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Violência na quarentena

Taxa de homicídios sobe em SP em plena pandemia; identificar causa é fundamental

Policiais retiram corpo de assaltante que foi morto em troca de tiros em Caraguatatuba (SP) - Reginaldo Pupo/Folhapress

Num ano marcado por uma pandemia viral como o de 2020, em que as cidades brasileiras se viram, em maior ou menor grau, sob medidas que restringiram a circulação de pessoas e o funcionamento de bares e casas noturnas, parece lógico esperar alguma diminuição dos registros criminais.

No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, quase todos os indicadores recuaram no ano passado quando comparados aos de 2019. No caso dos homicídios, não apenas a tendência de queda dos últimos três anos se manteve como o índice regrediu para o patamar mais baixo desde 1991.

Não foi o que se verificou em São Paulo. No estado mais rico do país, o número de assassinatos paradoxalmente cresceu durante 2020, depois de cair continuamente ao longo dos sete anos anteriores.

Os homicídios dolosos passaram de 2.778, em 2019, para 2.893, no ano passado, alta de 4,1%. Já o total de vítimas cresceu mais: 4,5%. Registraram-se 3.038 mortos em 2020, ante 2.906 no ano anterior.

O recrudescimento estadual chama ainda mais a atenção quando se observa que praticamente todos os demais indicadores recuaram. Com relação aos crimes patrimoniais, os latrocínios caíram 6,7%; roubos e furtos regrediram 14,3% e 24,8%, respectivamente. A nota dissonante foram os assaltos a bancos, que passaram de 21 para 29.

Até os estupros, que vinham subindo no estado havia quatro anos, tiveram queda de 10,9% —embora especialistas advirtam que o confinamento resultante da pandemia de Covid-19 possa ter dificultado o registro dessas ocorrências.

Verdade que, malgrado o recente aumento do número de assassinatos, São Paulo segue apresentando de longe a menor taxa de homicídios do Brasil, de 6,48 por 100 mil habitantes —um trunfo das administrações tucanas que, com interrupções pontuais, estiveram à frente do estado nos últimos 25 anos, período em que esse índice mostrou recuo expressivo.

O crescimento de 2020 figura como um acontecimento historicamente raro. Desde que tais dados começaram a ser compilados, em 2001, essa foi apenas a terceira vez que a curva de homicídios inverteu o sentido de queda.

Por essa razão, é imprescindível que as autoridades se debrucem agora sobre as estatísticas de violência. Compreender as causas do retrocesso é fundamental para que se formulem políticas adequadas de segurança e, dessa maneira, garantir que o estado preserve esse importante legado civilizacional.

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