Com ajuda de ONG, governos aderem a seleção profissional para preencher cargos

Método que difere do concurso tradicional e das indicações políticas ganha espaço no Executivo municipal e estadual

Rodrigo Borges Delfim
São Paulo

Processos seletivos para profissionais preencher cargos executivos em administrações públicas? Essa prática, embora ainda pouco comum, vem ganhando adeptos no Brasil.

Esse tipo de seleção difere do concurso público convencional —que costuma ser a porta de entrada para profissionais ingressarem na área— e das tradicionais indicações políticas que costumam ocorrer para preenchimento dos cargos de alto escalão em troca de apoio no governo.

“A maioria não estuda para ser gestor público. Mas tem muita gente que acredita que a gestão pública precisa ser mais eficiente”, comenta a professora Maria Thereza Paschoal de Moraes, secretária municipal de Educação de Londrina (PR).

A professora Maria Thereza Paschoal de Moraes, secretária municipal de Educação de Londrina (PR). Ela chegou ao cargo apos processo seletivo promovido pela Vetor Brasil, ONG que seleciona e capacita profissionais para atuar na gestão pública
A professora Maria Thereza Paschoal de Moraes, secretária municipal de Educação de Londrina (PR). Ela chegou ao cargo apos processo seletivo promovido pela Vetor Brasil, ONG que seleciona e capacita profissionais para atuar na gestão pública - Divulgação

Ela própria foi alçada ao cargo após uma seleção promovida no final de 2016 pela Vetor Brasil, uma ONG especializada em capacitar profissionais para atuar na administração pública, em parceria com a gestão que assumiu a prefeitura no ano seguinte. Foi a primeira vez no Brasil que um prefeito realizou um processo seletivo profissional para preencher um cargo de primeiro escalão em sua gestão.

O processo, feito online, incluiu análise curricular e de antecedentes, entrevista por competências —para verificar se o perfil tem alinhamento com o cargo desejado— e avaliação por profissionais de gestão pública e também da área da posição. No caso de Londrina, houve ainda uma sabatina dos candidatos finalistas com representantes da comunidade educacional local.

Embora já tenha exercido o cargo de secretária de Educação em Ourinhos (SP) entre 2013 e 2016, Maria Thereza topou fazer processo seletivo para Londrina, que teve outros 128 concorrentes de todo o Brasil. “Quando assumi [em Ourinhos], percebi a complexidade de fazer gestão, de ser mais eficiente. Entendi que eu precisava estudar sobre isso”.

A Vetor foi fundada em 2014 e já fez acordos de cooperação com cerca de 40 governos, nas esferas estadual e municipal.

A entidade trabalha com frentes principais: seleção e capacitação de trainees, para garimpar talentos em início de carreira; e atrair e selecionar profissionais com maior experiência, para atuar em posições de alta administração.

A instituição já selecionou e alocou cerca de 300 trainees e 7 líderes de gestão pública. Como o processo é online —salvo exceções, dependendo da demanda de cada governo—, pessoas de todo o Brasil têm condições de participar.

“Mais gente tem visto o governo como um local para se trabalhar com impacto social em escala. Queremos que as pessoas entendam que trabalhar no setor público é super desafiador, que é algo para os melhores, que tem um propósito imenso de trabalhar pela população”, resume Joice Toyota, fundadora e diretora da Vetor Brasil.

Joice Toyota, coordenadora e fundadora da Vetor Brasil, ONG que seleciona e capacita profissionais para trabalhar no setor público
Joice Toyota, coordenadora e fundadora da Vetor Brasil, ONG que seleciona e capacita profissionais para trabalhar no setor público - Divulgação

Os recursos para sua manutenção vêm principalmente de fundações parceiras, como Itaú Social, Fundação Lemann e Fundação Arymax, mas também recebe doações individuais.

A Vetor não recebe nenhuma remuneração dos governos parceiros.

“Caminho sem volta”

Em Santos, no litoral paulista, a Vetor ajudou a selecionar quatro novos coordenadores da rede de Atenção Básica —responsáveis pela supervisão das 32 policlínicas da prefeitura.

O processo durou 12 semanas e foi concluído em 18 de dezembro. Dos 900 inscritos, 371 foram convocados à fase seguinte e 12 candidatos chegaram à etapa final, que selecionou os quatro novos coordenadores —uma servidora da própria Secretaria de Saúde local, uma profissional de São José dos Campos (SP), outro do Piauí e uma da Paraíba.

“A busca do mérito através de competências é um caminho sem volta”, afirma o secretário municipal de Saúde, Fábio Ferraz. “Percebemos que a sociedade percebe como algo correto, como um caminho a ser seguido”, completou.

Para Joice, esse caminho ainda pode ser mais amplo. “Temos um certo desconhecimento, porque o trabalho que fazemos infelizmente ainda é uma prática muito nova na gestão pública brasileira. Mas achamos que nosso trabalho é justamente conseguir levar essa mensagem adiante, para desenvolver e criar essa demanda dentro dos governos.”

Tanto Maria Thereza como Ferraz e a fundadora da Vetor relataram à Folha não terem notado resistência significativa ao método profissionalizado para preenchimento de cargos no Executivo, tanto entre quem já está na administração pública quanto junto aos políticos locais.

“Não tivemos resistência do meio político, [eles] perceberam como boa nova essa notícia”, diz Ferraz. Segundo ele, outros cargos da administração pública santista também deverão ser alvo de processo seletivo em breve.

Para Marizaura Camões, coordenadora-geral de pesquisa da Enap (Escola Nacional de Administração Pública), esse modelo ainda carece de institucionalização no Brasil, mas vê a prática como positiva e necessária. Ela ressalta a necessidade de se investir não apenas no incentivo ao ingresso no setor público, mas também em um plano de carreira que premie os melhores quadros da administração.

“O Brasil avançou em transparência [em alusão a ações como a Lei de Acesso à Informação e os portais de transparência de instâncias do Executivo e Legislativo], por que não avançar em questões de gestão pública? Essa agenda da gestão de pessoas não entra muito na agenda governamental, porque não é de curto prazo, mas é crucial."

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