Descrição de chapéu Eleições 2018

É o momento de o militar demonstrar por que está dando a cara a tapa, diz vice PM de França

Coronel Nikoluk (PR) afirma que foi escolhida para chapa do PSB por ser 'indiscutivelmente de direita'

Gabriela Sá Pessoa José Marques
São Paulo

Uma eventual reeleição de Márcio França (PSB) no próximo domingo (28) pode fazer com que São Paulo tenha a primeira governadora mulher de sua história em 2022.

Candidata a vice, a coronel da PM Eliane Nikoluk (PR), 48, já vem sendo preparada para assumir o Palácio dos Bandeirantes caso o pessebista decida renunciar para concorrer a outro cargo. França, que foi vice de Geraldo Alckmin (PSDB), não poderá disputar novamente o governo.

Coronel Eliane Nikoluk (PR), vice de Márcio França (PSB) em chapa ao governo de São Paulo - Marlene Bergamo/Folhapress

Nikoluk foi escolhida para a chapa por ser mulher e por ser de direita —o que, segundo ele, traria equilíbrio a sua candidatura. Prestes a se aposentar após 30 anos de Polícia Militar, a coronel responde pelo policiamento do Vale do Paraíba, da Serra da Mantiqueira e do Litoral Norte.

Também é mestre e doutora em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança “Coronel PM Nelson Freire Terra”.

 

Como entrou na política?
O Capitão Augusto [deputado federal pelo PR-SP] me convenceu, disse que a gente vai viver momentos difíceis e precisa de representação forte de pessoas que entendam de segurança. Outro fator foram minhas filhas, que queriam sair do país. Isso me chocou. Em vez de ir para casa [após se aposentar, aos 30 anos de PM], topei o desafio, inicialmente como deputada estadual voltada para a segurança.

Na pré-campanha, recebi a ligação do partido perguntando se toparia ser a vice do Márcio França. Conhecia ele de poucos contatos, às vezes como governador ele desembarcava na minha região. Consultei alguns amigos, um deles foi o Major Olímpio [senador eleito pelo PSL, coordenador de campanha de Bolsonaro em São Paulo]. Todos foram unânimes de dizer que era um convite irrecusável e, se eu quisesse, ele era uma pessoa boa e valeria a pena me colocar do lado dele. 

O governador diz que prometeu à sra. que não apoiaria ao PT na eleição. Isso aconteceu?

Quando me chamou, perguntei: governador, há um esquema de corrupção muito grande e não me sentiria confortável se o senhor apoiasse o PT. Eu tenho amigos petistas, não tenho nada contra pessoas. Mas eles [PT] tiveram a chance deles, estiveram envolvidos no maior esquema de corrupção já descortinado. Ele falou: “Coronel, aqui no estado de São Paulo não tem essa hipótese.” Outra coisa que falei: "é bom que o senhor saiba, eu sou Bolsonaro, por questão de identidade e de valores".

Já era antes?

Antes de cogitar a sair deputada. Eu recebi ele [Bolsonaro] e o filho dele várias vezes no quartel. Um dos que me liberaram emenda parlamentar para comprar equipamento de segurança foi o Eduardo Bolsonaro [deputado federal]. É claro que não concordo com tudo. Uma das coisas que não concordo era a questão da liberação do porte de arma. Defendo a posse. Sou perfeitamente favorável que o cidadão de bem tenha arma na sua casa.

Qual a diferença?

O porte é ter arma na cintura, a posse é ter ela em casa —sou plenamente favorável para o cidadão que preencha os requisitos. Agora você imagina na nossa sociedade um monte de gente andando armado para cima e para baixo. Imagina um carnaval, rodeio de Barretos, briga de trânsito? Não dá, eu que sou policial [penso que] é inconcebível.

A sra. planeja ocupar alguma secretaria?

Não foi conversado. Jamais entraria para ser figurante, ele [França] quer que eu assuma a coordenação do Jepoe [programa de alistamento civil], que é a menina dos olhos dele. E falou: “A senhora vai me ajudar na segurança pública, que é sua praia."

