Battisti admite pela 1ª vez atuação em assassinatos; Bolsonaro ataca esquerda

Terrorista italiano obteve asilo no Brasil nos anos Lula, mas foi extraditado neste ano

Lucas Neves Carolina Linhares
Paris e São Paulo

O terrorista italiano Cesare Battisti, 64, admitiu pela primeira vez ter participado do assassinato de quatro pessoas nos anos 1970, como mandante ou executor, e de ações que deixaram três feridos ou envolveram roubo e furto com vistas a financiar os Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo que comandava à época.

A confissão foi feita ao procurador-geral de Milão, Alberto Nobili, em interrogatório conduzido no último fim de semana no presídio de Oristano (Sardenha) em que o ex-guerrilheiro está detido desde janeiro, quando foi capturado na Bolívia.

Battisti viveu no Brasil de 2004 a 2018, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que ele deveria ser preso e extraditado para a Itália, onde havia sido condenado já no fim da década de 1970 –e novamente nos anos 1980 pelos homicídios.

Antes, ele obtivera do governo Lula o status de refugiado. Em 2009, o STF determinou que ele fosse entregue a autoridades italianas, mas concedeu ao então presidente a palavra final. No ano seguinte, no apagar das luzes de sua gestão, o petista optou por manter Battisti em solo brasileiro.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), que durante a campanha eleitoral prometera extraditar o italiano, escreveu nesta segunda (25) em uma rede social que Battisti era um herói da esquerda que “vivia [em] colônia de férias no Brasil proporcionada pelo governo do PT e suas linhas auxiliares (PSOL, PC do B, MST)”.

Segundo Bolsonaro, a decisão da Justiça brasileira de prender e mandar embora o terrorista, que o levou a fugir para a Bolívia, manda “um recado ao mundo: não seremos mais o paraíso dos bandidos!”.

Já o ministro do Interior e vice-premiê da Itália, Matteo Salvini, que estava na pista do aeroporto de Roma quando o avião que trazia Battisti aterrissou, disse esperar “que peçam desculpa aqueles pseudointelectuais de esquerda que acobertaram e defenderam esse personagem sórdido”.

Para Salvini, “é melhor se desculpar tarde do que nunca”.

Segundo o procurador Nobili, o terrorista reconheceu ter atuado como mandante de dois assassinatos e como perpetrador de outros dois. As vítimas foram o agente carcerário Antonio Santoro (em 1978), o joalheiro Pierluigi Torregiani, o açougueiro Lino Sabbadin e o policial Andrea Campagna —todos em 1979.

De acordo com Nobili, o ex-líder do PAC afirmou “ter entendido o mal que fez às vítimas e pediu desculpas às respectivas famílias”.

Nas palavras do procurador, Battisti admitiu sua responsabilidade nos crimes, mas salientou que não apontaria nomes de comparsas no que, acreditava ele à época, constituía uma “guerra justa”.

O italiano foi preso pela primeira vez em fevereiro de 1979, mas escapou em 1981, instalando-se primeiro na França e, mais tarde, no México. A essa altura, já havia sido condenado a 12 anos e meio de reclusão por participação em grupo armado.

Em 1990, voltou à França, onde a chamada Doutrina Mitterrand protegia centenas de guerrilheiros italianos da extradição (algumas fontes falam em até 1.000), sob a condição de que depusessem suas armas.

No país de adoção, Battisti adotou rotina pacata como zelador de um edifício em um bairro central de Paris e autor de romances policiais. Enquanto isso, na Itália, uma segunda sentença o condenava à prisão perpétua, com base na colaboração premiada de um ex-parceiro dele no comando do PAC.

Com a ascensão do conservador Jacques Chirac à Presidência francesa, em 1995, a política de escudo contra extradições foi revista. Em 2004, depois de idas e vindas diplomáticas, a França acabou concordando em entregar o italiano. Foi quando Battisti partiu para o Brasil.

Com informações da AFP

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