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Kleber L. Celadon

Gestão, espiritualismo e modismos

Diante de certas fórmulas, particularidades brasileiras devem ser observadas

Kleber L. Celadon

Professor com doutorado em gestão da inovação (University of Brighton) e pós-doutorado (FEA-USP), foi docente e pesquisador na University of the West of England e no Instituto Tecnológico de Monterrey, entre outros

A rápida expansão nas vendas de livros de auto-ajuda tem sido acompanhada por um sem fim de publicações na área de gestão empresarial.

Há casos em que não se distinguem facilmente uns dos outros, e temas da atualidade, como inteligência emocional, ou habilidades sociais —os “soft skills”—, aparecem mesclados com ideias espiritualistas arrebatadas de seus contextos originais e trazidas para a realidade brasileira sem a devida tropicalização.

Kleber L. Celadon - Professor com doutorado em gestão da inovação (University of Brighton) e pós-doutorado (FEA-USP), foi docente e pesquisador na University of the West of England e no Instituto Tecnológico de Monterrey, entre outros
O professor Kleber L. Celadon, doutor em gestão da inovação - Divulgação

Os autores John ​Micklethwait e Adrian Wooldridge, da revista The Economist, já haviam lançado luz sobre essa problemática no livro intitulado “The Witch Doctors” (“Os Feiticeiros”), onde enfatizaram o papel dos gurus da gestão empresarial nos casos de charlatanismo, fazendo uma analogia ao que ocorre às vezes no mundo espiritualista —e que pode acarretar prejuízos bastantes significativos para os contratantes. Com o crescimento das ofertas no mundo digital, e o aparecimento desenfreado das ditas “autoridades”, só piora o caos já existente.

Um exemplo é o acrônimo V.U.C.A., emprestado do inglês (“volatility”, “uncertainty”, “complexity” and “ambiguity”) e criado no final dos anos 1980, que tem rendido inúmeras publicações e servido de base para outras siglas que vão tomando as prateleiras das livrarias. Porém, observa-se que não trazem de fato nenhuma novidade além da rotulagem, pois essas quatro dimensões (“volátil”, “incerto”, “complexo” e “ambíguo”) sempre foram motivo de preocupação para o gestores, não passando, portanto, de um modismo com pouca utilidade prática.

Além do mais, na sociedade brasileira, onde a meritocracia anda muito prejudicada pelo racismo e pela ignorância manifestada de outras formas, há ainda um distanciamento muito grande dos países desenvolvidos, o que torna patético, em muitos casos, querer aplicar fórmulas para melhorar as habilidades sociais dentro da empresa —em uma sociedade que figura entre as mais violentas do planeta. É como se preocupar em colocar flúor no fornecimento de água sem que a mesma tenha sido previamente tratada.

Não há dúvida, no entanto, sobre as contribuições do espiritualismo, de eficácia comprovada, como é o caso da meditação —que possibilita um melhor desempenho profissional, além de enriquecimento na qualidade de vida. Porém, ao consultar um “guru”, seja espiritualista ou da gestão empresarial, há de se precaver contra as ofertas alienantes que tem por base apenas experiências de países mais estáveis, ou de religiosidade diferente, e que certamente não se encaixam na realidade brasileira.

É curioso notar que, no Brasil, uma nação de múltiplas influências espiritualistas e carregado de casos espetaculares de gestão exemplificados pelo agronegócio, ainda haja a necessidade de se importarem fórmulas prontas de outras fontes.

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