Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Em meio a bloqueios de recursos, governo gasta R$ 1,6 mi com medalhas

Egresso do Exército, Bolsonaro se destaca tanto por entregar quanto por receber condecorações

Ranier Bragon
Brasília

Presidente da República egresso da carreira militar, Jair Bolsonaro (PSL) deu em seus primeiros meses de governo impulso ao gasto para confecção de um apetrecho caro à caserna, as medalhas.

Os ministérios das Relações Exteriores, da Defesa, Exército, Marinha, Aeronáutica e Escola Superior de Guerra têm mais de 50 tipos diferentes de condecorações, da Medalha do Pacificador à Medalha Sangue do Brasil.

O custo para confecção delas ficou em R$ 1,6 milhão nos primeiros meses de 2019 —dados que vão até abril ou junho, a depender do órgão.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) na cerimônia de entrega de medalhas do Mérito Mauá, no Clube Naval, em Brasília
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) na cerimônia de entrega de medalhas do Mérito Mauá, no Clube Naval, em Brasília - Pedro Ladeira - 15.ago.2019/Folhapress

Apesar de o governo ter patrocinado um contingenciamento que atingiu severamente diversas pastas, entre elas a da Educação, o desembolso para as medalhas supera, proporcionalmente, os feitos em 2017 e 2018, se assemelhando aos de 2016 (R$ 3,7 milhões) caso sigam no mesmo ritmo até o fim do ano.

Os valores foram obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.

Em abril, o presidente concedeu ao guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, o mais alto grau da Ordem de Rio Branco, do Itamaraty, condecoração dada pelo governo do Brasil para “distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção.” Ele admitiu Olavo no grau de grã-cruz da ordem.

Na mesma ocasião, foram agraciados, com medalhas de grau inferior, os filhos Flavio (senador) e Eduardo (deputado federal), além de ministros, governadores e congressistas aliados, entre eles o deputado federal Helio Negão (PSL-RJ), espécie de sombra do presidente da República.

Capitão do Exército reformado, Bolsonaro se destaca tanto em dar quanto em receber medalhas.

A Folha identificou que o presidente da República recebeu ao menos sete tipos diferentes de medalhas, quatro delas durante a gestão daquele que ele aponta hoje como seu arquirrival, o petista Luiz Inácio Lula da Silva —só parte dos órgãos divulga publicamente a lista dos agraciados pelas condecorações.

As medalhas começaram a aparecer com mais intensidade na lapela de Bolsonaro na primeira gestão de Lula, quando o capitão reformado estava em seu quarto mandato na Câmara dos Deputados —local em que permaneceu por 28 anos como parlamentar do chamado baixo clero, o contingente de baixíssima projeção política nacional.

Após ter deixado o serviço ativo do Exército absolvido em um processo em que era suspeito de planejar atentados a bomba no Rio, Bolsonaro pautou todos os seus mandatos na Câmara pela defesa dos interesses corporativos dos militares.

De acordo com os registros oficiais, em 2004, 2005 e 2006 ele recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Aeronáutico, a Medalha da Vitória (Ministério da Defesa), a Ordem do Mérito Militar (Exército) e a Medalha Santos-Dumont (Aeronáutica).

Em geral, elas têm por objetivo recompensar pessoas que tenham prestado relevantes serviços às Forças. A da Vitória, especificamente, destina-se a agraciar aqueles que contribuíram para a difusão dos feitos dos brasileiros que lutaram na 2ª Guerra Mundial.

Doze anos depois, já eleito presidente da República, voltou a atrair insígnias.

Em dezembro de 2018, o Comando do Exército lhe concedeu a Medalha do Pacificador com Palma, uma das mais prestigiosas das Forças. A justificativa foi a de que Bolsonaro arriscara 30 anos antes a vida para salvar um colega do afogamento.

No livro que escreveu sobre o pai (“Bolsonaro, Mito ou Verdade”), o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) relata que no ano de 1978 o hoje presidente salvou um colega de morrer afogado. “Negão Celso”, como era conhecido, havia caído na água durante uma prova militar.

“Rapidamente, Bolsonaro arrancou a gandola, os coturnos e pulou na água para resgatá-lo. [...] Uma evidente prova de ‘racismo’ de Bolsonaro já nos tempos da caserna”, escreveu Flávio.

Bolsonaro sempre ressalta que um dos motivos pelos quais o país deve considerar como herói o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos principais símbolos da repressão durante a ditadura militar, é o fato de ele ter recebido, em 1972, a Medalha do Pacificador com Palma. 

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, só na gestão de Ustra o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações) do 2º Exército (SP) foi o responsável pela morte ou desaparecimento de ao menos 45 presos políticos.

Instituída em 1962, a Medalha do Pacificador com Palma é feita em bronze e tem cerca de 3 cm de largura por 3 cm de altura, com uma palma dourada na fita. É vendida por cerca de R$ 500 em anúncios na internet.

Oficialmente, seu intuito é “premiar militares brasileiros que, em tempo de paz, se houvessem distinguido por atos pessoais de abnegação, coragem e bravura, com risco da própria vida”.

Já presidente, Bolsonaro foi condecorado ao menos com a Medalha Ordem do Mérito da Defesa, a Ordem do Mérito Naval (grã-cruz), a Ordem do Mérito Militar (grã-cruz) e a Medalha da Ordem do Mérito Aeronáutico.

Em nota, a Defesa afirmou que “as medalhas representam uma antiga tradição militar, uma forma de homenagear àqueles que se destacaram”, se caracterizando como forma importante de motivação e reconhecimento.

“Hoje, estão presentes nas Forças Armadas da maior parte dos países”, diz o texto enviado pela pasta.

“No Brasil, as Forças possuem um conjunto de medalhas e condecorações, com as quais, além de homenagear seus integrantes que se destacaram ao longo de suas respectivas carreiras, buscam também homenagear personalidades e instituições que desempenharam serviços relevantes para as respectivas forças”, afirma a nota.

O Itamaraty afirmou, também por escrito, que a Ordem de Rio Branco tem por objetivo “serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção”.

 
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