Descrição de chapéu Opinião

Arthur Guerra de Andrade: Redução do consumo de álcool, um bom começo

Brasileiro bebe menos, mas quadro pode melhorar

Dependentes participam de reunião dos Alcoólicos Anônimos na zona sul de São Paulo
Dependentes participam de reunião dos Alcoólicos Anônimos na zona sul de São Paulo - Julia Chequer - 18.ago.16/Folhapress

O último relatório de Estatísticas Mundiais de Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), indica: reduzimos em 10% o consumo per capita de álcool puro em 6 anos, de 8,7 litros em 2010 para 7,8 litros em 2016. Isso significa que, em média, cada brasileiro acima de 15 anos deixou de beber cerca de uma dose (o equivalente a uma lata de cerveja de 350 ml, ou uma taça de vinho de 150 ml ou uma dose de bebida destilada de 45 ml) por semana.

Essa foi uma interessante surpresa, pois o senso comum era de um consumo mais elevado, atingindo inclusive os mais jovens.

Tais estimativas são uma resposta positiva à OMS, que alerta para o uso nocivo de álcool --relacionado a mais de 200 tipos de doenças e lesões. Estamos caminhando em direção à meta global proposta pela OMS: redução de 10% do uso nocivo do álcool até 2025.

Mas não estamos satisfeitos, pois continuamos acima da média mundial (6,4 litros). Ademais, o uso nocivo de álcool engloba quantidade consumida, padrão e contexto de uso, existindo outros indicadores além do consumo per capita (apesar de este ser o principal).

Temos que nos comprometer a metas mais ambiciosas. Até 2025, podemos diminuir o beber pesado episódico (ingestão de 4 ou mais doses para mulheres ou 5 ou mais doses para homens, em uma única ocasião), uso precoce (antes dos 18 anos, totalmente inaceitável) e a direção de veículos sob a influência do álcool. Para isso, precisamos intensificar ações de prevenção, oferta de tratamento e pesquisas científicas, para que boas práticas e programas eficazes sejam replicados.

É um trabalho que envolve sociedade, universidades, profissionais de saúde, legisladores, escolas, empresas e órgãos públicos.

O tema abrange e é influenciado por diversos fatores além da saúde, incluindo políticos, sociais e econômicos, sendo necessários estudos sobre o impacto de cada um desses aspectos para compreender os motivos da redução deste consumo.

Seria interessante, por exemplo, avaliar se e como o consumo de álcool pode ter sido influenciado pelo maior poder aquisitivo em 2010, quando registramos crescimento econômico, e pelo cenário de recessão de 2016.

Outro fator relevante é a conscientização da população sobre o assunto. Ações de diferentes setores —governo, empresas, escolas, comunidades e organizações da sociedade civil— foram realizadas nesse período, e acredito que esse trabalho em conjunto tenha sido um dos responsáveis por esse resultado tão importante.

Destaco algumas de maior visibilidade: atualização na Lei Seca em 2012 (ampliação das possibilidades de provas da infração, sem a obrigatoriedade do uso do bafômetro); intensificação de sua fiscalização, e a lei que tornou crime a oferta de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, em 2015.

Os dados são positivos —um alento para quem, como eu, trabalha há mais de 40 anos nessa área e vê no dia a dia o quão devastador pode ser o uso nocivo do álcool, atingindo não somente quem bebe em excesso, mas suas famílias, amigos e a sociedade. Que possamos unir pesquisa, tratamento, prevenção e políticas públicas para melhorar cada vez mais a saúde dos brasileiros.

Arthur Guerra de Andrade

Professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, presidente-executivo do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool) e coordenador do Programa Redenção, da Prefeitura de São Paulo

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