Substituto de Santos Cruz é chefe militar da ativa mais próximo de Bolsonaro

Escolha do presidente é manobra arriscada diante de simbiose entre Exército e governo

Igor Gielow
Brasília

A demissão do general Carlos Alberto dos Santos Cruz foi uma vitória tardia do grupo olavista do governo Jair Bolsonaro (PSL), e a escolha de seu substituto uma arriscada manobra visando agradar a gregos e a troianos.

O general de Exército Luiz Eduardo Ramos já vinha sendo chamado de o “nono ministro militar” do governo há tempos, dada sua proximidade com o presidente. Agora, manterá a oitava cadeira.

À frente da tropa mais poderosa do Brasil, o Comando Militar do Sudeste (São Paulo), Ramos é o chefe militar da ativa mais próximo de Bolsonaro.

Eles dividiram quarto quando eram cadetes, e eles se falam quase diariamente. Entre eles, o presidente é o “cavalão” e Ramos, o “pitbull”.

Quase não há evento em São Paulo com a presença de Bolsonaro no qual Ramos não está presente.

Sua escolha teoricamente compensa o mal-estar causado no Alto Comando pelo sacrifício de Santos Cruz, considerado um soldado exemplar que só não integrou o colegiado dos quatro estrelas porque foi preterido por questões políticas.

Resta saber se assim o será na prática. Dois fatores pesam. O primeiro é que Ramos, de resto popular por seu estilo bonachão e bem humorado, tem sua afinidade com o presidente vista como excessiva por alguns de seus pares.

Um deles citou, reservadamente, que parecia inadequado que um membro do Alto Comando integrasse o ministério após o grupo ideológico do governo ter obtido a cabeça de um general respeitado.

Além disso, a pretendida distância entre a ativa e a administração fica mais comprometida, explicitando a simbiose entre Exército e o governo. O risco de a Força incorporar os desgastes naturais do governo é grande.

A mudança também pode resolver um mal-estar que vinha ocorrendo com o protagonismo do comandante do Sudeste junto ao presidente.​

Luiz Eduardo Ramos, general que assumirá a vaga de Santos Cruz na Secretaria de Governo, na sessão solene em memória aos 50 anos da morte do sargento Mário Kozel Filho, na Alesp em 2018 - Marco A. Cardelino/ALSP

Em Brasília, o prestígio era visto como demeritório para o ministro da Defesa, general da reserva Fernando Azevedo, que tem longa história como superior direto de Ramos.

Um amigo comum dos dois, contudo, sustenta que isso é intriga de quartel e que o companheirismo entre eles é inquebrantável.

Já a questão da vitória tardia do escritor Olavo de Carvalho sobre seu principal desafeto na ala militar seguirá como um problema.

No episódio em que defendeu o ideólogo do bolsonarismo no embate com Santos Cruz, o presidente viu os fardados do governo e da ativa se calarem por uma questão hierárquica.

Mas eles nunca engoliram o episódio, até porque nele foi exposto o respeitado ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, ora lotado como assessor no Planalto.

Continuam apontando os filhos presidenciais e expoentes olavistas Eduardo, deputado federal pelo PSL-SP, e o vereador Carlos (PSC-RJ), como responsáveis pela fritura de longo prazo de Santos Cruz.

Um aliado do presidente brincou, dizendo que agora o placar estava 1 a 1: o olavista Ricardo Vélez foi defenestrado da Educação em uma disputa que envolveu indiretamente os militares, que agora veem o general ir para a rua.

Segundo um político com intenso entre os fardados, tal leveza de avaliação não deveria ocorrer porque é incerto como ficará o relacionamento de Bolsonaro com a ala militar.

A chegada ao governo do oficial, promovido a general-de-Exército (quatro estrelas, topo da carreira) em 2017, mantém intacta a cota informal de militares com passagem pela Missão de Paz do Haiti no governo.

Ele será o segundo general da ativa no Planalto: o porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, é general-de-divisão.

Ele é cotado para receber a quarta estrela na próxima rodada de promoções, no fim deste mês –haveria uma só vaga, para a turma de oficiais de 1981, mas a ida de Ramos ao governo na condição de agregado ao serviço civil permite a abertura de mais um posto.

A área de comunicação poderá ser afetada pela mudança. Subordinado a Santos Cruz, o titular da Secretaria de Comunicação, Fábio Wajngarten, pleiteava mudar-se para o guarda-chuva da Presidência. Isso pode vir acontecer agora.

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