Descrição de chapéu Flip

Historiador vê com pessimismo papel das Forças Armadas na República

Para José Murilo de Carvalho, preocupação de militares 'ameaça comunista' não é fenômeno recente

Naief Haddad
São Paulo

Um dos maiores historiadores do país e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), José Murilo de Carvalho acaba de relançar “Forças Armadas e Política no Brasil”. Publicado originalmente em 2005, o livro ganha uma nova edição, que inclui textos inéditos sobre a relação entre militares e civis nos últimos anos. A obra alcança os primeiros meses do governo Jair Bolsonaro.

Prestes a completar 80 anos, Carvalho participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) nesta sexta (12), às 15h30, no auditório da Matriz.

O historiador José Murilo de Carvalho - Raquel Cunha-25.mai.19/Folhapress

No prefácio para esta reedição, o historiador escreve que se trata de “uma nova e mais pessimista interpretação do papel das Forças Armadas na história da nossa República e na construção de nossa ainda claudicante democracia”

Por que mais pessimista? “Me dei conta de que todas as Constituições republicanas, exceto a do Estado Novo [1937], dão às Forças Armadas um papel político de manter a harmonia dos poderes constitucionais. Se nosso sistema representativo não se estabilizar, as oportunidades de intervenção vão continuar a cada crise mais grave, com apoio na Constituição”, diz à Folha.

Carvalho lembra que a Constituição de 1988 estabelece, em seu artigo 142, que as Forças Armadas se destinam, entre outras incumbências, “à garantia dos poderes constitucionais”.

Para ele, seria um avanço excluir da Constituição esse papel moderador das Forças Armadas, tornando-as efetivamente profissionais, alheias ao mundo político, como acontece nas grandes democracias liberais. “Mas creio que o principal [neste momento] é fortalecer as instituições civis de modo a não dar oportunidade à intervenção [militar]”, afirma.

O autor também deixa claro no livro que a preocupação de militares brasileiros com supostas ameaças comunistas não é um fenômeno recente. A fixação dessa mentalidade antecede em três décadas o golpe de 1964, ocasião em que o combate à esquerda também era evidente.

Carvalho aponta como momento-chave novembro de 1935, quando aconteceram revoltas militares comandadas por Luís Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro (PCB). “O governo espalhou que, na Escola Militar do Rio de Janeiro, os rebeldes tinham fuzilado colegas que estavam dormindo, versão hoje contestada. A pecha de traidores e assassinos de colegas foi amplamente divulgada, e o evento passou a ser celebrado todos os anos como instrumento de propagar o ódio aos comunistas”, afirma.

 À parte a sanha anticomunista, o historiador evita aproximações entre a ditadura militar e a democracia sob Bolsonaro. “Não se pode deduzir do fato da inédita presença de militares no governo a existência de um governo militar que se pareça com o que vigeu entre 1964 e 1985”, escreve. “Esses militares trazem consigo, sem dúvida, valores e práticas dos quartéis, mas não representam suas corporações.”

Ao longo de mais de 300 páginas, Carvalho mostra que foram poucos os momentos de calmaria na disputa pelo poder entre militares e civis na história republicana do Brasil. A começar pela Primeira República (1889-1930), período em que as Forças Armadas são tratadas como “o poder desestabilizador”.

 

“A primeira e a última década [da Primeira República] foram marcadas por revoluções de jovens oficiais, com apoio de algum general. Os donos civis da República cooptavam os generais, mas as bases eram rebeldes. Foram 18 revoltas. Se isso não é desestabilizar, o que será?”

  
Forças Armadas e a Política no Brasil
Autor: José Murilo de Carvalho. Ed. Todavia. 320 páginas. R$ 50 (versão digital, R$ 40). 

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