Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Para evitar expor crises, Bolsonaro ordena lei da mordaça no PSL

Partido do presidente eleito, que vive disputa por liderança, reuniu-se em Brasília

Brasília

Preocupado com a exposição de problemas internos da bancada do PSL envolvendo o seu filho deputado federal, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, impôs aos congressistas uma lei do silêncio.

Em reunião nesta quarta-feira (12), em Brasília, Bolsonaro orientou os deputados e senadores eleitos pelo partido a priorizarem debates presenciais.

Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, é visto deixando o comitê de transição do governo localizado no CCBB, em Brasília
Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, é visto deixando o comitê de transição do governo localizado no CCBB, em Brasília - Mateus Bonomi/Folhapress

No caso de conversas por WhatsApp, recomendou que sejam evitados diálogos em grupos e especialmente vazamentos.

"O presidente Jair Bolsonaro é contra a criação de grupos de WhatsApp, porque em um grupo existem diversas pessoas e, quando esses prints vazam, ninguém sabe quem é que vazou”, declarou o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do eleito, ao final do encontro.

“O ideal são conversas pessoais ou conversas de WhatsApp um com o outro. Em caso de vazamento, sabe-se quem é que vazou", emendou, esmiuçando o raciocínio do pai.

Eduardo protagonizou na semana passada uma briga com a deputada eleita Joice Hasselman (PSL-SP). Na conversa, ele chama-a de “sonsa, com fama de louca". Hasselmann acusa-o de mandar "recadinhos infantis".

O episódio foi mal recebido por integrantes da transição. O futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), pediu que  Hasselmann procurasse Eduardo e amenizasse a disputa. Os dois conversaram na véspera da reunião com Bolsonaro com o intuito de demonstrar superação do episódio.

A equipe de transição quer evitar a exposição de rachas internos antes mesmo da posse do novo governo.

Na reunião desta quarta, Bolsonaro solicitou, segundo Eduardo, “um pouquinho de serenidade aos candidatos [à liderança do PSL] para não declarar voto para a presidência da Câmara, ou quaisquer outros cargos, para sentirem um pouco o clima”.

“As negociações na Câmara, as articulações, ainda estão ocorrendo, então, mais para frente, terão visão mais clara de como proceder”, disse o filho do eleito.

De acordo com relatos dos presentes, houve uma orientação para que se evitasse fazer transmissões ao vivo ou gravações da conversa —como é comum aliados fazerem por meio das redes sociais, onde têm atuação intensa. Assessores também foram impedidos de participar da reunião.

O deputado Delegado Waldir (GO), até então vice-líder, foi aclamado líder do PSL até fevereiro, quando a bancada deverá voltar a discutir o posto. Eduardo Bolsonaro, que era líder, ficou na vice para se dedicar a outras atividades, segundo disse, como filho do presidente eleito.

Segundo relatos colhidos pela Folha, Joice, que tenta se viabilizar como líder, pediu que em fevereiro não se decida por aclamação, mas no voto. Ela não apareceu publicamente após o encontro.

A deputada eleita chegou quando outros parlamentares já estavam na sala. Havia uma cadeira reservada a Eduardo Bolsonaro, na qual ela sentou. Eduardo chegou em seguida e rapidamente se providenciou outra cadeira para ele, entre Hasselmann e o pai.

O PSL elegeu a segunda bancada da Câmara, com 52 deputados, atrás apenas do PT. No Senado, a legenda elegeu quatro representantes, entre eles o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), que é filho do presidente eleito.

Flavio foi o único senador eleito pelo partido a não comparecer ao encontro. Ele esteve em Brasília na segunda-feira (10) para presenciar a diplomação do pai no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Ele voltou ao Rio com a família após o evento.

O senador eleito tem evitado dar declarações públicas sobre o caso de um ex-assessor seu, o policial militar Fabrício Queiroz. Um relatório do Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) apontou movimentação atípica de Queiroz de R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Desde que a história veio a público, na quinta-feira passada (6), o próprio Jair Bolsonaro não falou com jornalistas em Brasília. Deu entrevistas apenas no Rio de Janeiro, onde passou o final de semana. Foi uma mudança de comportamento. Em toda a transição, o eleito falou com a imprensa com frequência no intervalo entre reuniões.

Em paralelo à reunião de Bolsonaro com o PSL, a futura primeira-dama, Michelle, e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, reuniram-se com representantes de movimentos que cuidam de surdos e cegos. Michelle saiu em um momento para pedir para o marido falar mais baixo porque estava atrapalhando a sua reunião.

Nesta quarta-feira, Bolsonaro também se reuniu com as bancadas do DEM e do PP.

Com três ministros do partido anunciados, o DEM espera apenas cumprir formalidades como reunir lideranças regionais para anunciar que será parte da base do governo.

“As coisas estão caminhando para isso”, disse o presidente do DEM, ACM Neto, na saída do encontro. Não participou da reunião o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que está em campanha para ser reconduzido no cargo. O DEM quer que Bolsonaro não se envolva na disputa e deve esperar o encerramento da eleição na Casa para anunciar a adesão formal.

O deputado Arthur Lira, líder do partido na Câmara, disse que o PP não definiu se fará parte da base do governo. “O partido vai votar as matérias que julgar importantes para o país sem nenhum tipo de entendimento de fazer parte da base do governo ou não”, afirmou.

Talita Fernandes, Thais Bilenky e Letícia Casado
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