Descrição de chapéu Lava Jato

Em delação, Palocci aponta repasse a jornalista para produção de filme sobre Lula

Roberto D'Ávila diz que pagamento à produtora foi feito legalmente, por meio de contrato

Estelita Hass Carazzai
Curitiba

Em depoimento de seu acordo de delação, o ex-ministro petista Antonio Palocci afirmou que a empresa do jornalista Roberto D’Ávila, à época dono de uma produtora de audiovisual, recebeu um repasse de R$ 1 milhão para a produção do filme “Lula, o filho do Brasil” e que a quantia teria sido paga pela Schahin Engenharia em troca de um favor que teria prestado à empreiteira na Petrobras.

O teor da delação foi revelado pela revista Crusoé nesta terça-feira (22) e confirmado pela Folha.

Não fica claro, pelo depoimento, se D’Ávila sabia da negociação entre Palocci e a Schahin. O jornalista nega ter conversado com o ex-ministro e diz que não sabia das tratativas anteriores à doação.

À Polícia Federal Palocci afirmou ter atuado em benefício da Schahin, a pedido do empresário Milton Schahin, para a renovação de um contrato na Petrobras, em 2008, quando era deputado federal.

Ele diz ter procurado a então ministra Dilma Rousseff e outros assessores, apresentando o pleito da empreiteira, que estava com dificuldades financeiras. O contrato acabou renovado em 2009.

Em troca do favor, segundo o relato de Palocci, o empresário se ofereceu para fazer uma “doação substancial” ao ex-ministro, que recusou, dizendo que só poderia ser remunerado se tivesse feito um contrato de consultoria com a Schahin.

À mesma época, D’Ávila, hoje apresentador de um programa de entrevistas na GloboNews, também teria contatado Palocci. “Lula, o filho do Brasil” estava em finalização, e o jornalista teria pedido o auxílio do petista para arrecadar doações de empresas para a produção.

A cinebiografia do ex-presidente estreou em 2010 e custou R$ 12 milhões –foi, na época, a produção brasileira mais cara da história. O filme foi bancado integralmente por patrocinadores, sem verbas públicas nem renúncia fiscal. Entre os doadores creditados na obra, estão as empresas Camargo Corrêa, Odebrecht e OAS, o frigorífico JBS e a EBX, de Eike Batista.

A produção foi vista por cerca de 850 mil espectadores nos cinemas. Depois, foi indicada pelo Ministério da Cultura para concorrer ao Oscar, mas não ficou entre os finalistas.

O ex-ministro diz ter se lembrado do pedido de D’Ávila quando da conversa com Schahin, e sugeriu, então, que o empresário fizesse uma doação de R$ 1 milhão ao filme.

De acordo com Palocci, o jornalista teria afirmado que havia quatro formas de fazer doações: abertamente, com créditos; abertamente, mas mantendo a marca sigilosa; por meio de pagamentos para a empresa de D’Ávila, para bancar despesas do filme; ou fazendo um contrato com sua empresa, para dar suporte às transferências.

O ex-ministro diz ter orientado o produtor a procurar o empresário, e vice-versa. Depois, os dois confirmaram que a doação foi bem-sucedida, segundo ele.

Palocci ainda afirma que contatou outras três empresas para pedir apoio ao filme: a OAS, a Odebrecht e a Caoa. Mas, nesses casos, não havia contrapartida. As três estão na lista de doadores exibida no filme.

Outro lado

À Folha D’Ávila afirmou que nunca conversou com Palocci a respeito de doações para o filme e disse que o pagamento da Schahin à produtora foi feito legalmente, por meio de contrato. “Foi com nota fiscal, por dentro, tudo direitinho”, disse. 

Segundo ele, o empreiteiro foi quem ligou para oferecer a contribuição e não houve menção a Palocci.

O jornalista afirma que a Schahin pediu para não aparecer nos créditos do filme, o que seria corriqueiro. O contrato firmado com sua produtora também previa a produção de dois vídeos institucionais para a empreiteira, mas eles não foram feitos –segundo D’Ávila, porque não foi mais procurado pelos empresários.

“Naquela época, nem se tinha ideia dessa pilhagem que existia na Petrobras. Foi um trabalho comercial da minha empresa”, afirmou.

Ele já prestou depoimento à Polícia Federal e abriu o sigilo fiscal da produtora Intervídeo. O caso ainda está sob investigação, e ninguém foi indiciado até agora.

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