'Me culpo por ter parado de trabalhar', diz leitora com burnout

Leia depoimentos de millennials que sofreram com a síndrome de sua geração

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São Paulo

Certo dia, o advogado Guilherme Marchioni, 35, acordou tremendo e com dores no corpo. Na época, estava trabalhando todos os dias até as 3 horas da madrugada e, naquela manhã, tinha se levantado para dar continuidade às tarefas pendentes.

Com o aumento do mal estar, cedeu à insistência de sua esposa e aceitou ir ao hospital, mas seguiu trabalhando no celular enquanto aguardava atendimento. Até que começou a delirar. “Via meu chefe andando pelo hospital e balbuciava sozinho sobre projetos do trabalho”, conta.

Marchioni foi então diagnosticado com burnout, síndrome que, segundo a jornalista e pesquisadora Anne Helen Petersen, é a característica definidora da geração millennial.

Para colocar à prova a tese de Petersen, a Folha pediu para leitores da chamada geração Y enviarem relatos de esgotamentos relacionados ao trabalho. Marchioni é um deles.

Obra de Adriel Visoto
Obra de Adriel Visoto materializa a exaustão da geração millennial - - Reprodução

Nascido em 1985, o médico e neurocientista José Fernandes Vilas acredita que a geração da qual também faz parte "já vem com o burnout de fábrica". "Como somos a geração do imediatismo e da produtividade, a primeira que foi exposta à sobrecarga de informações proporcionada pela internet e pelas redes sociais e que, ao mesmo tempo, não sabe exatamente como cumprir as expectativas para alcançar o sucesso profissional, estamos mais propensos a entrar nesse processo de exaustão”, diz.

Carol Milters, 34, ouviu falar em burnout pela primeira vez em 2014, quando um colega com quem dividia uma intensa jornada de trabalho lhe enviou um artigo que listava os sintomas da síndrome. Os dois se identificaram com todos. "Comemoramos, como se fosse um mérito adoecer por vestir a camiseta da empresa", conta.

Na época, trabalhava como gerente de atendimento em uma empresa de relacionamento com cliente. Mas só foi entender o que tinha acontecido três anos mais tarde, quando se mudou para a Holanda e teve outro episódio, desta vez diagnosticado. "Eu passei por todos os estágios da síndrome: da sobrecarga e aceleração por medo de não ser vista como boa o suficiente, cumprindo o papel de três, quatro pessoas, aos sintomas físicos —tive repetidas infecções por mais de um ano e quase precisei passar por cirurgia— e emocionais —fui me tornando fria, distante, apática, com o pavio curto", relata.

Tinha dificuldades para dormir e cheguei ao ponto de sentar na frente do computador e chorar por não conseguir responder um email. No segundo episódio, eu levei quase três anos pra conseguir trabalhar mais do que 20 horas em uma semana sem ficar completamente exausta.

Carol Milters, 34

escritora

Acostumadas a encarar jornadas triplas, as mulheres são as mais acometidas pela síndrome de burnout. Durante a pandemia, a desigualdade de gênero no cuidado da casa e da família ficou ainda mais evidente.

Em home office com o marido e a filha de 5 anos sem escola, uma administradora de 41 anos que prefere não se identificar passou a se sentir cada vez menos produtiva e mais exigida profissionalmente. "Tive feedbacks de trabalho horríveis e, quando relatei meu desgaste, cansaço e depressão, o que ouvi de volta foram comparações com funcionários que foram desligados, frases como 'só quero te dar um toque e não te empurrar para o precipício'", conta. Quando a medicação chegou à dosagem limite, sua psiquiatra recomendou o afastamento do trabalho. No retorno da licença, ela foi demitida.

"Isso existe muito nas corporações, gestores que são capazes de manipular muito o psicológico do empregado", conta o neurocientista Fernandes, citado acima no texto. Autor do livro "Quando o Sucesso Vira Burnout: Síndrome do Esgotamento Profissional", ele explica que o adoecimento por burnout é causado por duas características principais: a exigência da empresa sobre o profissional e a auto-exigência.

