Alckmin ressurge como professor Geraldo em 'aulas-discurso' de faculdade de SP

Tucano tem feito palestras pelo estado para alunos de medicina e odontologia

Joelmir Tavares
São Paulo

A função pode até ser nova, mas é o Geraldo Alckmin de sempre quem dá as caras nas salas de aula de uma faculdade de São Paulo desde o início deste ano.

Derrotado na eleição presidencial de 2018 (terminou em quarto lugar, com 4,76% dos votos válidos), o ex-governador de São Paulo e presidente nacional do PSDB virou, aos 66 anos, professor da Uninove, universidade privada que tem 170 mil alunos no estado.

O ex-governador Geraldo Alckmin dá aula magna no curso de medicina da Uninove em Osasco - Zanone Fraissat - 22.fev.19/Folhapress

Em duas aulas dele acompanhadas pela Folha, foi tudo bem ex-pli-ca-di-nho, à moda dos discursos pausados que o tucano, médico de formação, fazia durante as quatro vezes em que foi governador.

Alckmin iniciou o ano indo aos campi da Uninove que oferecem o curso de medicina para proferir aulas magnas que se parecem com palestras: ele entra, fala, os calouros escutam e no fim fazem fila para tirar selfies. Não há momento para tirarem dúvidas.

Na unidade de Osasco, numa sexta-feira de fevereiro, 150 aspirantes a médico lotaram um auditório para ouvir o roteiro que o ex-governador tem repetido no giro pelo estado —antes ele havia passado pelos campi de Bauru, Mauá e São Bernardo do Campo.

Começou indicando o livro "O Físico - A Epopeia de um Médico Medieval", ficção do escritor americano Noah Gordon que combina drama e aventura em uma narrativa sobre a medicina no século 11. "É fascinante", valorizou.

A aula é uma introdução a conceitos primários da profissão e da área na qual Alckmin é especialista, a anestesiologia. Ele passa por temas como a evolução da ciência, a importância de ouvir o paciente e discussões mais modernas, como consultas e tratamentos feitos a distância (a chamada telemedicina).

Durante as explicações, tem a mania de fazer pausas em tom de interrogação, como quem espera uma resposta.

"Dizia-se que o Egito era um lugar muito saudável, porque tinha clima seco e avanços na área da...? Saúde", explanou, diante de jovens atentos e imóveis. "O médico da medicina indiana tinha que dominar horticultura. Tinha que saber plantar para poder ter acesso às...? Ervas", prosseguiu.

O conteúdo avançou por lições como a de que a pasteurização mata micróbios, que o sistema nervoso é responsável pela sensação de dor e que a hemodiálise filtra o sangue.

"A nossa atividade é essencialmente humana. Acorda e dorme cuidando de reduzir o sofrimento e curar as pessoas", filosofou no fim da aula.

A Uninove fala que o papel do tucano, "com seu notório saber e especialização", é o de inspirar os estudantes.

"Ele compartilha toda a experiência de vida e de gestão pública que possui", afirma Cristiano Gomes, um dos diretores do curso de medicina. Ele também é suplente de vereador do PSDB em São Caetano do Sul, mas afirma que, no partido, nunca teve relação com o agora colega de trabalho.

O plano é que Alckmin retorne para outras participações do tipo ao longo do semestre, à medida que for requisitado. Ele não será titular de uma disciplina específica.

A universidade diz que o tucano está contratado como professor desde novembro e não revela o valor de seu salário. A única informação sobre a remuneração é que ela segue os padrões de mercado.

Alckmin também vai trabalhar em um programa de mestrado da instituição cuja temática é cidades inteligentes e sustentáveis. Será curador de uma série de seminários da grade curricular sobre planejamento urbano e inovações.

Não é sua primeira vez na função, já que ele foi professor de cursinho quando era universitário. "Eu dava aula de química orgânica, a quí-mi-ca do car-bo-no", relembrou.

A função de "inspirador" leva o ex-governador a ser tratado com deferência pelos corredores, embora ele dispense mordomias nas idas ao novo local de trabalho —geralmente está na companhia de um assessor e de um motorista.

Mantém o hábito de procurar um cafezinho ao fim de cada aula, à maneira do que fazia após os compromissos no governo e nos atos de campanha.

Outro costume que o acompanha na fase acadêmica é o de contar casos que remetem às raízes caipiras de sua Pindamonhangaba natal. Alckmin desfia as anedotas tanto para alunos quanto para colegas nas rodinhas do café —e chega a se divertir com as piadas mais do que os ouvintes.

Uma que ele gosta de reproduzir com tom teatral e gestos fartos: a de um homem que sempre ia ao bar tomar três pingas, justificando ser a primeira para ele próprio, a segunda para o irmão mais velho e a terceira para o caçula.

Um dia o dito-cujo chega e pede só dois copos, ao que o dono do botequim o interpela. O bebum então responde: "Sabe o que é? É que eu parei de beber!". Nessa hora o ex-governador abandona a formalidade e dá gargalhadas.

A segunda aula vista pela reportagem foi no prédio da Uninove na Liberdade (região central da capital), na semana seguinte. O tucano falou para uma plateia mista, de quase 500 pessoas, com calouros de medicina e de odontologia.

O conteúdo pouco se alterou em relação à palestra anterior, a não ser por breves referências à carreira dos dentistas. Encaixou uma menção a câncer bucal e afirmou que um profissional da odontologia foi quem introduziu a anestesia no dia a dia da saúde.

"Quando a gente escolhe uma profissão, acaba também, entre aspas, se casando com ela", falou no início, do mesmo jeito que fez em Osasco. A duração das aulas também se assemelhou: 54 minutos em uma e 58 na outra.

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