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Rabino Michel Schlesinger

Kipur para o Brasil

'Dia do retorno' serve para aprimorarmos a sociedade

Rabino Michel Schlesinger

A inovação teológica mais importante do judaísmo foi a noção de que existe apenas um Deus. 

A ideia do monoteísmo não foi introduzida de maneira imediata. Segundo os historiadores da religião, os proto-hebreus acreditaram que existiam diversos deuses, mas o Deus de Israel era mais poderoso que os demais. Essa crença se expressa em passagens bíblicas como “Quem se compara a Ti entre os deuses, Adonai?” (Êxodo 15:11). 

Em uma segunda etapa de desenvolvimento filosófico-religioso, teríamos passado pelo dualismo, uma crença de que além de Deus haveria uma outra força responsável por tudo de ruim que acontece no mundo. Expressões desta figura aparecem nas descrições da Cabalá, a mística judaica, como o “satán”, um diabo mitológico judaico ou o “gueinóm”, o inferno. Somente mais tarde nossos antepassados teriam aderido a um monoteísmo puro.

O rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista - Greg Salibian - 27.jan.19/Folhapress

O monoteísmo não veio sem sua carga de dificuldades teológicas. Se acreditamos em um único Deus, todo o bem que existe no mundo se origina neste Deus —e todo o mal também. O profeta Isaías expressa essa convicção quando diz: “Deus cria a luz e a escuridão, faz a paz e cria o mal” (45:7). 

Esta unidade, no entanto, não deveria ser confundida com uniformidade. Dizer que Deus é um é diferente de dizer que Deus é uniforme. Dizer que Deus deseja nossa unidade ou harmonia não significa que Deus espera de nós uniformidade. 

Como sociedade, somos desafiados a buscar um caminho conjunto, mas isso não significa que devamos ser iguais. O mundo da uniformidade seria um mundo pobre. A diversidade nos enriquece e desafia. 

Esta variedade, no entanto, não nos deveria impedir de colaborar, de trabalhar em conjunto como sociedade. Pelo contrário, a oportunidade que existe justamente na colaboração com pessoas diferentes de mim deveria estimular as parcerias e os relacionamentos. 

Temos nossas divisões. Somos muitas vezes obrigados a discordar de diferentes assuntos, mas isto não nos deveria impedir de continuar nos respeitando e buscando formas de agir como grupo.

Na minha experiência em Londres, durante o sabático de três meses no início deste ano, participei de um seminário sobre o papel dos religiosos em uma sociedade fragmentada. 

Em função do Brexit, o referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, aquela sociedade viveu e ainda vive um momento muito duro de divisão. 

 

O assunto foi responsável por separar amigos de décadas, sócios deixaram de se entender, vizinhos brigaram e familiares foram excluídos de grupos de WhatsApp. A Igreja Anglicana e a comunidade judaica se uniram para discutir qual seria o papel dos religiosos na reparação de uma sociedade fragmentada.

Enquanto estudava em Londres, pensei muito sobre as consequências das últimas eleições na nossa sociedade brasileira. Infelizmente, cá como lá, a polarização que se criou fez com que muitos ambientes se tornassem tóxicos. 

Para continuar convivendo, política tornou-se um assunto proibido em determinados ambientes. Em outros, a separação foi tamanha que impede, até hoje, que pessoas que se amam muito continuem convivendo de maneira saudável.

O Iom Kipur é o dia do retorno, da “teshuvá”, em hebraico. Nesta quarta-feira (9), judeus estão reunidos nas sinagogas de todo o mundo para refletir sobre como aprimorar a sociedade. Neste dia de jejum e oração, investigamos maneiras de ver a diversidade humana como oportunidade de aprendizado.

Não é possível que os partidos políticos, os times de futebol e as religiões criados pela humanidade para aprimorar a vida e enriquecer as experiências humanas sirvam de motivo para dividir pessoas de maneira definitiva.

O Brasil precisa deste Iom Kipur. Que a unidade de Deus nos inspire a superar o empobrecimento da uniformidade e que vejamos nas nossas diferenças oportunidade de crescimento.

Rabino Michel Schlesinger

Bacharel em direito pela USP, é rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso

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