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Rodrigo Coppe Caldeira

Sínodo amazônico: a face da igreja de Francisco

O catolicismo parece retomar seu significado mais profundo

Rodrigo Coppe Caldeira

O Sínodo para a Amazônia acabou no último sábado (26). A discussão durou dias e foi concluída com um documento final apresentado ao papa Francisco, cujo teor reflete em grande medida uma questão central: a adaptabilidade da igreja aos contextos locais. Estamos falando de presença, atualidade e plausibilidade.

A questão é milenar e acompanhou o catolicismo romano em toda sua história. Nos últimos tempos foi impulsionada na América Latina pelo forte recuo entre aqueles que se declaram católicos. A questão foi incentivada oficialmente com a reflexão eclesial no Concílio Vaticano 2º (1962-1965), momento chave de distensão entre Igreja e modernidade, desinflacionando seu discurso monovalente e militantista.

Papa Francisco reza missa no Vaticano para encerrar o Sínodo para a Amazônia - Remo Casilli - 27.out.19/Reuters

A proposta do sínodo por Francisco, seus embates e conclusões, são uma faceta da recepção daquele evento maior. O sínodo dos bispos, institucionalizado pelo papa Paulo 6º em 1965, foi uma resposta às demandas de alguns padres conciliares em vistas de ampliar a participação das comunidades locais no governo central da Igreja. Sinal de seu rosto mundial. Além disso, a ideia de uma nova evangelização colocada em marcha pelo Concílio exigia formas atualizadas de atuação num mundo cada vez mais plural.

A instituição sacava, a partir da interpretação de sua tradição bimilenar, algo importante do horizonte contemporâneo: seja o que for que é levado ao outro, deve-se sempre considerar o receptor. Seguindo essa intuição, as discussões do sínodo e o seu documento final tomaram o caminho em direção da aprovação de um rito amazônico, do ministério para homens casados naquele espaço e do aprofundamento dos estudos sobre o ministério das mulheres.

A primeira solução se relaciona à inculturação —a encarnação do cristianismo nas várias culturas. As outras duas, à presença de agentes religiosos qualificados que levem à frente a missão, problema que a Igreja enfrenta na região desde os primeiros tempos do Brasil colônia. Essas indicações, que deverão impactar a Igreja mundial no futuro, geraram fortes contrainvestidas de grupos reacionário-intransigentes, com seu puritanismo epistemológico e apego obstinado a um passado fantasioso.

As críticas contínuas e incisivas a Bergoglio e à sua agenda reformista desde sua eleição navegam nas consequências do ato diruptivo que representou a renúncia de Bento 16 em 2013 —qualquer papa é passível de renunciar, bastando fazer a pressão correta e ter sorte. O sínodo, como fruto do Concílio, representa o ingresso da igreja numa época pós-imperial. Algo que a nova (velha) intransigência católica não engole.

“A tradição”, afirmou Francisco na alocução final do sínodo, retomando uma imagem do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911), “é a salvaguarda do futuro e não a custódia das cinzas”. O nome “católico” parece retomar seu significado mais profundo no início do terceiro milênio cristão.

Rodrigo Coppe Caldeira

Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

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