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Os macacos do diesel

Escândalo da Volks mancha reputação de outras marcas e a do próprio combustível 

Elevador leva carros em fábrica da Volkswagen em Wolfsburg
Elevador leva carros em fábrica da Volkswagen em Wolfsburg - David Hecker - 3.mar.2012/Associated Press

 

A empresa Volkswagen, um emblema da excelência tecnológica da Alemanha, ocupa há mais de dois anos o centro de um escândalo que tem manchado a reputação não só de outras marcas poderosas, como BMW e Daimler-Benz, mas também de um combustível fóssil –o óleo diesel– crucial para o setor de transportes.

No revés mais recente da indústria automobilística alemã, veio a público que as três montadoras patrocinaram experimentos controversos em que macacos foram expostos a poluentes gerados por um veículo Novo Fusca (New Beetle) a diesel. Detalhe: o motor do carro havia sido manipulado para emitir menos substâncias tóxicas.

O estudo foi realizado nos EUA pela Associação Europeia de Pesquisa em Ambiente e Saúde no Setor de Transportes (EUGT, na sigla em alemão), entidade inteiramente financiada pelas montadoras. O objetivo era lançar dúvida contra decisão de 2012 da Organização Mundial da Saúde (OMS) que considerara o diesel carcinogênico.

A fraude com motores para diminuir suas emissões em testes de bancada já viera à tona em setembro de 2015, envolvendo de início só a VW nos EUA. Aos poucos se revelou que a manipulação afetara milhões de carros fabricados no mundo todo, de várias marcas.

Desconhecia-se, no entanto, o experimento com macacos. A pesquisa veio, assim, somar ofensa contra direitos animais com a notória afronta aos direitos do consumidor e um atentado deliberado contra a saúde pública.

A queima do diesel é uma das principais fontes de óxidos de nitrogênio e material particulado fino que atacam os pulmões. Segundo a OMS, a poluição do ar provoca 7 milhões de mortes prematuras no planeta, a cada ano, e o diesel que a indústria tentava vender como combustível limpo tem muito a ver com isso.

O paralelo com o pesadelo judicial enfrentado pelos fabricantes de cigarros parece mais que óbvio. Um setor empresarial atuou de modo coordenado para manipular dados científicos sobre seu produto a fim de ocultar o real dano que causava à população.

Só nos Estados Unidos, a admissão de fraude industrial pela VW acarretou-lhe multas de US$ 26 bilhões. Pode-se imaginar o que ela e seus congêneres enfrentarão daqui para a frente por tentar deter a derrocada inevitável do diesel.

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