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José Vicente

Virada da consciência para mudar o Brasil

É necessário alterar mentes e corações para restabelecer nossa diversidade

Ao longo dos séculos e especialmente das últimas décadas, a comunidade de nações reconheceu e ratificou a convicção de que nenhum grupo humano, sociedades, países ou nações conseguiriam alcançar os propósitos de existência, desenvolvimento, sustentabilidade e perenidade se não fossem estruturadas sobre os fundamentos e garantias da liberdade, igualdade, justiça e dignidade humana dos seus concidadãos. Sem esses elementos, concluíram, padeceriam em guerras, conflitos e destruição permanente ou em distorções, desigualdades e desequilíbrios sociais que, ao final, não permitiria alcançar e fazer prevalecer a paz, a fraternidade e a harmonia social.

Convencidos e conscientes da irredutibilidade desses valores e dos riscos e alta voltagem desses desafios, construíram e consolidaram o consenso e a determinação de que qualquer doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, não havendo justificativa para a discriminação racial, em teoria ou na prática.

O educador e advogado José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares - Greg Salibian - 20.nov.18/Folhapress

No Brasil, ao longo dos tempos, cumprir esses fundamentos e alcançar esses objetivos sempre se apresentou como um desafio sobre-humano. Construído sobre as bases do racismo e forjado sobre os fundamentos da discriminação racial, uma das maiores e mais longevas nações escravocratas do planeta confronta-se permanentemente com as sombras do passado e os desafios do presente. Nem o repúdio planetário, nem a garantia como direito subjetivo internacional, nem a designação como principio constitucional, nem a inscrição do racismo como crime hediondo, imprescritível e inafiançável permitiu que, no país, os  propósitos civilizatórios alcançassem os objetivos e o sucesso desejados.

Nem os ideais republicanos, nem os fundamentos da democracia e nem os pressupostos do Estado de Direito evitaram que negros e brancos restassem separados e divididos, distinguidos e desiguais. Não impediu que nossa realidade de nação de negros, diversos e miscigenados, se transformasse num padrão estético branco e monocolor. Não evitou que os negros se transformassem no maior contingente dos pobres, e que se tornasse invisível e excluído de todos os espaços sociais, de toda expressão cultural e de todos os ambientes empresariais.

Para alterar essa realidade e cumprir esse ideário é necessário mudar mentes e corações restabelecendo nossa diversidade como um valor inelutável e inegociável, definindo e celebrando como um valor extraordinário que nos une, nos fortalece e nos torna únicos.

Essa missão é e deve ser de responsabilidade da sociedade civil, das instituições e de todas as pessoas de interesse e responsabilidade com o futuro do país. Por isso, a Afrobras — Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sociocultural— e a Faculdade Zumbi dos Palmares lançaram o movimento cívico e educacional denominado Virada da Consciência. O objetivo é permitir que as pessoas conheçam e se apropriem de informações importantes, interajam e realizem experiências significativas e vivenciem e convivam nos mais diferentes e diversos ambientes com aspectos da cultura, da trajetória, das realizações, da história e das grandes contribuições e realizações que os negros disponibilizaram para o mundo e para o Brasil.

Por isso, centenas de parceiros públicos e privados foram arrolados para realizar essa grande tarefa de construir um caminho firme e seguro em direção àqueles propósitos planetários. Engajando as pessoas, estimulando as ideias, movimentando o corpo e a mente e incensando os corações realizaremos uma maratona cívica, cultural e educacional de valorização da diferença, do fortalecimento da diversidade e do respeito inegociável à dignidade do ser humano.

Pretendemos que, ano a ano, depois de tanto contato e vivência, estejamos bem melhores do que quando iniciamos —e, dessa forma, ajudemos a cumprir o ensinamento de Nelson Mandela de que, se os homens aprenderam a odiar eles, também podem ser ensinados a amar.

Mudar a consciência, para mudar a realidade, para mudar o Brasil.

José Vicente

Advogado, doutor em educação e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

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