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Desfecho patético

Witzel é retirado do governo do Rio em processo de impeachment sem opositores

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Wilson Witzel, que sofreu impeachment no Rio - Pilar Olivares - 28.ago.20/Reuters

Processos de impeachment por natureza são conflituosos e traumáticos, fazem aflorar tensões da sociedade e põem em xeque a agenda de governo. Não se pode descrever assim, no entanto, a primeira deposição de governador desde a redemocratização do país.

Na sexta (30), Wilson Witzel (PSC) foi retirado em definitivo do comando do Rio de Janeiro —o terceiro estado mais populoso e o segundo mais rico da Federação— por 10 votos a 0 pelo Tribunal Especial Misto composto por deputados estaduais e desembargadores.

Witzel estava afastado do cargo desde agosto de 2020, quando nem havia chegado à metade do mandato, por decisão de um ministro do Superior Tribunal de Justiça referendada posteriormente pela corte. Em junho do mesmo ano, o processo de impedimento havia sido aberto com o voto de 69 dos 70 deputados da Assembleia Legislativa.

Os números e vereditos acachapantes refletem não alguma grande comoção popular, mas a morte política súbita e prematura do agora ex-governador —que chegara ao Palácio da Guanabara de modo igualmente raro e repentino.

É fato que há acusações graves contra Witzel, relacionadas a supostos desvios na Secretaria de Saúde em meio ao combate à pandemia de Covid-19. Entretanto trata-se de investigações ainda em curso, e não se conhecem evidências escandalosas de sua participação interessada no esquema.

Pesou muito mais no processo o colapso fulminante de sua sustentação parlamentar. Vencedor improvável da primeira e única eleição que disputou, o ex-magistrado devia seus votos à onda conservadora e antipolítica que marcou as eleições gerais de 2018.

Apesar das afinidades ideológicas, em particular no apoio entusiasmado à truculência policial, Witzel logo rompeu com Jair Bolsonaro —em pleno berço do bolsonarismo— e passou a alimentar suas próprias ambições presidenciais. Conseguiu um desfecho patético.

O impeachment está longe de garantir alguma ordem à caótica política do Rio de Janeiro, que conta outros cinco ex-governadores vivos que foram afastados ou presos por suspeitas e acusações de corrupção e desmandos diversos.

O governo fluminense está nas mãos de Cláudio Castro, do mesmo partido de Witzel e também alvo das investigações relativas às compras na pandemia. O estado, ademais, encontra-se em situação falimentar, embora tenha dado passo importante ao arrecadar R$ 22,7 bilhões com a privatização de serviços de saneamento.

De todo modo, a ausência de interessados em um dos blocos do leilão, que abrangia área com forte presença de milícias, dá ideia do descalabro vivido hoje no Rio.

editoriais@grupofolha.com.br

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