Caso seja reeleito, o governador não vai poder disputar a eleição novamente. Se ele quiser disputar algum outro cargo, vai precisar renunciar e a sra. assumiria o governo. Já conversaram sobre isso?

Já, e ele quase me matou do coração. Quando ele me chamou, falou disso, sim: “Coronel, a senhora vai ter que se preparar por que provavelmente vai governar São Paulo nos últimos meses."

Ele falou dos planos dele?

Sinceramente, não sei o que pretende, Senado, Presidência, mas vai tentar algo.

O governador tem apoio velado do PT. O que acha disso?

O governador tem palavra. Tão logo houve notícia do segundo turno, ele se posicionou publicamente dizendo que não ia apoiar o PT. Eu pesquisei, nunca vi um vídeo dele falando mal do Bolsonaro. Agora, do Doria, eu já vi vários. Está na hora de parar com extremismo e luta de brasileiros contra brasileiros.

O governador é de um partido de centro-esquerda. A senhora tem consciência disso?

Sim, inclusive dentro do próprio partido [PSB] ele é visto como mais de direita. Quando me convidou, perguntei: “Por que eu?” Ele disse que é porque eu era uma mulher, uma resolvedora, que sabia enfrentar problemas e por que eu era de direita. 

Eu falei: “Mas porque eu sou de direita?”. Ele disse: “É, coronel, estou buscando um governo de equilíbrio. Como sou de centro-esquerda, trazendo a senhora que é indiscutivelmente de direita”. 

Ele falou: “Vou buscar um governo de composição, quero equilíbrio, diálogo, quero que a gente possa conversar com todos”. O fato de ele ser de partido de centro-esquerda não me assustou em absoluto porque ele me trouxe justamente por eu ser de direita.

A campanha enxerga na sra., por ser militar, um canal para atingir o eleitor bolsonarista. Concorda com esse papel?

Não só militares. Hoje, não sinto nem questão de esquerda e direita, sinto o antipetismo. A identidade com o Bolsonaro e com militares é a questão do novo, da mudança. O militar traz valores que talvez a população esteja buscando: honestidade, verdade, lealdade, meritocracia, ordem. 

O PR, partido da sra., é comandado por Valdemar da Costa Neto, que já foi condenado e preso. Não contradiz esse discurso?

Pesquisei todos os partidos, não achei nenhum que não tivesse problemas [ri]. Para se colocar na política, a lei exige que a gente se filie a um partido. Quando me filiei ao PR, foi por causa do Capitão Augusto e porque me deram liberdade. As pessoas têm que responder pelos crimes que cometem.

A sra. e outros candidatos militares eleitos se reuniram após um evento na Rota. Vão ter uma agenda comum?

A gente conversou sobre o nosso papel neste momento, a sociedade depositou uma esperança na gente. É um momento em que o militar foi eleito democraticamente. É o momento em que a gente tem que demonstrar por que está colocando a cara a tapa. 

Qual a diferença de tratamento do governador Márcio França em relação ao ex-governador Geraldo Alckmin com os policiais?

Mais próximo, muito mais acessível para o diálogo. A gente tem sentido essa simplicidade.

Alguém da corporação já pediu explicações sobre Márcio França para a senhora?

Sim, por conta desses fakes [que o associam ao PT e ao comunismo]. Pela atitude, pela pessoa que é, a gente só tem ouvido elogios.

A senhora acredita que hoje ele teria o voto da maioria dos policiais?

Sim, pela valorização e porque esses anos de PSDB foram muito cruéis para o funcionalismo. O que eu tenho ouvido falar: PSDB nunca mais. 

O que a senhora achou da declaração do Doria que a partir de 1º de janeiro, caso ele seja eleito, a polícia paulista vai atirar para matar?

Totalmente descabida. Me desculpe, estou falando sob escopo técnico. A policia é treinada para proteger a vida. O uso do armamento envolve técnicas e procedimentos muito bem definidos e temos o Método Giraldi de preservação da vida [que prevê uso progressivo da força], desenvolvido por oficial nosso, patenteado e disseminado para toda a América Latina.

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