Sendo assim, engana-se quem pensa que a ausência da figura do chefe mantém o burnout mais longe. A copywriter Luciana Ribeiro Rodrigues, 30, foi atraída para o universo do freelancing pela flexibilidade —sem se dar conta de que seria isso que a levaria ao esgotamento. "Ao trabalhar sob demanda, toda pausa soa como um risco de, talvez, encontrar uma diminuição de trabalho e receber menos posteriormente", compartilha.

Após sete anos sem férias, Rodrigues trabalhou por quatro meses seguidos sem tirar um dia de folga sequer. Como já fazia terapia havia três anos, ficou mais fácil perceber quando a memória começou a falhar, o corpo deixou de descansar mesmo com 20 horas de sono e a companhia dos amigos foi substituída pela das crises de ansiedade. "Até que ocorreram dois episódios de exaustão: um quase desmaio no banho e ter dormido por alguns minutos ao ir no banheiro, sem perceber".

Na sessão seguinte aos dois episódios, a pergunta: 'Você sabe que todos os seus sintomas batem com o de burnout, não é?'. Eu sabia, ironicamente, havia escrito um artigo sobre o tema na madrugada de sábado para domingo antes do atendimento. Eu sabia, mas pensava que poderia ser um exagero meu. Tantos colegas conseguiam passar por rotinas semelhantes e não tinham problemas, por que eu teria?

Luciana Rodrigues, 30

copywriter freelancer

Segundo o neurocientista Fernandes, o tempo de evolução do burnout depende de cada pessoa. "Aquela que tem personalidade mais forte e é blindada pelo cotidiano empresarial vai demorar mais para evoluir para o burnout. Diferentemente daquela que é nova na empresa ou se dedica e se envolve mais, ou não tem uma estrutura familiar".

No caso do geólogo Leandro Thomaz, 38, o burnout fortaleceu os laços com a família e alguns amigos. "Ainda me ressinto de como algumas pessoas me trataram naquela fase. E quando vejo alguém passando por uma situação semelhante eu procuro ajudar".

Foi pensando nisso que Carol Milters criou o "Burnoutados Anônimos", um grupo de pessoas de diferentes origens, profissões e idades que se encontram uma vez por Zoom para falar do que têm em comum: o burnout. "O grupo não se presta a resolver o problema de ninguém ou a substituir a intervenção clínica, mas é algo que eu senti falta quando estava esgotada: pessoas que entendessem o que eu estava passando", explica Milters, que, após seus episódios de esgotamento, mudou de país e começou do zero como escritora. "Estudo burnout e saúde mental na relação com o trabalho há quase quatro anos e hoje me sinto muito mais realizada fazendo o que faço".

Mas é importante ressaltar que a trajetória de Milters é um ponto fora da curva. Enquanto alguns leitores experienciaram o burnout como uma espécie de "wake up call" que os fez ver a importância de ter uma rotina mais equilibrada...

Entendi que não há trabalho nem missão nessa vida que valha a minha saúde. Não abro mão das minhas rotinas de cuidado comigo mesma e entendi que movimento é essencial e não pode faltar.

Lívia de Andrade, 32

servidora pública

Depois do diagnóstico pude me concentrar nos gatilhos e em como conviver com os pontos da minha vida. Minha geração talvez não saiba lidar tanto com ordens, mas sabemos onde podemos chegar. Fui internalizando que o problema não está na figura da chefe somente, mas na junção de vários fatores que apenas a psicoterapia poderia me ajudar a ver. Fui tomando coragem de impor minhas condições.

Gabriel Rodrigues, 26

psicólogo

Muita terapia, reflexão, remédio. Eu acho que meu burnout também estava muito relacionado ao meu desejo de atender todas as expectativas de todos à minha volta. Tenho trabalhado nisso.

Rachel Mugayar, 32

recrutadora

Passei a valorizar mais os momentos sociais, a curtir o tempo que eu estava com os meus amigos e voltei a jogar videogame. Fui promovida para plena enquanto tomada 4 comprimidos do meu antidepressivo e isso me fez pensar se valeu a pena passar por todo o estresse, me sacrificar tanto por uma promoção de cargo. Hoje respeito meus limites e sou muito grata pela empresa ter investido tanto na saúde mental de seus funcionários, tem me ajudado bastante. E tudo bem eu não ter a mesma produtividade de antes, pois continuo viva.

