Avaliador reduz ainda mais preço de joias de ex-primeira-dama do RJ para leilão

Laudo aponta valor 81% menor do que o avaliado pela PF, e leiloeiro sugere desconto de 60% para atender a pedido do juiz Marcelo Bretas

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

O avaliador contratado para atribuir novos preços às joias de Adriana Ancelmo, ex-primeira dama do Rio de Janeiro, reduziu-os ainda mais. Enquanto a Caixa Econômica Federal havia proposto um desconto de 78%, o novo profissional reduziu em 81% o valor das 40 unidades.

Essa nova avaliação ocorreu após determinação do pedido do juiz Marcelo Bretas, que havia considerado muito baixo o valor sugerido pela Caixa. Agora, o leiloeiro Renato Guedes sugere que o preço mínimo do lote seja apenas 60% do atribuído pela Polícia Federal.

O lote faz parte do material apreendido no apartamento do casal Cabral, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, no dia 17 de novembro de 2016, data da Operação Calicute que prendeu o ex-governador Sérgio Cabral (MDB-RJ).

Colar apreendido pela Polícia Federal no apartamento do ex-governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro - Divulgação/Polícia Federal

A polêmica sobre o preço das joias de Adriana Ancelmo começou após a Folha revelar que a Caixa havia avaliado as peças em 22% do que a PF havia atribuído

A polícia estimou o valor das 40 unidades em R$ 2,07 milhões, com base em notas fiscais entregues por joalherias e pesquisa de mercado. A Caixa as atribuiu a soma de R$ 455 mil.

Bretas então determinou uma nova avaliação. Guedes contratou o joalheiro José Lopes de Alencar Júnior. O laudo tinha como objetivo atualizar o valor de mercado das peças.

Junior fez o cálculo com base no peso das pedras preciosas de cada joia —safira, esmeralda, tanzanita, rubi, entre outras. Ele não considera o design ou a marca da peça. O profissional determinou que o lote custava atualmente R$ 398 mil.

Guedes então decidiu fazer uma média entre as três avaliações (PF, Caixa e Junior) e de uma pesquisa de mercado feita por sua equipe na internet. O cálculo baixou para 60% o desconto a ser dado no preço mínimo do leilão. Bretas ainda vai decidir sobre o caso.

As joias foram apontadas como uma das formas do casal Cabral lavar o dinheiro obtido com propinas. O ex-governador foi condenado a 13 anos e quatro meses de prisão no processo que trata da lavagem de dinheiro por meio das joias. Adriana Ancelmo, a dez anos e oito meses.

O valor de venda das joias e relógios vai depender dos interessados, que darão lances sucessivos para se obter o maior valor possível. Ironicamente, pode estar nas mãos deles a efetividade da tese de defesa apresentada por Cabral sobre o tema.

“Não se lava dinheiro comprando joias. [...] Vossa Excelência sabe que, quando são compradas e saem da loja, já saem sem o valor da vitrine”, disse Cabral. O laudo de Guedes, em tese, corrobora a tese do ex-governador. Ele compara a joia a um carro zero quilômetro que perde valor ao sair da concessionária.

Foi neste interrogatório, inclusive, que o ex-governador discutiu com o juiz Marcelo Bretas ao mencionar o fato de a família do magistrado ser dona de loja de bijuteria.

“Vossa Excelência tem um relativo conhecimento sobre o assunto porque sua família mexe com bijuterias. Se não me engano, é a maior do estado”, disse o ex-governador, que teve a segunda informação negada por Bretas. 

“Foram as informações que me chegaram”, completou Cabral na ocasião. Essa fala, que indicou para o juiz o recebimento de informações consideradas indevidas a um preso, motivou sua transferência para Curitiba, posteriormente revogada.

Desde o início deste ano, Cabral decidiu confessar os crimes que lhe são atribuídos, como a cobrança de propina sobre os grandes fornecedores do estado. Ele ainda não abordou a acusação de lavagem de dinheiro por meio de joias nos interrogatórios com a nova postura. Há um recurso em análise no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) contra essa condenação.

A defesa de Adriana Ancelmo afirmou que a ex-primeira-dama "comprou joias de forma lícita e recebeu presentes sem saber a forma com que foram comprados". "A aquisição nunca teve o objetivo de lavar qualquer dinheiro ilícito, ao qual ela sequer teve contato", disse o advogado Alexandre Lopes.

Há ainda outras 97 joias apreendidas no mesmo apartamento em 5 de dezembro de 2016, na operação que prendeu Adriana. Este conjunto valia R$ 2,9 milhões, segundo a PF —incluindo a peça mais cara arrecadada com as autoridades: um par de brincos em formato de flores com 24 diamantes cada um, avaliado em R$ 240 mil.

O Ministério Público Federal não incluiu esse lote no pedido feito à Justiça, mas isso deve ocorrer em breve. Ainda que numerosas, as joias apreendidas estão longe de serem as mais valiosas compradas pelo casal.

As autoridades não encontraram até hoje as mais caras, como o brinco espeto de turmalina com diamantes, que custa R$ 612 mil, e o anel de ouro amarelo com rubi, estimado em R$ 600 mil. Apenas nas joalherias H. Stern e Antonio Bernardo o casal gastou R$ 6,5 milhões.

O leilão tem como objetivo arrecadar fundos para o pagamento de multas dos réus caso sejam condenados definitivamente pela Justiça.

A princípio, os valores ficariam depositados até a decisão de última instância, mas o casal Cabral decidiu abrir mão dos bens a fim de obter redução de pena. Dessa forma, o dinheiro já pode ter a destinação determinada pelo juiz Marcelo Bretas.

A Justiça já vendeu a residência do casal em Mangaratiba (RJ), outros imóveis e veículos. Mas uma lancha atribuída ao ex-governador continua “encalhada” e não tem data prevista para ir a leilão.

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