Para ministro, documento secreto sobre ditadura não afeta prestígio das Forças Armadas

Jungmann ressaltou que o governo brasileiro não tem conhecimento oficial sobre a veracidade das informações

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que defendeu as Forças Armadas
O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que defendeu as Forças Armadas - Ueslei Marcelino - 7.mar.18/Reuters
Gustavo Uribe
Brasília

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, saiu nesta sexta-feira (11) em defesa das Forças Armadas e avaliou que a divulgação de documento secreto que mostra a continuidade de política de execuções sumárias na ditadura militar não irá afetar o prestígio da classe militar.

Em entrevista à imprensa, ele ressaltou que o governo brasileiro não tem conhecimento oficial sobre a veracidade das informações e chamou as Forças Armadas de ativo democrático no país, cujo valor "permanece nos mesmos níveis que se encontra até aqui".

"As Forças Armadas brasileiras são um ativo democrático que o país hoje tem e isso, evidentemente, não é tocado por uma reportagem. Chamo a atenção: não temos acesso a documentos oficiais e isso só poderá ocorrer, ou seja, um pronunciamento oficial, quando tivermos acesso direto a esses documentos", disse.

O ministro defendeu que alguma medida deve ser tomada pelo governo brasileiro, mas ressaltou que não cabe a ele tomar uma decisão, mas ao Ministério da Defesa. Jungmann, que ocupava a pasta desde o início do governo Michel Temer, deixou a estrutura em fevereiro para comandar a Segurança Pública.

"São documentos da CIA e o governo brasileiro não tem conhecimento oficial de nada do que diz respeito a isso. Para se ter um pronunciamento oficial a respeito desse assunto, nós não podemos ficar apenas [nisso]. Não estamos a desconsiderar ou a desfazer de nenhuma noticia ou reportagem, mas é preciso ter acesso oficial de governo a governo", afirmou.

No documento, divulgado pelo colunista da Folha e professor de relações internacionais na FGV (Fundação Getulio Vargas), Matias Spektor, o chefe da CIA afirma que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) aprovou a continuidade de uma política de execuções sumárias de adversários da ditadura militar.

Ele teria ainda orientado o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) que viria a substituí-lo na Presidência da República, João Baptista Figueiredo (1979-1985), a autorizar pessoalmente os assassinatos.

O documento foi tornado público, com exceção de dois parágrafos ainda tarjados, em 2015 pelo governo dos Estados Unidos. Spektor qualificou o papel como o documento mais perturbador que já leu em 20 anos de pesquisa.

"Não se sabia que o Geisel havia chamado para o Palácio do Planalto a responsabilidade sobre a decisão das execuções sumárias. A cúpula do governo não só sabia como chamou para si a responsabilidade. Isso é que tão impressionante, chocante", disse.

Em nota, o Comando do Exército informou que os documentos sigilosos relativos ao período em questão e que "eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época –Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (RSAS)– em suas diferentes edições".

Procurado pela Folha, o presidente Michel Temer não quis comentar.

 
 

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