Atos contra democracia não são culpa de redes sociais, afirmam especialistas

Evento na Fundação Getulio Vargas no Rio debateu relações entre a digitalização e a democracia

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

​Especialistas debateram na manhã desta sexta-feira (24), em evento na Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, as relações entre a digitalização e a democracia. Como ponto comum, concordaram que as redes sociais por si só não podem ser responsabilizadas por atos que enfraquecem a democracia, como o compartilhamento de fake news

Sob o título "Digitalização e democracia: como fortalecer a democracia no Brasil e na Europa para a era digital?", o debate contou com a presença de Marco Aurelio Ruediger, chefe da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV e colunista da Folha durante as eleições, Ivar Hartmann, professor de direito da faculdade, Jeanette Hofmann, professora do Instituto Weizenbaum (Alemanha) e Thomas Traumann, ex-secretário de comunicação da Presidência. A mediação foi feita pela ombudsman da Folha, Flavia Lima.

O evento foi organizado pela FGV, em parceria com a Folha, a Embaixada da Alemanha e o Fórum de Democracia Europa-Brasil.

Seminário "Digitalização e democracia: como fortalecer a democracia no Brasil e na Europa para a era digital?", evento realizado pela FGV em parceria com a Folha no Rio de Janeiro
Seminário "Digitalização e democracia: como fortalecer a democracia no Brasil e na Europa para a era digital?". Evento no Rio de Janeiro foi organizado pela FGV, em parceria com a Folha, a Embaixada da Alemanha e o Fórum de Democracia Europa-Brasil - Reprodução/Twitter/DAPP/FGV

​Jeanette Hofmann ressaltou em sua fala que as redes sociais não têm agência e que são apenas plataformas utilizadas pela sociedade. Por isso, ela disse: "Não devemos responsabilizar as mídias digitais por tudo que acreditamos ser problemático no momento".

A professora defendeu que a mudança nas instituições democráticas ocorre de forma independente das mídias digitais e que existem duas transformações em curso simultaneamente —uma das mídias e outra da democracia. Segundo ela, a digitalização deve ser vista como um recurso para novas formas de engajamento político.

Traumann concordou que o problema não é a digitalização, mas o uso que a sociedade faz dela. "A questão não é o WhatsApp, a questão são as pessoas que estão por trás. O problema é a democracia em si, que tipo de democracia estamos criando."

Ele afirmou que as redes sociais reforçam a impressão de que os políticos devem muito a seus eleitores e que a relação de representatividade entre a sociedade e os políticos eleitos ainda é muito fraca. 

"A questão não é criar legislações diferentes para evitar fake news, mas como fazer com que os políticos recriem seus laços com seus eleitores. Como fazer com que os eleitores se sintam representados", disse.

Traumann afirmou que Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente eleito a partir do uso das redes sociais. Disse também que considera excelentes as transmissões via Facebook realizadas pelo presidente, no sentido de criar uma relação de prestação de contas ao eleitor.

Ele ressaltou, ainda, que Bolsonaro segue lógica e método na realização de sua comunicação, criando polêmicas sucessivamente e aplicando discursos diferentes a depender do público que deseja atingir.

Em sua fala, Hartmann defendeu menor intervenção do Estado na punição do compartilhamento de fake news. Segundo ele, o Judiciário deve se colocar como árbitro da atuação das plataformas privadas de comunicação na efetivação do cumprimento de suas regras de procedimento. 

O professor comentou, também, o que considera um ponto positivo da descentralização da comunicação: o funcionamento das redes sociais como alerta de incêndio.

Para ele, as mídias sociais sinalizam problemas e atraem atenção para eles, limitando elementos negativos da vida em sociedade, como o racismo. Ele ressaltou que o racismo é raramente punido na esfera penal, mas que, a partir das redes, é punido na esfera privada.

Assim como Hofmann, que disse que um grande desafio para a democracia é o fato de que a nova geração não se filiará a partidos políticos, Hartmann também comentou a perda de poder dessas instituições. Para ele, os partidos estão em desvalorização, em oposição à valorização do voto. 

Ele defendeu, ainda, que a produção acadêmica precisa ser mais devagar quanto mais rápidas são as mudanças em curso, para evitar erros de entendimento sobre o cenário atual.

Ruediger utilizou seu tempo para trazer elementos sobre a atuação nas redes sociais em distintos momentos políticos do país ao longo dos anos, como a polarização em 2016 diante do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e o uso de robôs e desinformação durante as eleições de 2018

Ele abriu sua apresentação mostrando uma foto da autoria de Pedro Ladeira, fotógrafo da Folha, durante votação no Congresso que tirou o Coaf do Ministério da Justiça, em derrota do ministro Sergio Moro.

Na imagem, diversos deputados do PSL aparecem no mesmo enquadramento fazendo gravações individuais com seus celulares para as mídias sociais. "Começaram a construir narrativa própria sobre o que aconteceu. Não é mais o fato, mas a narrativa do fato", disse Ruediger.

Por fim, durante a abertura de perguntas para a plateia, Hofmann afirmou que a democracia está sempre sob risco de passar por períodos mais frágeis, e que é um sistema político mais frágil do que se acreditava nas últimas décadas. 

"Fico surpresa com quantas pessoas hoje questionam a democracia como forma de governo. Nunca pensei que isso poderia acontecer. Como cientista, acho interessante. Como cidadã, acho a situação ameaçadora."

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