Guerra Fria; Lukachenko, ditador da Belarus e aliado de Putin, levanta bandeira nuclear

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São Paulo

Fruto do desenrolar da Guerra da Ucrânia, a Rússia lançou nesta sexta-feira (31) sua nova doutrina de política externa, um documento de mais de 40 páginas que desenha um inimigo bem delimitado: os EUA.

No manual que agora dita a postura e influencia os discursos da diplomacia russa ao redor do mundo, o governo de Vladimir Putin aponta Washington como a principal ameaça à estabilidade internacional e condutora de uma "linha anti-Rússia" no Ocidente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, antes de reunião virtual do Conselho de Segurança, no Kremlin, em Moscou
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, antes de reunião virtual do Conselho de Segurança, no Kremlin, em Moscou - Alexei Babuchkin - 31.mar.23/Sputnik via Reuters

Em um passo além, o material, capitaneado pelo decano chanceler Serguei Lavrov, diz que o Ocidente configura uma espécie de ameaça existencial cuja dominação deve ser combatida.

Em reunião do Conselho de Segurança russo, Lavrov disse que a nova doutrina estabelece o direito russo de tomar "medidas simétricas, ou mesmo assimétricas, em resposta a ações hostis" e que "inimigos ocidentais estão tentando enfraquecer Moscou de todas as maneiras".

Na prática, o documento formaliza a postura que vem sendo adotada pela diplomacia de Putin ao longo dos últimos anos, em especial desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022 —justificada por Moscou como, entre outras coisas, uma resposta ao avanço da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, na antiga órbita soviética.

"O documento designa os EUA como o principal motor da política antirrussa", disse Lavrov, segundo transcrição da reunião disponibilizada no site do Kremlin. "A política do Ocidente que visa à degradação total da Rússia é descrita como um novo tipo de guerra híbrida."

O termo, agora apropriado pelo russo, é adotado pelo Ocidente para descrever a estratégia russa contra Kiev: operar uma disputa física, em campo, e também virtual, por meio de ataques hackers e ondas de desinformação disparadas contra adversários nas plataformas sociais.

Ainda assim, Lavrov disse que Moscou busca uma coexistência pacífica e um equilíbrio de interesses com Washington. Depois, pediu que o país mantenha a chamada estabilidade estratégica —em outras palavras, o equilíbrio das capacidades nucleares dos dois países.

A fala, no entanto, vem pouco mais de um mês após Moscou abandonar o último acordo de controle de mísseis estratégicos vigente, o Novo Start, que já cambaleava desde que a guerra começou.

No mesmo material, para fazer oposição à hegemonia americana, Moscou propõe o alargamento da cooperação militar com a África (continente que volta a ser disputado pelas principais potências mundiais), a China (que firmou sua "amizade sem limites" com os russos)— e a América Latina. Nesse último bloco, há menções específicas ao Brasil e às ditaduras de Nicarágua, Cuba e Venezuela.

Nesta quinta-feira (30), o governo Lula deixou de assinar a declaração final da Cúpula da Democracia do governo de Joe Biden pelo fato de o documento conter críticas explícitas a Moscou.

Aos acenos nucleares russos se somam falas semelhantes de um dos principais aliados de Putin no xadrez global, o ditador da Belarus, Aleksandr Lukachenko. Em discurso ao Parlamento, o líder do regime de Minsk levantou a bandeira de uma possível guerra nuclear. "Uma terceira guerra mundial surgiu no horizonte com perspectivas nucleares."

Lukachenko disse que seu país está aberto a guardar em seu território mísseis nucleares intercontinentais russos —um aceno feito poucos dias após Putin anunciar um acordo para estacionar armas nucleares táticas no país vizinho já a partir de julho.

"Não estou tentando intimidar ou chantagear ninguém. Quero apenas proteger o Estado belarusso e garantir a paz", disse o ditador. Ele também pediu uma espécie de cessar-fogo na Guerra da Ucrânia que, no entanto, envolveria apenas o recuo de Kiev, não o fim da invasão capitaneada por seus aliados russos.

Lukachenko, no poder desde 1994, disse que a Belarus tem armas convencionais suficientes para combater o que chamou de ameaças evidentes, mas que, se observarem o aumento do risco, usarão tudo o que for possível —um aceno ao material nuclear russo.

O ditador subiu o tom e afirmou, sem apresentar provas, que há um plano do Ocidente para invadir seu país, provavelmente por meio da vizinha Polônia, que é membro da Otan. "Acredite em minha palavra, nunca os enganei. Eles estão se preparando para invadir a Belarus, para destruir nosso país."

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