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Ana Paula Morales, Estêvão Gamba, Hugo Aguilaniu, Natasha Felizi e Sabine Righetti

Combate à Covid-19 passa pela compreensão de como a ciência é feita

Campanha convoca cientistas a escrever em espaços cedidos por colunistas

Ana Paula Morales, Estêvão Gamba, Hugo Aguilaniu, Natasha Felizi e Sabine Righetti

Doutoranda na Unicamp e coordenadora da Agência Bori; doutor em ciências pela Unifesp e estatístico responsável pelo Ranking Universitário Folha (RUF); diretor-presidente do Instituto Serrapilheira; diretora de divulgação científica do Instituto Serrapilheira; pesquisadora da Unicamp e coordenadora da Agência Bori

A pandemia de Covid-19 escancarou o processo científico e mostrou nossa dificuldade em compreender a produção da ciência. Acompanhamos as perguntas dos pesquisadores, os resultados preliminares, as controvérsias —e ficamos confusos. Precisamos falar sobre a prática científica, e o Dia Nacional da Ciência, comemorado nesta quarta-feira (8), é uma oportunidade.

Pesquisadores do mundo todo têm publicado, em média, doze artigos por hora sobre a Covid-19 e seus impactos —sem considerar os “estudos preliminares” (“preprints”), que ainda serão avaliados por outros cientistas. São trabalhos, por exemplo, sobre medicamentos ou vacinas potenciais, algumas vezes refutados dias depois. Em seis meses, há mais de quinze mil trabalhos novos nos periódicos da base internacional Web of Science —mais do que o total publicado em décadas sobre os coronavírus.

Cientista trabalha em laboratório do Instituto Butantan, em São Paulo
Cientista trabalha em laboratório do Instituto Butantan, em São Paulo - Divulgação

Nunca tantos grupos olharam simultaneamente para um mesmo problema. Desde março, publicações sobre o tema cresceram mais de 2.000%.

O Brasil está entre os onze países com mais trabalhos sobre Covid-19, à frente de Suíça, Holanda, Japão e Coreia do Sul. Quatro em cada dez estudos brasileiros têm parceria internacional, e 98% dos trabalhos estão nas instituições públicas —resultados possíveis, mesmo com cortes orçamentários nos últimos anos, graças a décadas de investimentos majoritariamente públicos na ciência nacional.

Há #CientistaTrabalhando em todo lugar e contra o tempo. Mas, em um momento em que o mundo olha para a mesma doença à espera de respostas, é difícil compreender informações aparentemente contraditórias vindas da ciência. Um dado divulgado na imprensa pode ser refutado no dia seguinte. E assim a ciência segue.

Resultados científicos passam por testes, avaliação por pares, críticas, debates em conferências no mundo todo. A ciência é um espaço democrático, com um tempo próprio. Pode ser mal compreendida porque, na urgência da pandemia, seu tempo não tem sido respeitado. Sob a pressão “imediatista” da política e da sociedade, temos uma imagem instantânea e incompleta da produção científica e esquecemos de levar em conta o processo de produção do conhecimento.

O Instituto Serrapilheira financia pesquisadores em longo prazo porque respeita o tempo da ciência. Às vezes suas ideias são validadas, mas nem sempre. É preciso resiliência para recomeçar humildemente. O Serrapilheira também apoia divulgação científica, como é o caso da Agência Bori, que conecta o conhecimento produzido por pesquisadores brasileiros e jornalistas de todo o país.

Serrapilheira e Bori participam neste Dia da Ciência da campanha #CientistaTrabalhando. Convocamos colunistas de todo o país a ceder seus espaços para cientistas no mês de julho para que abordem todo o processo científico, e não apenas os resultados.

Os cientistas estão trabalhando —e como estão. E o combate à Covid-19 inclui a compreensão de como a ciência sobre o novo coronavírus é realizada e divulgada, seus tempos e controvérsias.

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