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Laura Greenhalgh

Sobre viagens e sinais particulares

Mourão contrapõe Bolsonaro em agenda nos EUA

Laura Greenhalgh durante edição da Festa Literária Internacional de Paraty, em 2011
Laura Greenhalgh durante edição da Festa Literária Internacional de Paraty, em 2011 - Leticia Moreira - 7.jul.11/Folhapress
Laura Greenhalgh

A viagem de Jair Bolsonaro aos EUA fez emergir uma coleção de sinais particulares —em especial, no plano das interlocuções do presidente e de seu “entourage”.

Um desses sinais veio do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do chefe da nação, a desfilar pelos salões de Washington como chanceler sem pasta, embrulhado para presente. Coube a ele a afirmação de que imigrantes ilegais brasileiros causam “vergonha”. 

No entanto, é para esse público que o vice-presidente Hamilton Mourão reservou agenda na viagem que fará aos EUA, nos próximos dias. São sinalizações diametralmente opostas, a do parlamentar e a do general, em torno de um tema a merecer atenção e alguma sensibilidade. 

Nossa imigração nos EUA tem suscitado trabalhos acadêmicos originais. Entre eles, o de Teresa Sales, ex-professora da Unicamp, que deu origem ao livro “Brasileiros Longe de Casa”. No início dos anos 2000, Teresa pesquisava a caudalosa imigração brasileira na região de Boston, Massachusetts. Eram muitos os brasileiros vivendo em lugares como Cambridge, Framinghan, Somerville, vindos de cidades mineiras, goianas, cearenses. 

Enviada de uma publicação, pude ver de perto o fenômeno e escrever sobre uma comunidade que não parava de crescer (estimava-se em 600 mil brasileiros por lá). 

Teria sido uma rica experiência para o deputado, hoje à frente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Foi para mim. Encontrei gente batalhadora, tirada do Brasil por um plano econômico desastroso e introduzida no território americano das formas mais inseguras. Eram cabeleireiras, pedreiros, comerciantes, professores...

Trabalhavam para juntar economias e enviá-las aos parentes no Brasil, pagando taxas abusivas a intermediários. Fora gordos honorários para advogados americanos que prometiam regularizar a papelada. Havia, sim, brasileiros que se comportavam mal. A “grande” minoria. 

O sonho americano pode ser duro com quem perde elos familiares, hábitos cotidianos, referências culturais. Tanto que igrejas evangélicas se instalaram e se deram bem naquela área, ao acolher os “longe de casa”, hoje estimados em 1,5 milhão de brasileiros. Não por acaso o pastor Silas Malafaia, apoiador de Bolsonaro, reagiu tão mal à declaração do deputado: tratar como “vergonha” esses imigrantes teria sido “uma oportunidade para ficar de boca fechada”.

Farpas à parte, vale notar como o vice-presidente habilmente aceitou o convite para se encontrar com líderes dessa comunidade brasileira, já com peso político nos EUA. Com isso, Mourão parece tomar distância não só de Bolsonaro, mas de Trump e seu acintoso projeto de erguer um muro entre México e EUA para barrar a entrada da vizinhança indesejada.

Atribuir más intenções aos imigrantes, como fez Jair Bolsonaro no momento em que o Brasil contabiliza mais de 13 milhões de desempregados, beira a insensatez. Mas, sinal particular: o presidente parece gostar do tom corretivo e moralista de seus comentários, como se os brasileiros, 209 milhões de indivíduos, estivéssemos sempre prestes a “tomar um pito” para não fazer o paizão passar vergonha.

Laura Greenhalgh

Jornalista

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