Descrição de chapéu

Ineficiência paulistana

Levantamento constata fiscalização deficiente de normas antipandemia em SP

Circulação de pessoas na ladeira Porto Geral, na região da rua 25 de Março, que aumentou após a reabertura do comércio em São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress

Seria ingenuidade esperar que habitantes de São Paulo, por morarem na maior metrópole do país e serem governados por adversários do presidente negacionista Jair Bolsonaro, ficassem protegidos da proverbial ineficiência do poder público no Brasil. A Covid-19 está aí para mostrar que não é bem assim.

Fosse outra a realidade paulistana, talvez de maior eficácia no controle da pandemia, o número de casos no domínio sob jurisdição do prefeito Bruno Covas (PSDB) seria proporcionalmente menor, na comparação com o quadro nacional de infecções. Não é.

São Paulo contava nesta terça-feira (3) quase 318 mil casos confirmados, ou 5,7% do total de 5,6 milhões no país. A população da cidade representa 5,8% dos brasileiros.

É certo que a administração municipal logrou evitar um colapso do atendimento hospitalar, nos primeiros meses do flagelo. Também impôs as inescapáveis medidas de distanciamento social, enfrentando a sabotagem contínua do presidente da República.

O problema, como em toda parte no Brasil, reside na capacidade dos governantes de fazer cumprir as regras por eles estabelecidas. A Prefeitura de São Paulo não escapa ao padrão geral de ineficiência, como mostrou reportagem da Folha.

Os dados desanimadores sobre a fiscalização das normas baixadas foram obtidos, a muito custo, pela Rede de Pesquisa Solidária.

Essa iniciativa independente, que reúne instituições acadêmicas dos setores público e privado, precisou recorrer à Lei de Acesso à Informação para transpor barreiras erguidas por gestores municipais ao longo de vários meses.

Constatou-se, enfim, que as subprefeituras, encarregadas de verificar as restrições impostas a estabelecimentos comerciais, lavraram apenas 1.135 autos de infração, do início da epidemia até a primeira semana de setembro.

São menos de sete desvios sanitários por dia, cifra improvável numa metrópole com centenas de milhares de lojas, bares e restaurantes. Foi o comportamento responsável de boa parte dos paulistanos que evitou, até aqui, maior proliferação de internações e mortes.

Apontar a incapacidade de fiscalização, agora que ainda não existe vacina disponível, serve de alerta para a administração de Covas, caso venha a ser reeleito neste novembro, ou de seu sucessor preparar-se melhor para uma temida segunda onda, como a que no momento assola países europeus.

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