Descrição de chapéu

Bolsonaro e o Irã

Alinhamento voluntarista do presidente aos EUA expõe o Brasil além do necessário

O navio iraniano Bavand, próximo ao porto de Paranaguá, no Paraná - João Andrade/Reuters

O episódio em que dois navios iranianos ficaram retidos por falta de abastecimento perto do porto de Paranaguá (PR) pôs em evidência os incertos rumos da política externa de Jair Bolsonaro (PSL).

As embarcações trouxeram ureia para voltar carregadas com milho. Elas estão incluídas na lista de sanções dos Estados Unidos ao país asiático —enquanto o transporte de alimentos é isento de punições.

Quem coopera com o funcionamento dos navios fica, pois, sujeito a penalidades secundárias. A Petrobras, fornecedora quase monopolista de combustível naval, se negou a encher o tanque dos cargueiros.

A petroleira teve bons motivos. Desde que, em 2018, os EUA deixaram o pacto multilateral destinado a evitar que o programa nuclear do Irã desenvolvesse a bomba atômica, Washington tem aumentado a pressão sobre o adversário.

Isso inclui punir quem colabora com Teerã. Estatal com capital aberto, listada na Bolsa de Nova York, a Petrobras tem responsabilidade para com seus acionistas e deve evitar o risco de sanções.

O governo, apesar de ser seu controlador, não tem poderes absolutos sobre a estatal. Logo, bastaria a Bolsonaro deixar a disputa se desenrolar, com um desfecho judicial —que acabou acontecendo, com o Supremo Tribunal Federal determinando o abastecimento.

Mas o presidente não prima pela contenção e, após evocar o perigo de sanções, ressaltou o alinhamento ao governo de Donald Trump.

Se na era petista o Brasil mereceu críticas por sua política amistosa em relação ao Irã, ajudar a tocar tambores de guerra alheios tampouco condiz com sua tradição.

Ademais, há perdas palpáveis em potencial. Neste ano, a nação persa foi responsável pelo quarto maior superávit na balança comercial brasileira, e é o maior destino externo de nosso milho.

Em visitas de americanos e israelenses neste 2019 para defender o endurecimento com o Irã, o Itamaraty reiterou que apenas uma mudança de entendimento da Agência Internacional de Energia Atômica sobre as intenções iranianas faria o Brasil mudar de atitude.

Isso pode até acontecer, dado que os aiatolás têm radicalizado suas posições. Até aqui, porém, a prudência de diplomatas, amparada pela cúpula militar, prevaleceu.

O voluntarismo expresso por Bolsonaro, inspirado por um entorno dito ideológico no qual pontifica o chanceler Ernesto Araújo, ameaça romper esse delicado equilíbrio.

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