Não somos empregados do governo, e Bolsonaro tem 1 a menos no time, diz líder do PP

Arthur Lira (AL) afirma que deputados não são empregados do governo para aprovar o que ele manda

Camila Mattoso
Brasília

Líder do PP na Câmara, Arthur Lira (AL) afirmou que o governo está “com um jogador a menos no time” ao se referir sobre o líder do governo na Casa, o major Vitor Hugo (PSL-GO), a quem chamou de inexperiente e sem habilidade. 

Em entrevista à Folha, o parlamentar, que comanda a terceira maior bancada da Câmara, com 38 deputados, disse que o representante de Jair Bolsonaro (PSL) está isolado.

“Não tem um líder que converse com ele [Vitor Hugo]. Não vi ele nem no plenário mais. Quando tentou voo mais alto, fez patacoada. Dizem que pediu desculpa no privado. Mas faz no público, tem que se desculpar no público”, lembrando o episódio em que Vitor Hugo enviou mensagens com críticas à velha política em um grupo de WhatsApp do PSL. ​

O deputado federal Arthur Lira (PP-AL) - Lúcio Bernardo Jr - 17.mai.16/Câmara dos Deputados


Em seu terceiro mandato na Câmara, Lira vive pela primeira vez o cenário de não compor o governo. Assim como outros partidos, o PP não ganhou vaga nos ministérios de Jair Bolsonaro. O deputado alagoano é um dos que lideram o movimento de crítica e incompreensão sobre a “nova política”, expressão utilizada pelo presidente e recém-eleitos.

“Qual é a nova política? É a política da rede social? Os mais carentes vão receber as transformações pelas redes sociais? O velho é tudo que não presta? O que é que tem de novo até agora? Em três meses, muitos problemas. É isso o novo? A gente tem tido muita parcimônia e paciência”, acrescentou.

Lira também disse ser obrigação de Bolsonaro a articulação para a reforma da Previdência e que os deputados "não são empregados do governo para ter que aprovar o que ele manda.”

“Em 30 anos de mandato, eu nunca vi uma matéria com uma importância dessa sem apoio determinante de conversas por parte do governo com o Congresso para formar uma base.”

O centrão, aglomerado de partidos que não se alinharam automaticamente ao Planalto, já declarou que não tem acordo com a proposta da Previdência do ministro Paulo Guedes (Economia). 

Na semana passada, o grupo se posicionou, com veto as alterações no BPC (benefício pago a idoso carente) e nas regras de aposentadoria rural.

O líder do PP afirmou ainda que o ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) tem se esforçado na articulação política, mas não tem conseguido resultado. “Tem feito esforço, mas não tem avanço. Não conseguiu nada. Já era pra ter a base resolvida. Ele está sozinho”, declarou, elogiando Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso, a quem chamou de “apagadora de incêndio”. 

O parlamentar disse ter visto em frases recentes de Bolsonaro a tentativa de demonizar a política.“Ele [Bolsonaro] deu uma declaração sobre a prisão do [ex-presidente Michel] Temer, que a articulação política foi a causa. Ele quis demonizar a articulação política. Sem articulação, o governo não me convence e eu não convenço eles.”

Responsável pela indicação de aliados para cargos em outras gestões, Lira defendeu a prática, mas disse não ter feito nenhum pedido ao atual governo.

“Por que se brigava por cargos? É simples: porque, licitamente, através dos cargos, você levava transformação para os estados. Mas, agora, não preciso mais desse caminho”, completou, lembrando da recente aprovação do orçamento impositivo.

“[O orçamento impositivo] É o fim do toma-lá-dá-cá, definitivamente. Agora vai ficar muito mais confortável para o governo. Era sempre um Congresso de muita parceria e que deixava o Executivo muito à vontade. Isso não faz bem para a democracia.”

A aprovação foi vista como a segunda derrota do governo no Congresso neste ano. A primeira foi em fevereiro, quando os deputados derrubaram um decreto do governo que alterava a Lei de Acesso à Informação —o presidente teve de recuar e revogou a medida. 

Sobre a recente briga entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e Bolsonaro, disse que não há vencedor, por ser ruim para o país, mas que o Congresso saiu fortalecido e mostrou seu poder.

“Se quiser, e nós não queremos, o Poder Legislativo tem capacidade de fazer transformações muito fortes e a gente quer sempre usar essa força para fazer o bem. A gente não quer, no momento de ser emparedado, revidar. Isso é o que de pior pode acontecer.”

Para Lira, o governo tem que dar sinais de qual caminho vai traçar, para ganhar confiança.“Não há sinal nenhum. Se alguém souber, me avisa. As teses são ainda eleitorais. Nós [deputados do centro] estamos inseridos ou nós vamos ser a periferia? Para onde nós vamos? É isso que eu quero saber. Porque aí eu posso decidir se estou dentro desse caminho ou se estou fora”, disse.

Ele afirmou que há no Congresso preocupação com um golpe de Estado. “Há pessoas como o professor Olavo de Carvalho, que tem muita influência e prega a ruptura institucional no Brasil. Tem gente dentro do Planalto que prega a mesma coisa. Causa preocupação e alerta. Nosso maior bem é a democracia e tem que imperar.”

Sobre os filhos do presidente, disse que “o problema é o vereador [Carlos Bolsonaro], que não tem contribuído para que o Brasil tenha calma.”Alvo de três denúncias do Ministério Público, duas rejeitadas, e líder de uma das legendas mais citadas durante a Lava Jato, Arthur Lira fez críticas à operação e atacou Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República.

"Todos os partidos cometeram erros. Todos. Todos. Porque todos tiveram pessoas que erraram. Os erros têm de ser apurados com coerência. Janot não agiu com isenção. A Lava Jato tem acertos, mas tem erros inadmissíveis. Acabou com a reputação de muita gente boa. Meu partido foi o patinho feio dessa história. O Janot quase acabou com a gente.”

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