Descrição de chapéu Lava Jato

Lava Jato pede suspeição de Gilmar Mendes após ligações ao tucano Aloysio Nunes

Contatos foram feitos às vésperas de habeas corpus em favor de Paulo Preto, apontado como operador de propinas para tucanos

Estelita Hass Carazzai
Curitiba

A força-tarefa da Operação Lava Jato no Ministério Público Federal do Paraná pediu nesta quarta-feira (6) a suspeição do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes no julgamento de reclamação movida por Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, apontado como operador de propinas em favor de tucanos.

O pedido se baseia em ligações trocadas entre o juiz e o ex-ministro e senador tucano Aloysio Nunes, cujo celular foi apreendido na última fase da Lava Jato.

O ministro Gilmar Mendes, do STF
O ministro Gilmar Mendes, do STF - Pedro Ladeira - 28.nov.2018/Folhapress

O tucano fez diversos contatos telefônicos com o gabinete de Gilmar em fevereiro deste ano, às vésperas da concessão de um habeas corpus em favor de Paulo Preto, ex-diretor da Dersa (estatal paulista de rodovias).

A decisão de Gilmar anulou a fase final de um processo contra Souza, que investiga desvios de dinheiro público nas rodovias de São Paulo, o que levaria o caso à prescrição.

Cerca de duas semanas depois, porém, a liminar foi reconsiderada pelo próprio ministro, já que as diligências na Justiça Federal de São Paulo já haviam sido realizadas ou estavam prejudicadas.

Segundo os registros do celular, o ex-senador tucano fez contato telefônico com o gabinete de Gilmar no dia 11, dois dias antes da concessão da liminar em favor de Paulo Preto.

Nas mensagens, o advogado José Roberto Figueiredo Santoro, com quem Aloysio comenta o assunto, chama o ministro do Supremo de “nosso amigo”. 

O tucano, porém, diz que Gilmar foi “vago, cauteloso, como não poderia ser diferente”. “Compreensível, dadas as circunstâncias”, escreve. O ex-ministro da Justiça Raul Jungmann também é contatado pelo ex-senador nas mensagens, em busca do número de telefone celular de Gilmar.

Dois dias depois, Santoro celebra em mensagens a concessão do habeas corpus, a que Aloysio comenta: “Nosso causídico é foda!”.

Para os procuradores, as mensagens demonstram que Aloysio Nunes tem “laços de proximidade de natureza pessoal, diretos e/ou indiretos” com Gilmar, e que ele buscou interferir a favor de Paulo Preto “em contato direto e pessoal” com o ministro do STF.

O pedido de suspeição foi encaminhado via ofício a Raquel Dodge, procuradora-geral da República. Cabe a ela peticionar sobre o caso no STF.

O ministro Gilmar Mendes é o relator de uma reclamação movida por Paulo Preto, contra sua prisão decretada no âmbito da Lava Jato.

Outro lado

Em nota, o ministro Gilmar Mendes informou que a liminar concedida em favor de Souza “restringia-se à realização de diligências solicitadas pela defesa, com fins de efetivar o devido processo legal”, e destacou que a medida foi revogada por ele próprio, no último dia 1, acatando manifestação da PGR.

O ex-ministro Raul Jungmann afirmou à Folha nesta quarta-feira (6): "Meu papel nesse episódio se resume ao seguinte: o ex-ministro e ex-senador, meu colega de Congresso, Aloysio Nunes me pediu um número de celular no qual o ministro Gilmar Mendes atendesse, pois ele não estava conseguindo [falar]. Eu lhe informei o que dispunha. Em seguida indaguei se tinha conseguido falar. Ao que ele assentiu. 'E?!', perguntei, e ele respondeu. Fiz uma frase irônica sobre o trato do ministro, e é isso".

Procurado pela Folha, Aloysio Nunes afirmou que não vai comentar o caso até se inteirar dos fatos.

COLABOROU Sucursal de Brasília

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