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Floriano de Azevedo Marques Neto e Celso Fernandes Campilongo: Arcadas nada arcaicas 

A Faculdade de Direito da USP tem quase 200 anos. Não é pouco tempo, mas a São Francisco segue jovem e com muito por fazer 

Floriano de Azevedo Marques Neto Celso Fernandes Campilongo

A Faculdade de Direito da USP tem quase 200 anos. Não é pouco tempo, mas a São Francisco segue jovem e com muito por fazer. É isso, afinal, o que nos motivou a assumir a direção do curso. 

O momento é favorável, muito se fez recentemente. O ensino de graduação passou por mudanças relevantes, e as atividades de extensão se ampliaram. 

Os próximos anos serão de desafios. Somos parte de universidade pública, custeada pela sociedade. Por isso, não basta formar profissionais, é preciso compromisso com a excelência: produzir pesquisas úteis, provocar pensamento crítico, contribuir para o desenvolvimento do país, ofertar atividades à comunidade.

 Sessão Solene do Conselho Universitário da USP, em homenagem aos 190 anos da Faculdade de Direito, em São Paulo
Sessão Solene do Conselho Universitário da USP, em homenagem aos 190 anos da Faculdade de Direito, em São Paulo

O desafio da excelência une servidores, alunos e professores. 

Temos compromisso com a diversidade. As mudanças nos critérios do vestibular, iniciadas em 2015, têm alterado o corpo discente. Em 2020, metade dos  ingressantes virão de escolas públicas. Destes, cerca de um terço de cotas raciais.  

O ganho em multiplicidade social, racial e regional é notável. Enganou-se quem imaginava comprometida a qualidade. Os beneficiários da seleção inclusiva são os melhores dentro de cada grupo. Nestes dois anos iniciais, o desempenho destes alunos não apresentou diferenças em relação ao conjunto. 

Essas transformações nos obrigam a desenvolver mecanismos de apoio, inclusive bolsas de permanência e moradia. 

Vivemos, porém, tempos marcados pelo sectarismo. O compromisso com a diversidade impõe também radicalizar o pluralismo e o debate de ideias, os melhores antídotos para a eugenia de pensamento.

Há o desafio da atualização. Somos instituição tradicional, mas com forte compromisso com a renovação.

A cada ano recebemos mais jovens ambientados no mundo digital. Seguir ensinando como no século passado aumentaria o fosso cognitivo. 

Obrigatório repensar conteúdos e métodos de transmitir conhecimento. Estar num edifício tombado não nos condena a funcionar em instalações precárias. O desafio é ser atual sem abrir mão da tradição.

O país atravessa período de grave crise política, institucional e econômica. Direitos fundamentais são ameaçados. A São Francisco tem o dever de contribuir para os diagnósticos e as soluções. 

Recolocar-se no debate nacional é outro desafio. Exige, além da mobilização de seus membros, mecanismos eficientes de comunicação. Não basta falarmos para dentro, somos demandados a nos comunicar com a sociedade. Temos que divulgar as pesquisas que fazemos e as atividades de extensão. 

Enfrentar esses desafios exige recursos. Eles não virão apenas dos cofres públicos, onde disputam inúmeras prioridades. É preciso criatividade, buscar novas fontes, inclusive junto à sociedade. E vencer preconceitos ideológicos.

Receber recursos para financiar projetos transparentes, viáveis e objetivos não significa renunciar à autonomia, inegociável. No mundo todo, universidades reconhecidas recebem doações e financiamento privado sem perder sua independência. 

A cada ano a São Francisco forma mais de quatro centenas de graduados, outros tantos mestres e doutores. A maioria ocupará posições de destaque no mercado. É passada a hora de facilitar seu engajamento, ensejando a possibilidade de contribuir para a melhoria da faculdade.
 

FLORIANO DE AZEVEDO MARQUES NETO, professor titular do departamento de direito do Estado, é diretor da Faculdade de Direito da USP  CELSO FERNANDES CAMPILONGO, professor titular do departamento de filosofia do direito, é vice-diretor da Faculdade de Direito da USP

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