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O que a Folha pensa

O ex-superministro

Sem avançar agenda, Guedes perde quadros e prestígio; atuação é hoje defensiva

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O ministro da Economia, Paulo Guedes - Jardiel Carvalho/Folhapress

Outrora tido como superministro, tendo chegado ao comando da economia do país com maior potencial de poder do que qualquer um de seus antecessores, Paulo Guedes se enfraquece desde o início do governo Jair Bolsonaro.

O processo se mostra mais visível nos últimos meses, com seguidos problemas de coordenação com o Congresso. O último episódio foi a desastrosa negociação em torno do Orçamento de 2021. Com meses de atraso, produziu-se uma peça de ficção em que os erros técnicos e de procedimento tem as digitais do Ministério da Economia.

O problema foi atenuado após semanas de negociações que resultaram num veto parcial da peça pelo presidente, mas o episódio deixou sequelas políticas e consolidou entre os parlamentares uma aversão maior ao ministro.

Guedes se mostra ineficaz para fazer avançar as reformas essenciais para a modernização do país. Com promessas desconectadas da realidade, perde prestígio e a capacidade de interlocução política —e declarações desastradas, como a crítica a um filho de porteiro que teria ingressado em faculdade com nota zero, em nada ajudam.

Por vezes, a agenda é prejudicada por ideias fixas que causam controvérsia desnecessária. Tome-se o caso da reforma tributária, talvez a que carregue maior potencial para impulsionar a produtividade.

Desperdiçou-se uma janela de oportunidade nos primeiros dois anos da atual gestão, quando havia certo alinhamento no Congresso e apoio do então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para um amplo redesenho da taxação de bens e serviços.

Guedes insistiu na confusa pauta de uma nova CPMF, travando o avanço. Por fim, formulou uma proposta modesta de unificação de tributos federais, que não avançou. Foram esquecidas, ademais, as ideias de mudança do Imposto de Renda para mais justiça social.

Outra frustração se deu com a incapacidade de apresentar um programa coerente de auxílio permanente aos mais vulneráveis. Apesar das numerosas boas ideias disponíveis, nada foi aproveitado.

Também impressiona a perda recorrente de quadros da equipe econômica. A dificuldade para manter uma equipe coesa é outra demonstração de enfraquecimento.

Parece restar a Guedes prestígio com Bolsonaro, o que ao menos ainda lhe confere a capacidade para vetar pautas perigosas e assim evitar danos maiores à credibilidade da política econômica.

Sua posição defensiva não deixa de ter serventia, mas é naturalmente frágil e insuficiente para afastar as dúvidas de que poderá sucumbir a uma agenda populista. Bolsonaro e seus parceiros do centrão, afinal, só pensam em 2022.

editoriais@grupofolha.com.br

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