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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O ouro de Francisco

Papa celebra 50 anos de sacerdócio e amor aos mais pobres

O papa Francisco celebra nesta sexta-feira (13) o jubileu de ouro —meio século de ministério sacerdotal. Ouro que ultrapassa a simples contagem de 50 anos, no horizonte do passar do tempo. Preciosidade cinzelada no “cadinho” da vida religiosa jesuíta, pelos serviços prestados, amor sincero à Igreja e, de modo interpelante, aos mais pobres.

Com o seu jeito de ser, o papa oferece oportunidade de uma aprendizagem amorosa: a força maior vem de dentro; não se configura simplesmente no que está de fora. Sua vida e ministério são vividos como dom e responsabilidade, a partir da experiência insubstituível do encontro pessoal e transformador com Jesus Cristo, desdobrada na missão de bispo e sucessor do apóstolo Pedro. No seu modo de agir, Francisco indica a dinâmica da liberdade interior que cura o mal terrível e demolidor da autorreferencialidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e arcebispo de Belo Horizonte - Arquivo Arquidiocese de BH

A liberdade interior, por assentar-se na essencialidade mística da fé cristã, incomoda e interpela. A interpelação ocorre por indicar que o mais importante não está em possuir —bens, títulos, carreira, poderes e reconhecimentos. Já o incômodo é gerado porque a liberdade requer nível profundo de autenticidade e vivência genuína do cristianismo, com propriedades para fazer surgir novo humanismo.

Percebe-se, pois, que os aspectos conceituais, embora importantes, sozinhos são insuficientes para alcançar as metas próprias da fé cristã. Ao invés disso, podem criar nos desavisados, restritos aos formalismos, um processo de demolição do rico arcabouço da doutrina da fé. Há de se assumir, com urgência, o desafio existencial de reconhecer, mais que as explicações e as conceituações —instrumentos indispensáveis —, valor do testemunho, com atitudes que refletem o que se professa e celebra.

O ouro da liberdade interior, sobre os alicerces da compreensão lúcida e ortodoxa, ofusca, pelo seu reluzir, o que se fundamenta na dimensão das exterioridades —camuflagem das estreitezas, do que interiormente é apequenado. O resultado inevitável é o próprio questionamento das falsas seguranças, construídas também a partir da idolatria do dinheiro, baseadas nas lógicas do poder, distantes da lucidez de um caminho honesto.

O ouro generoso e emoldurado pelas proximidades, diálogos, eleição dos pobres como opção preferencial e o foco iluminador da vivência genuína do cristianismo parecem provocar um terremoto, suscita incômodos, mas possibilita à Igreja retomar a sua força, ancorada nas preciosidades inesgotáveis e intocáveis da fé e da tradição.

O ouro do papa Francisco é uma luz que dissipa obscuridades humanas e institucionais. Contribui para reconfigurar a engrenagem de uma roda que tem movido o mundo, mas exige mudanças, para debelar o que está na contramão de valores do Evangelho.

São exigidas novas respostas para vencer condutas perpetuadas a partir do medíocre argumento de que o mundo e as coisas “sempre foram assim”. Francisco mostra que o Evangelho, quando abraçado, desconstrói estruturas e funcionamentos que estão na sua contramão, e não são poucos. Revela que a fidelidade e a ortodoxia, inspirando nova ortopraxia, pedem e possibilitam as transformações necessárias à atualidade.

As congratulações pelo “ouro” do Papa Francisco, no jubileu áureo de seu sacerdócio, se desdobram em convocação ao compromisso de repensar a investidura de cada ser humano com traços de simplicidade e desapego, para rejeitar hegemonias alimentadas pela sedução do dinheiro, fonte da desigualdade social, dos descompassos políticos, capaz de ferir a dignidade humana, pela ambição sem limites, pelo carreirismo e pela insensibilidade, com a indiferença, sobretudo, em relação aos indefesos e pobres. 

A gratidão ao papa Francisco, ao celebrar seu jubileu de ouro sacerdotal, é oportunidade para fecundar o coração com alegrias e iluminar a mente, para que a Igreja e a sociedade sejam interpeladas a adotar novos gestos proféticos e corajosos, inspirados na fidelidade à autêntica fé cristã católica.

Enriquecido pelo “ouro” do papa Francisco, possa o mundo desmontar as engrenagens corrompidas, alcançar sabedoria, para fazer reluzir a vida com as preciosidades do evangelho.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

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