Descrição de chapéu
Anielle Franco e Jurema Werneck

Mulher, como inúmeras brasileiras

Marielles sobrevivem, apesar de violências e assédios

Quando repetimos que Marielle Franco é gigante, não é só pela mobilização social, física e digital que seu assassinato causou. Dona de um carisma único, a filha, irmã, mãe, ativista e vereadora viveu sua vida pública com a mesma coerência da cidadã, moradora e cria do complexo de favelas da Maré.

Neste domingo (8), Dia Internacional da Mulher, marcado pela luta das mulheres do mundo todo, fazemos memória e exigimos respeito à sua história. Mulher, sobrevivente, resistente, honesta, corajosa, batalhadora e sonhadora. Marielle é como muitas brasileiras que talvez nem tenham acesso a este artigo.

Mulher caminha ao lado de cartaz da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em 2018 - Daniel Ramalho - 8.fev.20/AFP

Mulheres que sobrevivem, apesar dos espaços que a elas são negados, das violências e dos assédios.
Como irmã mais velha, desde muito nova segurava as pontas em casa e ia para as ruas vender sapatos e sacolés com a mãe, dona Marinete. E, com muito esforço, ela ingressou numa universidade particular com bolsa integral.

Marielle sabia que a oportunidade de estudar era uma exceção às regras que as desigualdades social e racial impõem aos moradores das favelas do Brasil. Por isso, sua atuação como ativista foi marcada pela inclusão. Ela não baixou a cabeça para o sistema injusto que insiste em deixar à margem principalmente jovens negros e favelados. Um dia antes de ser silenciada, Marielle bradou, via redes sociais: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, em referência às políticas de insegurança pública que fazem parte do dia a dia das favelas do Rio de Janeiro.

Ela também era mulher de paz. Agregadora, Marielle entendia a dor da ausência de alguém querido. Seu ativismo em defesa dos direitos humanos começou aos 15 anos, logo após perder uma amiga em um tiroteio, vítima de mais uma bala que encontrou um corpo inocente. E, por dez anos, atuou e posteriormente coordenou a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Recebia inúmeros casos de violações de direitos humanos contra civis, contra policiais militares e também suas famílias.

Sonhamos com o dia em que sua história e sua incansável dedicação às causas sociais sejam reconhecidas e celebradas sem o viés político-partidário. Marielle não fazia distinção de pessoas por ideologia —e muito menos por sua história de vida. Com certeza, esse olhar humano e amplo é fruto de um berço de amor, da família que ela tanto valorizava. A sua e as chamadas invisíveis pelo poder público. 
Às vésperas de completarem dois anos da morte de Marielle e Anderson, exigimos respostas às perguntas: Quem mandou matar Marielle, e por quê?

Em busca disso, a Anistia Internacional enviou dois ofícios pedindo audiências para o dia 13 de março com o governador do estado, Wilson Witzel, e com o Ministério Público do Rio de Janeiro para que eles deem explicações sobre o caso.

Um ano após os supostos assassinos terem sido presos, não identificamos avanços concretos nas investigações. Pelo contrário: este período foi marcado por vazamentos, desencontro de informações e aparente uso político do caso.

É importante que haja essa transparência, não só para as famílias de Marielle e Anderson, como para toda a sociedade brasileira que deseja que esse crime não caia no esquecimento. Cada dia que passa sem que as autoridades apresentem respostas concretas revela que os defensores de direitos humanos não estão seguros para atuar no Brasil.

Marielle não era melhor do que ninguém, e nem gostaria que assim fosse tratada. Continuamos a falar de Marielle, pois ela sabia que representava a voz de inúmeros excluídos: mulheres, negros, favelados e LGBTQIs, cujas demandas seguem sendo ignoradas pelas autoridades públicas. Ela nunca foi, e sua atuação continuará não sendo interrompida.

Além de gigante, Marielle é semente. Sua história inspira e ainda vai ser luz, como ela foi em vida, para que nasçam muitas outras Marielles, Brasil e mundo afora.

O Instituto Marielle Franco, criado recentemente, tem como pilares lutar por justiça, defender sua memória, multiplicar seu legado e regar essas sementes que ainda vão florescer para que Marielle esteja presente, hoje e sempre.

Anielle Franco

Irmã de Marielle Franco e diretora do instituto que leva o nome da vereadora, assassinada em 2018

Jurema Werneck

Diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil

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