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Paulo Roberto de Almeida

A vitória de Joe Biden é uma boa notícia para o Brasil? NÃO

Foi-se um dos raros interlocutores, e dá-se adeus à ilusão de 'grande aliança'

Paulo Roberto de Almeida

Escritor e diplomata de carreira desde 1977, serviu em diversos postos no exterior; é professor de economia política no Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub)

Como no caso de qualquer outra política governamental, a política externa também apresenta aspectos positivos ou negativos, segundo o lado que se examine. A vitória de Joe Biden na eleição de 2020 trouxe certo alívio ao resto do mundo, mas representa, ao que parece, uma péssima notícia para o Brasil.

Não para todo o Brasil, pois muitos, entre estes majoritariamente os diplomatas, aspiravam por esse resultado, cansados do que eles consideram uma diplomacia especialmente servil —não exatamente aos Estados Unidos, mas a Donald Trump, especificamente.

Com o livro 'O homem que pensou o Brasil', de sua autoria, o diplomata Paulo Roberto de Almeida discursa, em sessão solene no Congresso Nacional, em homenagem ao centenário do economista, diplomata e político Roberto Campos - Roque de Sá - 17.abr.17/Agência Senado

Mas também existem os que lamentam a não reeleição de Trump. Este é o Brasil de Jair Bolsonaro, para quem tal derrota significa a perda de um “grande amigo”, um dos poucos interlocutores com os quais ele mantinha a ilusão de uma grande “aliança”. O “outro Brasil”, integrado por grande parte da opinião pública mais informada, apostava nesse fracasso como forma de imprimir outra direção a certas políticas do atual governo, em especial a diplomacia.

Bolsonaro deixa de contar com um “aliado” na condução de sua política externa, assim como de várias outras, também. Talvez ele tenha de se desfazer do chanceler acidental e do ministro do Meio Ambiente; e terá de mudar orientações seguidas até aqui, ideológicas em sua maior parte, que se contrapõem a setores da opinião pública nacional —em especial, os homens de negócios— ou até a membros do seu próprio governo.

A vitória de Biden é péssima, pois, para o Brasil de Bolsonaro. Mas ela talvez possa não ser boa também para o “outro Brasil”. Os democratas, por exemplo, estarão ainda menos propensos do que os republicanos de Trump —que reverteram ao protecionismo— para fazer um acordo comercial bilateral, aliás já rejeitado por comissão da Câmara dos Representantes, que eles dominam.

Os “azuis” também tenderão a adotar uma postura de “controle” em matéria de meio ambiente e de direitos humanos e podem até querer “punir” o Brasil, não só pela destruição aparentemente patrocinada por Bolsonaro na Amazônia —intensas queimadas, desmatamento, desprezo pelos direitos dos indígenas—, mas também pelo reiterado apoio dado por ele a Trump, inclusive durante a tentativa de judicialização do processo de apuração.

Os democratas tampouco serão mais compreensivos no caso da disputa com a China, estimulada por Trump, mas que é igualmente partilhada por Joe Biden: a questão do 5G está aberta. Eles podem retroceder tanto no apoio ao ingresso do Brasil na OCDE quanto no status de “aliado extra-Otan”, o que poderia afetar pretensões dos militares brasileiros.

Em diversos outros temas de interesse de Bolsonaro, as posturas de Biden passam a divergir das orientações dadas aos diplomatas brasileiros, constrangidos a obedecer às instruções do chanceler —que concorda mais com seu colega Mike Pompeo do que com o próprio corpo profissional do Itamaraty.

Mas, ocupados com tantos problemas causados por Trump nos quatro anos de desmantelamento de tudo o que os americanos criaram desde os Acordos de Bretton Woods, os democratas podem não dar nenhuma atenção ao Brasil e à América Latina.

Isso é ruim? Não exatamente: talvez a melhor coisa de uma nova “negligência benigna” por parte do governo dos EUA seja justamente deixar o Brasil em paz com os seus próprios problemas. Provavelmente, ninguém vai nos pedir para participar da construção de uma nova ordem mundial...

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