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Suspeitas familiares

Trocas salariais no gabinete de Bolsonaro quando deputado evocam caso de Flávio

Jair Bolsonaro, então deputado pelo PP-RJ, em seu gabinete na Câmara em 2014
Jair Bolsonaro, então deputado pelo PP-RJ, em seu gabinete na Câmara em 2014 - Alan Marques - 16.dez.14/Folhapress

Durante 28 anos, de 1991 a 2018, o presidente Jair Bolsonaro exerceu mandatos de deputado federal pelo Rio de Janeiro. Foi uma trajetória que se caracterizou por escassa atividade legislativa, falta de articulação política e alguns arroubos em defesa de teses autoritárias.

Até que uma conjunção excepcional de fatores o levasse a despontar como candidato competitivo ao Palácio do Planalto, Bolsonaro foi um típico representante do chamado baixo clero parlamentar, aquela fatia de representantes voltada para interesses miúdos e não raro envolvida em fisiologia escancarada —ou coisa pior.

Reportagem da Folha apontou sinais chamativos de que o atual chefe de Estado geria seu gabinete de modo um tanto heterodoxo. Análise de documentos relativos ao período que passou em Brasília mostrou intensa e surpreendente rotatividade salarial de cerca de um terço dos mais de 100 assessores que por ali passaram.

Observaram-se também intrigantes exonerações de auxiliares seguidas de recontratações. De um dia para outro, assessores viam seus salários serem dobrados, triplicados e até quadruplicados —e em pouco tempo eram reduzidos a menos da metade.

Na ausência de justificativas razoáveis, tais manobras levaram oposicionistas a apontarem suspeitas de apropriação ilícita de verbas à disposição dos congressistas —ainda porque o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, é investigado por suposta prática de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio.

Nove dos assessores que tiveram sigilo bancário quebrado pela Justiça na investigação em curso foram anteriormente lotados no gabinete do pai na Câmara. Ao menos seis deles estão entre os que passaram por seguidas oscilações em seus vencimentos.

Caso revelador é o de Marselle Lopes Marques, que trabalhou entre 2004 e 2005 no gabinete de Jair Bolsonaro. Começou com salário de R$ 261 e após três meses já fazia jus ao dobro da remuneração; em um ano, recebia um contracheque de R$ 6.011. Três meses depois, perdeu 90% desse valor.

Ela foi posteriormente lotada no gabinete de Flávio, no Rio, e é uma das investigadas no esquema da Assembleia fluminense.

São muitas conexões para que possam ser aceitas como simples coincidências. Cabe questionar se Bolsonaro, de discurso moralista já bastante desmoralizado, saberia explicar e defender o que ocorria em seu gabinete de deputado.​

editoriais@grupofolha.com.br

Erramos: o texto foi alterado

O texto informou incorretamente que Marselle Lopes Marques é filha de Fabrício Queiroz, ex-policial militar investigado por desvio de recursos da Alerj (cuja filha Nathália Queiroz passou pelo gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara). A informação errônea foi retirada.

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