Simone Sampe, 33

editora assistente

Após esta experiência reavaliei os meus valores, com a terapia pude me conhecer um pouco melhor. Sem dúvida foi um divisor de águas na minha vida. Até hoje tenho medo de que volte a acontecer, mas hoje sei perceber os sinais de estresse que meu corpo dá, e respeito o descanso, que é necessário. Hoje prezo muito mais pela qualidade de vida que um trabalho proporciona do que para o salário ou o prestígio do cargo.

Ana Paula Bernardes, 36

funcionária pública

...outros não conseguiram se reerguer e sofrem as consequências do episódio mesmo anos após o ocorrido.

Aprendi a dizer 'não' e a não me sentir mal com isso. Compreendi que sou mais do que a funcionária, a jornalista ou a assessora de comunicação. Aprendi a relaxar nos momentos de lazer e a não trabalhar fora do horário comercial, a menos que seja uma emergência. Mas, ainda sinto calafrios cada vez que meu celular toca, seja porque recebi uma mensagem ou uma ligação. Ainda me sinto como que sendo 'perseguida' pelo trabalho e as atividades ligadas a ele.

Dayane do Nascimento, 32

jornalista

Eu nunca mais fui feliz e não tenho mais sorriso no olhar.

Vinicius Di Giorge, 28

UX designer

Passei a ter tremor nos olhos, problemas de saúde, crises frequentes de choro, dores de cabeça crônicas e distúrbios no sono. Meu relacionamento com a família e com as demais pessoas piorou, meu engajamento com o trabalho caiu muito, mesmo tendo trocado de emprego algumas vezes desde então, e até hoje sinto que não consigo relaxar e desconectar. Me sinto sempre cansado, desmotivado e estressado.

Plinio Balduino, 41

gerente de engenharia

Não estou trabalhando, ainda é difícil fazer coisas básicas de casa (porque, morando sozinha, só depende de mim) e tive impactos na atenção, memória recente e vontade de fazer as coisas. Não consigo mais ler livros e fico irritada o tempo todo. Me sinto cansada sempre e também culpada por não ser mais "produtiva", mesmo sabendo que meu valor como pessoa não está atrelado a isso. Também não tenho mais condições de manter conversas com conhecidos e às vezes levo semanas para responder mensagens.

Ana Claudia Banin, 34

desempregada

Me culpo por ter parado de trabalhar por 2 anos, voltei agora, mas sempre fico pensando se eu colapsar?

Aline Mota, 32

analista de comércio exterior

Atualmente tenho feito terapia, insônia e não consigo mais trabalhar. Minha vida está praticamente falida.

Vinicius Berlini, 34

motorista de aplicativo

Precisei trancar a faculdade durante um ano e meio, eu saía de casa e chorava durante todo o trajeto de ônibus até o trabalho. Nos fins de semana eu não conseguia descansar, pois não conseguia desligar minha cabeça dos processos de trabalho (além de ter que preparar aulas e corrigir provas fora do horário de trabalho). Deixei de ver minha família e meus amigos, pois não tinha energia ou ânimo para sair de casa. Por diversas vezes eu me trancava no banheiro para chorar, tive que aprender a me maquiar para esconder os olhos inchados, já que "a empresa precisa ter funcionários felizes". Engordei cerca de 20kg, pois o estresse e a depressão desregularam meus hábitos alimentares e raramente eu conseguia comer de maneira apropriada, e perdi muito cabelo.

João Victor Pereira, 29

professor

Se você se identificou com as histórias contadas aqui, procure um especialista em saúde mental —idealmente, um psicólogo ou psiquiatra, mas, caso não haja esses serviços em sua cidade, um neurologista ou um clínico geral pode ajudar.

"A pessoa deve procurar um especialista no início dos sintomas, quando começa a ficar cansado, irritadiço, não consegue dormir direito. Quanto mais precoce for a intervenção, mais rapidamente ela conseguirá se recuperar", defende o neurocientista Fernandes.

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